Entre os grandes acontecimentos já ocorridos ou por ocorrer neste ano de 2000, ocupará certamente um lugar ímpar a revelação da terceira parte do Segredo de Fátima feita pela Santa Sé, com grande aparato publicitário, no último dia 26 de junho, na Sala Stampa do Vaticano. A sessão, presidida pelo próprio Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, acompanhado de Mons. Tarcisio Bertone, Arcebispo-emérito de Vercelli e Secretário da mesma Congregação, foi retransmitida ao vivo pela rede de TV estatal italiana e outras emissoras de TV de todo o mundo.
O documento divulgado pela Santa Sé se intitula A mensagem de Fátima e reúne diversas peças da maior importância, entre as quais um Comentário teológico, feito e assinado pelo Cardeal Ratzinger, contendo uma explanação sintética sobre o "lugar teológico" da revelação pública e das revelações privadas na Igreja, seguido de "uma tentativa de interpretação do 'segredo' de Fátima".
Na conferência de imprensa da Sala Stampa. O Cardeal Ratzinger foi enfático ao afirmar que de forma alguma a Santa Sé pretendia impor essa interpretação, pela que se deduz estar facultado aos estudiosos tentar aprofundá-la Ou mesmo oferecer novas perspectivas de interpretação. Com quanta prudência e modéstia devem fazê-lo, é supérfluo encarecer.
De nossa parte, é o que despretensiosamente procuraremos encetar em seguida, aduzindo conceitos da espiritualidade montfortiana (de São Luís Maria Grignion de Monfort), tão afins com a Mensagem de Fátima, bem como enriquecimentos desses conceitos produzidos pele eminente pensador e homem de ação católico Professor Plínio Corrêa de Oliveira, falecido em 1995. Excertos de dois artigos seus publicados em Catolicismo (de maio de 1953 e fevereiro de 1958, respectivamente) e que também transcrevemos aqui, constituem autênticas glosas do terceiro Segredo, feitas com mais de quatro décadas de antecedência!
Para maior facilidade de compreensão, intercala subtítulos no texto da terceira parte do Segredo, que extraímos do referido documento apresentado pela Sagrada Congregação da Doutrina da Fé.
D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, ordenou à Irmã Lúcia escrever a mensagem de Nossa Senhora.
Manuscrito que contém a terceira parte do segredo. Terceira parte do Segredo: Visão profética de um castigo iminente, de uma catástrofe imensa e do grande retorno das almas a Deus. A terceira parte do segredo revelado a 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria - Fátima.
Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe (1).
Comentários:
Nossa Senhora aparece à Irmã Lúcia, no dia 2 de janeiro de 1944.
A Irmã Lúcia escreve por ordem do Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, e da própria Mãe de Deus. Em seu livro Novos documentos de Fátima, o Pe. António Maria Martins S.J. transcreve um documento do acervo do Cônego Sebastião Martins dos Reis, no qual se lê: "Segundo declarações escritas da Madre Cunha Mattos, que fora superiora da Irmã Lúcia em Tuy e que recebera as confidências mais íntimas da Vidente, Nossa Senhora apareceu à religiosa no dia 2 de janeiro de 1944 e disse-lhe para escrever a terceira parte do Segredo. Essa aparição deu-se porque a Vidente não Sabia o que fazer dado que o Bispo de Leiria lhe ordenara que o escrevesse e o Arcebispo de Valladolid, que tomara conta da diocese deTuy, lhe dizia que não".
Primeira cena:
A ameaça de castigo que pende sobre o mundo.
Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia que iam incendiar o mundo; mas apagava-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência!
Comentários:
"A Irmã Lúcia concorda com a interpretação segundo a qual a terceira parte do 'segredo' consiste numa visão profética comparável às da história sagrada", afirma Mons. Bertone no relatório que fez do colóquio com a vidente em 27 de abril de 2000.
A visão se divide em três cenas esquematicamente distintas, mas que se articulam de modo muito coerente e profundo. Na primeira cena, como observa o Cardeal Ratzinger em seu Comentário teológico, "o anjo com a espada de fogo à esquerda da Mãe ele Deus lembra imagens análogas do Apocalipse: ele representa a ameaça do juízo que pende sobre o mundo".
O Anjo --- narra a Irmã Lúcia --- com o cintilar de sua espada "despedia chamas que, parecia, iam incendiar o mundo". É óbvio que o Anjo não iria executar essa ação por decisão própria, mas havia recebido ordens de Deus para isso. De onde se deduz facilmente que o mundo está numa situação espiritual e moral tal que mereceria ser castigado por Deus por essa forma. E, ao que parece, tratar-se-ia de uma destruição total. Assim o interpreta o Cardeal Ratzinger: "A possibilidade que este [o mundo] acabe reduzido a cinzas num mar de chamas. hoje já não aparece de forma alguma como pura fantasia: o próprio homem preparou, com suas invenções, a espada de fogo".
O primeiro ponto a reter, portanto, é que a humanidade está de tal maneira afastada de Deus e de sua Igreja - o que se manifesta claramente por uma recusa teórica e/ou prática de sua Doutrina e de sua Moral - que isto implica num ato de rebelião contra Deus, merecedor de um castigo supremo. É fundamental frisar tal conclusão, pois muitos católicos de hoje, inclusive de grande projeção, pensam, falam e se comportam como se a situação atual do mundo não fosse essa.
Entretanto, Nossa Senhora intervém, e obtém de Deus que o Anjo não leve a ação ao seu termo, normal. que seria a destruição do mundo. As chamas lançadas pelo Anjo em direção à Terra "apagavam-se com o contacto ao brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro" - descreve a Irma Lúcia. O que significa que Nossa Senhora tem desígnios de misericórdia em relação ao mundo, e quer dar a este uma oportunidade de salvação. Mas para isto é preciso, que a humanidade reconheça o seu pecado e faça penitência. Por isso, no quadro final dessa cena, "o Anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse. Penitência, Penitência, Penitência!".
O fato de o Anjo clamar “com voz forte” e repetir o brado de “Penitência” por três vezes indicam que não se trata de uma penitência feita com superficialidade de espírito, mas de uma penitência séria, que implique numa conversão profunda. O que, mais uma vez, denota a gravidade do estado de afastamento de Deus em que a humanidade se encontra.
A primeira cena é, pois, de uma coerência perfeita.
Segunda cena:
Uma pavorosa catástrofe que deixa o mundo meio em ruínas produz vítimas em todas as categorias sociais, inclusive e maximamente o Santo Padre, o Papa.
E vimos numa luz imensa que é Deus: "algo semelhante a como se vê as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio tremulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelho aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições.
Comentários:
O mundo aparece agora semidestruído ("uma grande cidade meio em ruínas") É forçoso concluir que a intervenção de Nossa Senhora impediu uma destruição total, porém não uma destruição parcial. Os homens obviamente não fizeram a penitência necessária: o castigo desencadeou-se.
Personagem central dessa cena é o Santo Padre que, com "Vários outros Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas", vai subindo "uma escabrosa [pedregosa, íngreme] montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz de troncos toscos. Porém, antes de aí chegar, o Papa atravessa” uma grande cidade meia em ruínas e meio trêmulo com andar vacilante acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho". 0 Cardeal Ratzinger comenta: "O Papa parece caminhar à frente dos outros, tremendo e sofrendo por todos as horrores que o circundam. E não são apenas as casas da cidade que jaz em meia em ruínas: o seu caminho é ladeado pelos cadáveres dos mortos”. A cena é, pois, de uma catástrofe espantosa.
Não seria exagerado qualificá-la de apocalíptica, como apocalíptico é o Anjo que a desencadeou (ressalvado sempre que não se trata do fim do mundo, como prudentemente advertiu o Cardeal Ratzinger em seu Comentário teológico).
O que terá ocorrido? Segundo a interpretação do Purpurado. "nesta imagem, pode-se ver representada a história de um século inteiro. Tal como os lugares da terra aparecem sinteticamente representados nas duas imagens da montanha e da cidade e estão orientados para a cruz assim também os tempos são apresentados de forma contraída: na visão, podemos reconhecer o século vinte como século dos mártires, como século dos sofrimentos e perseguições à Igreja, como o século das guerras mundiais e de muitas guerras locais".
Em outras palavras. aquilo que a visão apresenta como uma cena única, é, na realidade. uma superposição de cenas análogas de perseguições à Igreja e destruições (guerras) que se escalonam ao longo do século, e que, infelizmente. estão longe de haver terminado. Basta ter em mente as perseguições a católicos que ocorrem nos próprios dias de hoje. em diversas partes do mundo, e os numerosos conflitos ainda existentes entre povos e nações.
Essa mesma superposição de cenas, o Cardeal Ratzinger distingue na árdua subida da montanha, onde "podemos sem dúvida ver figurados conjuntamente diversos Papas, começando de Pio X até ao Papa atual, que partilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram por avançar, no meio deles, pelo caminho que leva à cruz. Na visão, também o Papa é morto na estrada dos mártires".
E acrescenta: "Não era razoável que o Santo Padre, quando, depois do atentado de 13 de maio de 1981, mandou trazer o texto da terceira parte do 'segredo', tivesse lá identificado o seu próprio destino? "
Se bem que tal correlação do terceiro Segredo com o atentado a João Paulo II não tenha alcançado unanimidade nos meios católicos, ela não pode deixar de ser mencionada respeitosamente aqui. Alguns, sem excluir essa hipótese - de que o atentado esteja no contexto das perseguições à Igreja simbolizadas pela visão - preferem ver na imagem do "Bispo vestido de branco" mais um símbolo dos diversos Papas, do que de uma pessoa em particular, como declarou, por exemplo, o Bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva (cfr. "Corriere della Sera", 27-6-00). O que, aliás, é opinião compartilhada pelo próprio Cardeal Ratzinger, no trecho citado imediatamente acima.
De qualquer modo, a longa série de martírios descritos no terceiro Segredo - que alcança também "pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições" - prossegue em nossos dias, e não se pode excluir que o ódio dos inimigos da Fé chegue a perpetrar novos atentados de igual ou ainda maior magnitude.
Quais são os agentes humanos desses atentados e destruições, representados na visão pelo "grupo de soldados" que "dispararam vários tiros e setas" contra o Santo Padre e os que o seguem, matando-os uns após outros?
Segundo indicação da Irmã Lúcia em carta dirigida a João Paulo II em 12 de maio de 1982, a terceira parte do Segredo deve ser interpretada à luz da segunda parte, e mais especificamente das palavras: "Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas". E ela mesma comenta: "Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com seus erros. E se não vemos ainda, como fato consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos".
Ao referir-se pela primeira vez ao texto do terceiro Segredo, no dia 13 de maio de 2000, o Cardeal Sodano generaliza o agente humano dessas perseguições para todos os sistemas ateus do século XX. E o faz com fundamento, pois quer o socialismo, quer o nazismo são velada ou claramente caudatários dos erros do comunismo, ainda quando se apresentem como opostos a ele. E, aliás, se projetam, mais ou menos metamorfoseados, século XXI adentro.
Assim, é todo o mundo secularizado e amoral de nossos dias - basta pensar no aborto, no amor livre, na união civil entre homossexuais, que se pretende legalizar por toda parte, nas investidas contra o direito de propriedade, no igualitarismo mais radical que recusa até as desigualdades sociais justas, proporcionadas e harmônicas - é todo esse mundo que está de pé, em revolta contra Deus e a Santa Igreja.
Cabe, por fim, perguntar qual é o fruto desses holocaustos passados, presentes e futuros. A terceira cena da visão nô-lo indica.
"A visão da terceira parte do `segredo', tão angustiante ao início, termina numa imagem de esperança"
Terceira cena:
O Grande Retorno da humanidade a Deus.
Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.
Tuy-3-1-1944”
Comentários:
A profecia de Fátima só pode ter um ponto final quando a humanidade prevaricadora se reaproximar de Deus. Mas para que essa volta se torne possível, é indispensável que seja regada por graças especialíssimas, simbolizadas pelo sangue dos Mártires que os Anjos derramam sobre as almas que estavam longe de Deus (se se "aproximavam" é porque estavam longe) e para Ele retornam.
Assim parafraseia o Cardeal Ratzinger a descrição da Irmã Lúcia: "Anjos recolhem, sob os braços da cruz, o sangue dos mártires e com ele regam as almas que se aproximam de Deus. O sangue de Cristo e o sangue dos mártires são vistos aqui juntos: o sangue dos mártires escorre dos braços da cruz. O seu martírio realiza-se solidariamente com a paixão de Cristo, identificando-se com ela. Eles completam em favor do corpo de Cristo o que ainda falta aos seus sofrimentos (cf. Col 1, 24). .... O sangue dos mártires é semente de cristãos, disse Tertuliano. .... Deste modo, a visão da terceira parte do `segredo', tão angustiante ao início, termina numa imagem de esperança: nenhum sofrimento é vão, e precisamente uma Igreja sofredora, uma Igreja dos mártires torna-se sinal indicador para o homem na sua busca de Deus. .... Do sofrimento das testemunhas deriva uma força de purificação e renovamento, porque é a atualização do próprio sofrimento de Cristo e transmite ao tempo presente a sua eficácia salvífica".
A terra purificada e renovada pelo sangue de Mártires autênticos corresponde à noção de Reino de Maria, do qual falou São Luís Maria Grignion de Montfort em seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem: "Tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus .... Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae" (n° 217). Noção essa que se compagina admiravelmente com as também célebres palavras que estão no fecho da segunda parte do Segredo de Fátima: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará".
Ou esse triunfo se dá sobretudo nos corações dos homens - como ressalta São Luís de Montfort - ou todo o enredo da terceira parte do Segredo fica completamente destituído de sentido. Pois só com o retorno estável da humanidade a Deus - algo que se poderia chamar de um Grande Retorno (Grand Retour em francês, noção que tira sua inspiração de um movimento espiritual na França que tinha como meta promover o Grand Retour das almas a Jesus por Maria) só com isso será possível que o mundo alcance efetivamente "algum tempo de paz", conforme Nossa Senhora prometeu (cfr. texto do segundo Segredo).
"Haec est dies quam fecit Dominus: exsultemus et laetemur in ea. - Castigans castigavit me Dominus et morti non tradidit me". "Este é o dia que fez o Senhor: exultemos e rejubilemo-nos nesse dia. - Castigando, castigou-me o Senhor, porém não me entregou à morte" (Salmo 117, 24, 18).
Assim, as três partes do Segredo hoje conhecidas podem ser vistas como um todo único que tem como centro a glória de Deus, a exaltação da Santa Madre Igreja e o bem das almas neste e no outro mundo, como resultado de uma intercessão poderosíssima do Coração Imaculado de Maria junto ao Coração de seu Divino Filho, Jesus.
A crise da fé - crise da Igreja
Para o pleno esclarecimento da matéria, resta tratar do delicado problema da crise da fé - crise da Igreja, para o qual apontava a última frase da segunda parte do Segredo, "Em Portugal se conservará sempre o Dogma da Fé".
Esta frase se encerrava, no manuscrito da irmã Lúcia (Memórias IV, p. 340), com um etc. ... Ao escrever
esta IV Memória, a Irmã Lúcia declara explicitamente que "excetuando a parte do segredo que por agora não me é permitido revelar, direi tudo, advertidamente não deixarei nada" (p. 316). Chegava-se assim facilmente à conclusão de que a terceira parte do Segredo se inseria precisamente aqui. Feita por fim essa revelação, no dia 26 de junho de 2000, cumpre cancelar esse etc. ..., substituindo-o por um ponto final.
esta IV Memória, a Irmã Lúcia declara explicitamente que "excetuando a parte do segredo que por agora não me é permitido revelar, direi tudo, advertidamente não deixarei nada" (p. 316). Chegava-se assim facilmente à conclusão de que a terceira parte do Segredo se inseria precisamente aqui. Feita por fim essa revelação, no dia 26 de junho de 2000, cumpre cancelar esse etc. ..., substituindo-o por um ponto final.
A frase em questão deve, pois, ser considerada, salvo ulteriores esclarecimentos, como conclusiva da segunda parte do Segredo, e não como a frase inicial da terceira parte, conforme se chegou a pensar. Declarou-o expressamente o Arcebispo Mons. Tarcisio Bertone, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, na apresentação do documento na Sala Stampa do Vaticano, na data acima referida.
O que essa frase tem de interessante é que, colocada desse modo no final do segundo Segredo, ela parece ficar solta no ar, o que levou os leitores à idéia de que o terceiro Segredo seria uma explanação dela.
Como o terceiro Segredo ora revelado constitui algo de natureza bem distinta - uma visão e não um texto discursivo - impõe-se reler o segundo Segredo tomando-a como sentença final.
Ora, desta frase concluíram os fatimólogos, de uma maneira praticamente unânime, ser ela indicativa de
uma grande crise da fé que afetaria o mundo inteiro, tomando-se digno de nota o fato de que numa nação - Portugal - o Dogma da Fé sempre se conservaria (o que, aliás, não exclui que, nessa mesma nação, recebesse duros golpes).
uma grande crise da fé que afetaria o mundo inteiro, tomando-se digno de nota o fato de que numa nação - Portugal - o Dogma da Fé sempre se conservaria (o que, aliás, não exclui que, nessa mesma nação, recebesse duros golpes).
Uma crise da fé de tais proporções desemboca naturalmente numa crise da Igreja, e está na raiz mesma dessa crise.
A infiltração esquerdista em meios católicos.
O fato de a terceira parte do Segredo, ora revelada, não conter tal explanação, em nada afeta o acerto desta, que, ademais, basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Livros volumosos já se têm escrito sobre o assunto. Para os efeitos deste comentário é suficiente lembrar os célebres pronunciamentos de Paulo VI sobre o processo de autodemolição instalado na Igreja durante a crise pós-conciliar (Alocução de 7 de dezembro de 1968 aos alunos do Seminário Lombardo) e a terrível sensação do Pontífice de que, após o Concílio, "por alguma fissura tenha penetrado a fumaça de Satanás no templo de Deus" (alocução de 29 de junho de 1972, na comemoração da Festa dos Apóstolos São Pedro e São Paulo). Também João Paulo II se referiu diversas vezes a essa crise, e num documento solene denunciou os graves erros doutrinários e práticos no campo moral que entraram a circular na Igreja, "no âmbito das discussões teológicas pós-conciliares" (Encíclica Veritatis splendor, de 6 de agosto de 1993, n° 29).
Que ligação fazer entre essa crise e o que vem dito no corpo da segunda parte do Segredo?
Um dos aspectos mais espantosos da crise da Igreja é justamente o da infiltração esquerdista em meios católicos. Esse aspecto já era tão alarmante em 1968, que nesse ano 1.600.368 brasileiros, 266.512 argentinos, 121.210 chilenos e 37.111 uruguaios subscreveram uma mensagem a S.S. o Papa Paulo VI pedindo urgentes medidas para conter tal infiltração (os memoráveis abaixo-assinados foram promovidos pelas Sociedades de Defesa da Tradição, Família e Propriedade dos respectivos países).
Seria, aliás, muito limitativo restringir os erros do marxismo aos aspectos econômicos, sociais ou políticos. O seu igualitarismo radical é de natureza metafísica e afeta todas as suas concepções antropológicas, morais e, paradoxalmente, teológicas (apesar do seu fundamental ateísmo). Por isso, em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé se viu na contingência de denunciar, em documento de larga repercussão, a infiltração de erros marxistas até em certas correntes da Teologia da Libertação.
Ora, o comunismo é exatamente o flagelo com que Deus quis punir o mundo de seus crimes. Nossa Senhora diz, na segunda parte do Segredo, que "a Rússia espalhará os seus erros pelo mundo". Quando vemos que esses erros atingiram a nau sacrossanta da Igreja Católica, toma-se clara a correlação entre o núcleo do segundo Segredo e sua frase final, referente à conservação da fé em Portugal, que desvenda aos nossos olhos a crise na Igreja.
Assim, é lícito pensar que, se Nossa Senhora não julgou necessário explanar detalhadamente essa crise, ,·entretanto Ela nos deixou, em sua maternal bondade, uma simples frase a partir da qual não só os teólogos experientes, como até os simples fiéis instruídos podem deduzir a existência de uma crise da fé - crise da Igreja e abrir os olhos para ela.
Desse modo, uma frase aparentemente suspensa no ar - "Em Portugal se conservará..." - é rica de sentido e conteúdo, e nos alerta para uma pungente realidade que, sem essa frase, muitos talvez não soubessem avaliar em toda a sua extensão e transcendência.
Em vista do exposto, conclui-se que as revelações de Nossa Senhora em Fátima, longe de ter perdido atualidade, constituem uma luz importantíssima e até vital para orientar os fiéis na imensa crise contemporânea.
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