Nessa terrível crise que a Igreja atravessa, Nosso
Senhor é novamente crucificado em seus membros. Como devemos reagir ao
que poderíamos chamar de paixão da Igreja? É junto a Nossa Senhora das
Sete Dores, nessa simples presença de Maria aos pés do Crucificado, que
devemos nos inspirar.
Stabat
Qual foi a maior dor de Maria aos pés da cruz? A profecia do velho Simeão é bem conhecida: Uma espada trespassará a sua alma (Lc. 2, 35). Para entender essa predição, precisamos explicar o significado exato dos dois termos: “espada” e “alma”. No grego puro de São Lucas, a psique refere-se,
sobretudo, ao espírito, à inteligência. As palavras de Simeão não
podem, portanto, limitar-se ao domínio da sensibilidade. Uma tradução
mais profunda seria: uma espada trespassará a sua inteligência. Qual
será essa espada? Frequentemente chamada de espada de dois gumes nas
Escrituras, esta palavra refere-se, sobretudo, a um princípio de
divisão, e de uma divisão radical como a que pode existir entre o bem e o
mal, entre a verdade e o erro. É assim que, por exemplo, é usada por
São Paulo: A palavra de Deus é viva, eficaz, e mais penetrante que
toda espada de dois gumes; chega até a separação da alma e do espírito,
das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do
coração (Hb. 4,12). Esta palavra ainda é usada para designar o
instrumento do sacrifício, aquele que dá o golpe fatal na vítima. Assim,
o grande sofrimento de Maria aos pés da cruz, que a unirá plenamente ao
sacrifício divino, situa-se numa divisão radical da sua inteligência,
faculdade mais especificamente humana, sede da virtude da fé, voltada
Àquele que é estabelecido como sinal de contradição (Lc. 2, 34).