sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Vinte e cinco anos depois, o espírito de Assis.

Uma delegação católica liderada pelo Patriarca de Antioquia acaba de entregar ao ministro egípcio de assuntos religiosos uma tradução autêntica, em árabe, do discurso pronunciado em 10 de janeiro por Bento XVI diante do corpo diplomático.
Este discurso seguiu-se por uma ruptura de diálogo de Al Azhar com o Vaticano.
A diligência oficial do Patriarca de Antioquia, segundo o La Croix, expressou ao ministro egípcio a esperança de que Al Azhar “estará em Assis, em outubro, por convite de Bento XVI, para comemorar os 25 anos do primeiro encontro”.
Há, portanto,  pouca possibilidade de que esta comemoração de outubro seja cancelada. O anúncio foi feito, os convites chegaram, a Santa Sé a vê mesmo como uma ocasião e um motivo para retomar o diálogo com o islã. A súplica a Bento XVI para um cancelamento não será atendida, mas colocará algumas questões, sugerirá reflexões, e talvez fará avançar o debate.
Esta súplica é de vários leigos italianos, universitários, jornalistas, intelectuais: Francis Agnoli, Lorenzo Bertochi, Roberto de Mattei, Corrado Gnerre, Alessandro Gnocchi, Camilio Langone, Mario Palmaro são os primeiros signatários. Sua apreensão é ver se prolongar um espírito de Assis que — para resumi-lo — não leva em conta a diferença, todavia declamada há vinte e cinco anos, entre “rezar juntos” e “se reunir para rezar”.
Para dizer a verdade, a diferença declamada nunca foi explicada. Vê-se efetivamente a diferença verbal, que tranquiliza: há, portanto, uma diferença, ótimo. Mas pouco se vê, ou absolutamente não se vê, em que consiste esta diferença. Descobrir que se está em uma igreja “reunidos para rezar” é muito parecido com “rezar juntos”…
Não haveria esta dificuldade se o encontro de Assis, o de vinte e cinco anos atrás e a sua repetição, fosse considerado não como um ato religioso, mas como uma medida diplomática em vista da paz mundial. Aliás, trata-se da paz temporal, problema político, e não da paz das almas (que, nos santos, consiste mesmo em plena guerra). Estando claro que é uma política da Santa Sé que está em questão, é evidente que seus aspectos e consequências discutíveis possam ser discutidos. Se for uma pastoral religiosa (e missionária?), então isso se tornaria mais delicado.
É o Papa que realizou Assis, é ainda um Papa que vai retomá-lo; o Soberano Pontífice é, portanto, quem reúne as religiões, quem se encontra, de certa forma, à sua cabeça, é um chefe de orquestra. O fracasso mundial dos poderes temporais, sua impotência diante das feudalidades financeiras internacionais, sua recusa a toda lei divina superior à consciência humana os lançam uma desqualificação moral tão radical quanto seu dano político. Dai a César…, mas a Santa Sé não encontra mais diante de si um César digno deste nome. É uma situação de exceção.
Assim como houve um “espírito do Concílio” terrivelmente devastador, no qual se rejeitava tudo o que lhe era anterior, do mesmo modo se vê um “espírito de Assis” igualitário que induz a crer que todas as religiões são da mesma natureza e convergem igualmente para o bem. Para que em dezembro de 2005 o debate sobre o “espírito do Concílio” fosse, enfim, oficialmente liberado, foi necessário que passassem e  desvanecessem quarenta anos e três Papas. Para que seja oficialmente liberado o debate sobre o “espírito de Assis” talvez seja necessário muito menos. Poderia ser, porque não, inesperadamente em outubro.
JEAN MADIRAN
Artigo extraído do n° 7274 de Présent de sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011.


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