[unisinos]
"Irlanda, último bastião da moral católica, foi também o
primeiro país católico na Europa, onde veio à tona o escândalo de abuso
sexual de menores por religiosos. Foi o único país da Europa a quem o Papa Bento XVI enviou uma carta pastoral sobre este assunto. O Papa solicitava, em março de 2010,
que se esclarecessem os fatos – e escrevendo, devia prever que a antiga
glória da Igreja não era mais salvável. Com o referendo, os irlandeses
aplaudem a abertura do casamento aos homossexuais", diz Christiane Florin, em artigo publicado na revista Christ und Welt, 22-05-2015. A tradução é de Ramiro Mincato.
Eis o artigo.
Quase dois terços dos irlandeses são
a favor de que homens possam casar com homens, e mulheres com mulheres.
Como primeiro país no mundo, a Irlanda aceita, por referendo, esta
frase da sua constituição: "Um casamento pode ser celebrado entre duas
pessoas sem que haja diferença de sexo, de acordo com as leis". E isso
acontece precisamente na ilha de devotos onde, por tanto tempo, até
mesmo a grama crescia mais católica do que em qualquer outro lugar!
Precisamente lá, onde a homossexualidade era considerada crime até 1993!
Irlanda, último bastião da moral católica, foi também o primeiro país católico na Europa, onde veio à tona o escândalo de abuso sexual de menores por religiosos. Foi o único país da Europa a quem o Papa Bento XVI enviou uma carta pastoral sobre este assunto. O Papa solicitava,
em março de 2010, que se esclarecessem os fatos – e escrevendo, devia
prever que a antiga glória da Igreja não era mais salvável. Com o
referendo, os irlandeses aplaudem a abertura do casamento aos homossexuais. Antes de tudo, porém, dão uma bofetada no clero. Na bofetada ecoam muitos escândalos, desde aqueles de abuso sexual
até aquele da descoberta dos túmulos de crianças na casa das Irmãs do
Bom Socorro. Mas, o mais doloroso de todos os desejos de vingança deve
ter sido outra explicação da votação: o fato de que a Igreja Católica,
em poucos anos, tornou-se irrelevante. Sua moral nem é mais combatida,
mas simplesmente deixada de lado.
A Irlanda tem uma geração jovem. "O entusiasmo dos jovens carregará a
Igreja no próximo século", declarava entusiasmado, há um ano atrás, o
Núncio Apostólico em Dublin, Dom Charles Brown. Mas,
filhos de pais que obedientemente recusavam a pílula e o preservativo,
ignoraram a mensagem da Igreja. Não protestam, não querem estar contra
nenhum católico. Frequentaram escolas católicas e fazem o que seus
bispos tinham pedido para não fazer: redefinir o matrimônio.
Entusiasmaram-se por um "Yes”, e não por um “Não”. Exatamente na
católica Irlanda, exatamente no ano do casamento católico 2015. Em
poucos meses haverá a segunda fase do Sínodo sobre a família no
Vaticano. Quem seguiu a primeira fase, podia ter a impressão de que
Jesus percorreu a via crucis a favor ou contra a equiparação dos
homossexuais. Tão importante e "polarizador" o tema da primeira reunião dos bispos no outono de 2014, onde uma parte dos participantes pode pensar em "estender a mão" para gays e lésbicas,
algo sempre considerado, oficialmente, vergonhoso. Outra parte
acreditava, ao contrário, uma insolência do catecismo dizer que se devem
tratar "com respeito" os homossexuais.
O voto irlandês teve sobre eles o efeito de um furacão do Zeitgeist. Aqueles que com seus ensinamentos sobre moral sexual
barram as portas da Igreja, não são tão resistentes como acreditavam.
Colocam-se, é verdade, contra a principal corrente social centro
europeia, mas na aerodinâmica no túnel religioso. As religiões estão na
moda, quando dão vulto à imagem de um inimigo. Os extremos têm grande
clientela, tanto no Islã como no cristianismo. O centro encolhe - e com ele a influência no coração sociedade.
O cristianismo precisa de tais extremos? Não, acredita o arcebispo de
Dublin. Por causa do choque, quer submeter a Igreja a uma "reality check
", a um teste esclarecedor sobre o centro. Para o centro, o casamento
não é nem um jugo ou um modelo de fim de série, mas uma promessa de
felicidade e justiça livremente "moldáveis".
A realidade é mais importante do que a ideia, diz Francisco. Na verdade, ele desaprova o casamento gay,
mas ao "sim” irlandês, o seu "Oh não!" ainda não foi ouvido. Ele pregou
o Pentecostes com as portas abertas. Aos poucos torna-se visível o que
acontece com a revolução da palavra franciscana livre: não é mais
suficiente, diante da realidade, esconder-se atrás de documentos
doutrinários e padres ou padrinhos da Igreja. Quem quer dialogar, deve
dizer o que realmente pensa e por quê. Atualmente, muitos bispos, sobre o
tema do casamento, se salvam com formulações como "complementaridade do
homem e da mulher." Não se pode esperar-se que abram o vínculo
sacramental a todos. Mas, nem mesmo eles admitem mais abertamente:
"acredito que a homossexualidade é um comportamento
pecaminoso ou doença". Esta tornou-se uma posição extremista, que no
teste sobre o "centro" é derrotada. No jornal católico de Colônia, um
comentarista comparou recentemente gays com ladrões. Dois dias após o
jornal publicou o pedido de desculpas.
Se o voto irlandês tem algo do espírito de Pentecostes, então de lá
sopra a realidade de um catolicismo descontraído. Os habitantes da Ilha
mudaram rapidamente, outros católicos precisam mais tempo. Não se pode
pretender que os homossexuais sejam reconhecidos como
criaturas de Deus? A Igreja mudou seu ensinamento ao longo dos séculos.
Deveria dividir-se só porque pessoas presumidas "erradas" se unem? Não
posso acreditar.
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