Ao longo do século I vão se formando as
Escrituras cristãs. A língua em que foram escritos os livros do Novo
Testamento é o grego (o grego no Império Romano era como o inglês em
nossos dias - a língua universal). Colecionam-se as epístolas de Paulo
como livros inspirados. As várias tradições orais sobre a vida de Jesus e
seus ensinamentos se cristalizam nos evangelhos. Em torno do ano 50
temos o Evangelho de Mateus escrito em aramaico. O Evangelho de Marcos é
redigido por volta de 64, em Roma. O Evangelho de Lucas, o Evangelho de
Mateus em grego e os Atos dos Apóstolos aparecem a partir do ano 70.
Outros apóstolos e figuras ilustres também redigiram epístolas. Pedro
(1Pd c. 64, 2Pd entre 70 e 80), João (1Jo, mais ou menos em 95, 2Jo e
3Jo foram escritas um pouco antes), Tiago (Tg em torno de 62) e Judas
(Jd entre 70 e 80). A epístola aos Hebreus é datada por volta do ano 67.
Ainda assim, a fixação do cânone do Novo Testamento levaria um bom
tempo. Juntamente com os livros inspirados circulavam inúmeros
evangelhos, epístolas, atos de apóstolos e apocalipses apócrifos.
10. O fim de Jerusalém
Cansado da brutalidade dos
procuradores Albino (62-64) e Géssio Floro (64-66), e incitado pelos
zelotas, o povo judeu se revoltou. Em Cesaréia e Jerusalém houve grande
agitação. A fortaleza Antônia e o palácio de Herodes foram consumidos
pelas chamas. As suas guarnições foram massacradas. Ataques contra
guarnições romanas pipocavam em toda a Palestina.
Durante o inverno de 66-67, o legado da Síria levou doze legiões pela
costa mediterrânea e conseguiu chegar aos muros de Jerusalém, mas foi
derrotado pelos guerrilheiros judeus. A vitória exaltou os ânimos dos
rebeldes. Chegaram a ser cunhadas moedas de prata com a data do
"primeiro ano da liberdade" de Israel.
Roma reagiu com força. Em 67 Nero enviou o general Vespasiano, que
devastou a Galiléia com sessenta mil soldados. Mas, ao chegar na região
montanhosa do país, sofreu várias baixas, algumas bem graves.
Na Páscoa do ano 70, Vespasiano, sucessor de Nero (depois de alguma
confusão), enviou o seu filho Tito para Jerusalém, com todas as forças
necessárias. A cidade santa foi cercada.
Depois de cinco meses de horror, o cerco termina com a vitória dos
romanos. Jerusalém é reduzida a ruínas, o Templo incendiado e muitos
cadáveres ficam apodrecendo pelas ruas. A resistência judaica é reduzida
a grupos insignificantes.
O último reduto fica em Massada. No ano 73, Flávio Silva, legado da
Judéia, triunfa sobre os revoltosos sicários chefiados por Eleazar, os
quais, para evitarem uma humilhante rendição, preferem matar-se uns aos
outros.
Tais fatos só contribuíram para aumentar ainda mais a tensão entre
judeus e cristãos. O historiador Tácito fala de um comentário feito por
Tito, evocando "a luta de uma destas seitas contra a outra [judeus e
cristãos], apesar da sua origem comum".
Por volta do ano 93, o historiador judeu Flávio Josefo, em suas
Antigüidades Judaicas, descreve detalhadamente o cerco e a destruição da
cidade santa.
No começo do século II, o imperador Adriano (117-138) ordenou a
reedificação de Jerusalém. Mas, ao mesmo tempo, mandou encher a cidade
de ídolos. As sobras da resistência de Israel ficaram inflamadas. Um
pseudo-messias chamado Bar Kókeba, e um certo rabi Akiba, incentivam a
revolução.
Mais três anos de horror se sucedem. Os fanáticos combatem em duas
frentes: contra os romanos e contra os cristãos. Roma esmaga
impiedosamente os agitadores. Bar Kókeba é degolado e os sobreviventes
dispersos. Os judeus só poderão aproximar-se novamente de Jerusalém
apenas a cada quatro anos, para poderem chorar e lamentar a sua
desgraça.
11. Roma e o Cristianismo - primeiras perseguições
Melitão,
bispo de Sardes, cidade da Ásia Menor, escreveu uma carta para o
imperador Marco Aurélio defendendo os cristãos perseguidos. Nesta carta,
ele fala da providencial coincidência entre o nascimento do Império e o
aparecimento do cristianismo. Jesus nasceu quando Augusto era
imperador, e pregou no reinado de Tibério. A rápida expansão do
cristianismo se deveu principalmente à unificação da bacia mediterrânea
sob o poderio romano e às facilidades proporcionadas pelas estradas e
rotas marítimas, que permitiam a rápida circulação de pessoas e idéias.
Mas quando foi que o Império começou a se dar conta da existência do cristianismo?
O documento oficial mais antigo falando dos cristãos é do ano 112:
uma carta enviada a Trajano pelo procônsul da Bitínia, Plínio, o Jovem.
A opinião pública confundia os judeus com os cristãos. Geralmente
ambos os grupos eram vítimas das mesmas acusações e maledicências. Mas
em Roma a diferença foi percebida bem cedo. Em 49, Cláudio "expulsa de
Roma os judeus que se agitavam por instigação de Crestos [Cristo?]"
(Suetônio).
Nero começou a governar com a idade de 17 anos. Dirigiu o Imperium de
54 a 68. Mandou matar o irmão, a mãe e seu mestre, Sêneca (os dois
últimos sob influência da sua amante, Popéia Sabina). Em 62 divorciou-se
da mulher, Otávia, a qual fez exilar em Pandatária. Tantos crimes
provocaram a indignação popular.
Foi na noite de 18 (ou 19?) de julho de 64 que as trombetas dos
sentinelas começaram a ser ouvidas pelos quatro cantos de Roma. O fogo
se espalhava rapidamente. Depois de cento e cinqüenta horas, quatro dos
catorze bairros da cidade tinham sido completamente devorados pelas
chamas, enquanto de sete só sobravam as paredes das edificações ou
escombros inabitáveis.
Sobre as causas da calamidade circularam vários rumores. Alguns
pensaram que tinha sido apenas um acidente. Mas atribuir ao acaso
tamanha destruição não parecia uma hipótese muito plausível.
Precisava-se de um culpado. E logo o seu nome começou a correr de boca
em boca.
Seria o próprio Nero o responsável? Sabia-se que ele desejava demolir
as velhas construções para edificar uma nova Roma. Talvez fosse um
castigo dos deuses por causa dos crimes hediondos do imperador. Suetônio
nos fala de um boato segundo o qual Nero teria permanecido em uma torre
durante o incêndio, com roupas de teatro e uma lira, admirando o
terrível espetáculo e entoando um poema de sua autoria sobre a conquista
de Tróia e o fogo nela ateado pelos guerreiros de Agamenon.
Nero logo teve de arrumar um bode expiatório. Através de torturas e
falsas testemunhas, obteve as "provas" para acusar os cristãos. As
prisões ficaram lotadas a ponto de Tácito se referir aos encarcerados
como uma "grande multidão". Sob acusação de "inimigos do gênero humano",
os cristãos foram perseguidos.
Tertuliano fala de um instrumento jurídico instituído por Nero para
legalizar a perseguição, o Institutum Neronianum, que afirmava a
ilicitude do cristianismo ("non licet esse Christianos", não é lícito
ser cristão). Mas os historiadores não são unânimes em reconhecer isto
como fato.
Não apenas os cristãos eram trucidados, degolados e crucificados no
circo de Nero (que ficava localizado onde hoje está a Basílica de São
Pedro). Organizaram-se verdadeiras caçadas nos jardins do imperador, com
fiéis fantasiados de animais. Foram encenadas as mais escabrosas cenas,
copiando a mitologia pagã, onde os "atores", cristãos, eram humilhados e
ultrajados de mil maneiras e com sadismo indescritível. Durante a
noite, pelas alamedas, cristãos cobertos de pez e resina ardiam em
chamas, queimados vivos, iluminando o caminho para a passagem da
carruagem de Nero.
Pedro, em uma de suas epístolas, alude a esses terríveis sofrimentos.
Mais tarde, quando João escrever o Apocalipse, a sua lembrança ainda
será muito viva.
Nada mudou com Domiciano (81-96), que se autoproclamou "Dominus et
Deus". Quando o século I termina, a fé cristã já começa a conquistar as
classes mais altas, chegando até o palácio do imperador. Flávio
Clemente, Flávia Domitila, parentes de Domiciano, e Acílio Glábrio, um
dos cônsules de 91, eram cristãos. Para satisfazer a alegria das elites
pagãs, o imperador massacra os fiéis, tomando seus bens e executando-os
sob a acusação de ateísmo. Na Ásia a perseguição foi bem violenta.
Trajano (98-117), mais tolerante, responde a Plínio, o Jovem, em uma
carta dizendo que os cristãos não deviam ser procurados e que as
denúncias anônimas deviam ser ignoradas. Os cristãos convictos que se
recusassem a abandonar suas crenças, no entanto, seriam punidos. O
Rescrito de Trajano, como é conhecido este documento, estabeleceu
jurisprudência.
12. Os padres apostólicos
A geração cristã que sucede aos
apóstolos tem à sua frente bispos e presbíteros, entre os quais se
destacam algumas figuras, luminosas por sua santidade, sabedoria e zelo
doutrinal: os Padres Apostólicos.
Seus escritos são muito parecidos com as epístolas do Novo
Testamento. Procuram mostrar aos fiéis a importância da salvação
concedida por Cristo, reforçam a esperança no seu retorno, exortam à
obediência aos pastores das suas comunidades e alertam para o risco das
heresias e cismas.
São eles: Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Pápias de Hierápolis, Barnabé e Hermas.
a) Clemente Romano
Clemente possuía, na sua época, grande autoridade, embora tenha sido
conservado apenas um escrito de sua autoria: a carta aos Coríntios. A
Igreja na Síria atribuiu a esta carta valor canônico, e o Codex
Alexandrinus da Bíblia a incluiu entre os livros inspirados. Em torno do
ano 170 o bispo Dionísio de Corinto atesta a sua leitura litúrgica.
Orígenes e Eusébio identificam Clemente com o colaborador de Paulo
citado em Fl 4,3. De acordo com Santo Ireneu, ele foi o terceiro
sucessor de Pedro em Roma (Pedro, Lino, Anacleto, Clemente). Para
Tertuliano, no entanto, Clemente recebeu a Ordem diretamente do Príncipe
dos Apóstolos.
O seu exílio para o Quersoneso Taurino e o seu martírio no mar Negro não podem ser considerados como fatos históricos.
A carta aos Coríntios, de Clemente, foi redigida nos últimos anos de
Domiciano imperador (c. de 96). A razão de tal carta foram contendas
naquela igreja. Membros mais jovens da comunidade haviam deposto os
presbíteros. Quando a notícia chegou a Roma, Clemente interveio.
Nesta carta podemos detectar já a presença e o exercício do carisma
petrino. Com autoridade, o bispo da Cidade Eterna exorta os coríntios a
se submeterem aos seus superiores eclesiásticos, exigindo que a
estrutura hierárquica da Igreja de Deus seja respeitada.
b) Inácio de Antioquia
Bispo da cidade de Antioquia, Inácio foi condenado, no reinado de
Trajano, a ser dilacerado pelas feras. Em seu trajeto para o martírio,
da Síria até Roma, escreveu sete cartas, para as igrejas de Éfeso,
Magnésia, Trales, Roma, Filadélfia, Esmirna, e para seu irmão no
episcopado, Policarpo.
Para Inácio, a eucaristia é "a carne de nosso Salvador Jesus Cristo,
que sofreu por nossos pecados e que, na sua bondade, o Pai ressuscitou".
Ensina que para a unidade da Igreja é fundamental a comunhão com a
hierarquia: bispos, presbíteros e diáconos.
Santo Inácio utiliza, pela primeira vez, o termo "Igreja católica"
para designar a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. "Onde aparece o
bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo,
aí está a Igreja católica". Distingue a comunidade de Roma dentre todas
as demais. É ela a igreja que "preside na região dos romanos, digna de
Deus, digna de honra, digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna
de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de
Cristo, que porta o nome do Pai..." Lá os apóstolos Pedro e Paulo
selaram seu testemunho. Em Roma se encontra o autêntico magistério da
fé.
Seu martírio ocorreu por volta do ano 110.
c) Policarpo de Esmirna
Policarpo chegou a conhecer o apóstolo João, que o constituiu bispo
de Esmirna. Em meados do século I tentou fazer um acordo, em Roma, com o
papa Aniceto, sobre o dia da celebração litúrgica da festa da Páscoa
(primeira controvérsia quartodecimana). O heresiarca Marcião, ao
encontrá-lo, perguntou ao santo se o conhecia. Policarpo respondeu:
"Sim, eu te conheço. És o primogênito de Satanás". De acordo com o
testemunho de Santo Ireneu, Policarpo escreveu várias epístolas a
diversas comunidades e a bispos em particular. A única que nos chegou
foi a remetida para a igreja de Filipos.
O Martírio de São Policarpo é a mais antiga narrativa de um martírio
de que se tem notícia. Não se pode duvidar de sua autenticidade. Em um
de seus trechos mais belos, o santo bispo recebe a ordem de amaldiçoar
Jesus Cristo. Policarpo responde: "Há oitenta e seis anos que o sirvo;
jamais ele me fez mal algum; como poderei eu blasfemar contra meu Rei e
Salvador?" Quando as chamas da fogueira milagrosamente se desviavam do
seu corpo, teve de ser morto com uma punhalada. E. Schwartz acredita que
a morte de Policarpo se deu no dia 22 de fevereiro de 156.
Seus ossos foram recolhidos por fiéis, "mais valiosos que pedras
preciosíssimas, mais apreciados que o ouro, e os sepultaram num lugar
apropriado, onde se poderiam reunir eles em cada aniversário" -
evidência de um culto de relíquias ainda em estado embrionário.
d) Pápias de Hierápolis
Pápias conheceu o apóstolo João e foi companheiro de São Policarpo.
Bispo de Hierápolis, redigiu cinco livros relatando ensinamentos e atos
de Jesus e dos que o seguiam (cerca de 130).
Eusébio, em sua História Eclesiástica, chama Pápias de espírito
mesquinho, por causa de suas inclinações milenaristas. Da obra de Pápias
só restam alguns fragmentos, um dos quais fala da origem dos evangelhos
de Mateus e Marcos.
e) Barnabé
Na verdade a única referência que temos sobre este Barnabé é uma
epístola. Clemente Alexandrino, Orígenes e a tradição em geral, atribuem
esta epístola ao Barnabé companheiro de São Paulo. Eusébio de Cesaréia e
Jerônimo consideram o documento como apócrifo.
A primeira parte do escrito fala sobre o Antigo Testamento e analisa
as várias prefigurações do Cristo. A segunda, no estilo da Didaqué,
expõe a doutrina das duas vias, a da luz e a das trevas.
Provavelmente o seu autor era um mestre gentio convertido. A
composição da carta não tem data certa. Possivelmente depois do ano 130.
f) Hermas
Hermas era um comerciante de condição simples, cristão, com uma visão
um pouco estreita, mas sincero e piedoso. Para Eusébio e Orígenes,
tratava-se do mesmo Hermas referido por São Paulo em Rm 16,14.
Sua única obra conhecida é chamada de o Pastor de Hermas. Seguindo o
modelo dos apocalipses judaicos, é uma exortação forte à penitência que
utiliza muitas imagens misteriosas. Afirma a possibilidade de haver
perdão dos pecados após o batismo, embora por tempo limitado.
Contradizendo muitos autores antigos, Hermas considera lícito um novo
matrimônio depois da viuvez.
Os Padres da Igreja, grandes representantes do cristianismo dos
primeiros séculos, explorarão as riquezas da Escritura e da Tradição
para expor e aprofundar a fé.
13. Perseguições do 2º século - a gesta dos mártires
Os
Antoninos, Adriano (117-138), Antonino Pio (138-161) e Marco Aurélio
(161-180) não fizeram mudanças na legislação anticristã. Esporadicamente
eclodiam novas perseguições e a Igreja ganhava novos mártires. Muitas
vezes era a turba que, fanatizada, levada pela inveja ou pelo
patriotismo, denunciava e entregava os cristãos ao poder público.
Na Gália temos os mártires de Lyon, em 177. Uma revolta popular
arrastou para a morte cinqüenta cristãos, entre eles Potino, o bispo,
que contava na ocasião 90 anos, o diácono Sanctus e a escrava Blandina.
Esta última suportou com incrível coragem inúmeros tormentos antes de
entrar no repouso de Cristo. Depois de queimarem os corpos dos mártires,
lançaram suas cinzas no Ródano. Os algozes comentavam, em tom de
zombaria: "Vejamos se agora o seu Deus os ressuscita".
Em Roma temos a pequena Cecília. Jovem, de família nobre, quis
consagrar-se a Cristo e fez voto de virgindade. O cutelo do carrasco
precisou ser usado várias vezes antes de conseguir tirar-lhe a vida.
Também muitos papas morreram mártires ao longo do século II.
Em Scili, na África, doze fiéis foram presos. O interrogatório ao
qual foram submetidos ficou registrado para a História. Todos receberam a
coroa do martírio.
Não se deve imaginar, no entanto, que os mártires não tinham medo das
torturas e da morte. Muitos cristãos preferiram renegar a própria fé,
caindo na apostasia, a morrer por Cristo.
Porém, "o sangue dos mártires é semente de cristãos" (Tertuliano). A
coragem dos que preferiam o Senhor à própria vida ajudava na propagação
da fé.
14. Os apologistas
"De diversas formas, pois, os Padres do
Oriente e do Ocidente entraram em relação com as escolas filosóficas.
Isto não significa que tenham identificado o conteúdo da sua mensagem
com os sistemas a que faziam referência. A pergunta de Tertuliano: ‘Que
têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?’, é um
sintoma claro da consciência crítica com que os pensadores cristãos
encararam, desde as origens, o problema da relação entre a fé e a
filosofia, vendo-o globalmente, tanto nos seus aspectos positivos como
nas suas limitações" (Fides et Ratio, n. 41).
Entre os ataques ao cristianismo promovidos por intelectuais, podemos
citar o discurso do retor Frontão de Cirta, preceptor de Marco Aurélio,
Luciano de Samósata e Celso (com sua obra polêmica: Alethès lógos, c.
de 178). Entre as acusações contra os cristãos, as mais comuns são a de
ateísmo, assassinato ritual de crianças e traição ao imperador.
O grafitto do Palatino nos mostra um asno crucificado com algumas
inscrições. Um certo Alexamenos, jovem cristão, é ridicularizado pelo
companheiro de estudo: "Alexamenos adora o seu Deus". Em resposta
escreve ao lado do insulto a frase: "Alexamenos fiel".
Diante da cultura pagã a Igreja assumiria duas posições: uma de
oposição e rejeição (com Taciano, Teófilo ou Tertuliano, por exemplo), e
outra de aproveitamento, assimilação dos seus aspectos positivos
(Justino e outros pensadores cristãos, principalmente do mundo grego). A
influência de filósofos gregos, principalmente Platão, sobre os Padres
da Igreja é marcante.
Entre os apologistas, citamos Quadrato, Aristão, Milcíades,
Apolinário, Melitão, Aristides de Atenas e Justino. Também merecem
destaque Taciano, Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia, Hérmias e a
epístola a Diogneto.
Quadrato foi discípulo dos apóstolos. Apresentou uma apologia ao
imperador Adriano, em 123/124 (ou em 129?). Aristão de Pela defendeu o
cristianismo contra os ataques dos judeus redigindo o Diálogo entre
Jasão e Papisco sobre Cristo. Milcíades, retor originário da Ásia Menor,
escreveu várias apologias contra os gregos e os judeus. Apolinário,
bispo de Hierápolis, compôs quatro apologias. Melitão, bispo de Sardes,
enviou uma defesa da fé cristã ao imperador Marco Aurélio.
Aristides de Atenas, um filósofo, redigiu sua Súplica em favor da religião cristã para o imperador Adriano.
De todos os apologistas aquele que merece mais destaque, com certeza,
é Justino. Martirizado pelo ano 165, era filho de uma família
greco-pagã de Flavia Neapolis, antiga Siquém, na Palestina.
Familiarizado com muitas correntes filosóficas, não encontrou nenhuma
que lhe desse todas as respostas que procurava. Sua mente e seu coração
só encontraram a resposta na fé cristã.
Conservamos de suas obras duas Apologias contra os gentios e o Diálogo com o judeu Trifão.
A teoria das sementes do Verbo que ele formulou estabeleceu uma ponte
entre a filosofia antiga e o cristianismo. Em seus escritos
encontram-se valiosas informações sobre o batismo e a celebração
litúrgica. Justino chega a esboçar uma formulação do dogma da
transubstanciação. "De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou
bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador,
feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa
salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que
procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças -
alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa
carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado". Também é
relevante o paralelo que ele faz entre Maria e Eva, semelhante ao
paralelo paulino entre Cristo e Adão.
Taciano foi discípulo de Justino. Depois do martírio do seu mestre,
deixou Roma e voltou para o Oriente, sua região de origem. Acabou
aderindo à seita dos encratitas, pregando a abstinência do matrimônio,
do vinho e da carne. Seguindo Epifânio, substituiu o vinho pela água na
eucaristia. Escreveu várias apologias.
Atenágoras de Atenas supera Justino em sua linguagem, estilo e ritmo.
É mais tolerante do que Taciano no que se refere à filosofia e cultura
gregas. Fez uma "Súplica em favor dos cristãos", dirigida, cerca de 177,
a Marco Aurélio e Cômodo. Testemunha a fé da Igreja na Trindade antes
do concílio de Nicéia: os cristãos adoram o Pai, o Filho e o Espírito
Santo e veneram os anjos.
Teófilo de Antioquia, bispo desta cidade, escreveu três livros A
Autólico, depois de 180. É o primeiro a empregar o termo triás para
falar de Deus.
A carta a Diogneto foi redigida na segunda metade do século II, de
acordo com a maioria dos estudiosos. Um certo Diogneto teria feito a um
cristão três perguntas: 1) Qual a religião dos cristãos e por que eles
rejeitam o judaísmo e o paganismo? 2) O que é a caridade para com o
próximo? 3) Por que a religião cristã apareceu tão tarde na história do
mundo?
15. Difusão do Cristianismo no 2º século
No final do século
II, existem cristãos espalhados em todos os lugares do mundo romano. No
Oriente (Ásia Menor, Síria, Palestina), a concentração de fiéis é maior,
inclusive fora das cidades. No Ocidente, o progresso da evangelização é
desigual. O Evangelho penetrou profundamente na Itália Central, no sul
da Espanha, no norte da África. Na Ilíria, na Itália do Norte e na Gália
a presença é menor.
Fora do Império existiam cristãos no reino de Edessa e no Império Persa.

História da Igreja Católica (Parte 3)
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