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| Retorno do filho pródigo - Murillo |
Por Pedro Gómez Carrizo
A fórmula piedosa e reconfortante "Somos todos filhos de Deus" está presente na linguagem cotidiana, tanto dentro quanto fora da Igreja, e é repetida em homilias e catequeses, e até mesmo em funerais, especialmente funerais. É uma bela frase, reconfortante e fortalecedora, então qual é o problema? Bem, o problema, e não é um problema menor, é que essa afirmação, tomada literalmente, não é verdadeira. Ela contradiz diretamente o ensinamento bíblico e a doutrina constante da Igreja.
O Novo Testamento não fala de filiação divina universal, mas de uma
incorporação em Cristo que transforma o homem ontologicamente. São João
estabelece uma distinção que não deixa espaço para interpretações
indulgentes: “Para aqueles que a receberam, deu-lhes o poder de se
tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). A perífrase aspectária ingressiva é
inequívoca: “tornar-se”. São Paulo dá-lhe a categoria sacramental:
«Recebestes um espírito de adoção filial» (Rm 8:15); «para que recebamos
a adoção» (Gl 4:5). A palavra-chave é “adoção”. E os Padres da Igreja
insistem nessa ideia com uma clareza de que hoje, demasiados, parece
desconfortável: São Irineu escreve que o Filho de Deus «fez-nos o que
devemos fazer a nós o que Ele é»; Santo Atanásio a cunha numa frase que
se tornou clássica: «Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus» (De Encarnação, 54) e São Tomás explica-a na maioria
I-II, q.110). Mesmo o novo Catecismo preserva essa linha, quando afirma
que a graça «nos torna filhos adotivos e participantes da vida divina»
(CEC 1997).