Instrução pastoral do Cardeal Pio - Quaresma 1863
Anticristo, o que nega que Jesus seja Deus;
anticristo, o que nega que Jesus seja homem; anticristo, o que nega que
Jesus seja homem e Deus ao mesmo tempo.
Um anticristo, nos diz São João, nega o Pai, pois negando o Pai nega o Filho: Hic est antichristus qui negat Patrem et filium (I
Jo. 2, 22). De fato, não há anticristianismo mais radical do que aquele
que nega a divindade em sua raiz, em seu princípio. Como o Cristo seria
Deus se Deus não existisse? Ora, negar o ser divino, a substância
divina, a personalidade divina e introduzir não sei que outra teodicéia é
prova de que suprimem a realidade, substituindo-a por abstrações e
sonhos que flutuam entre o ateísmo e o panteísmo ou que não têm sentido
algum. Eis o sistema capital da atual situação intelectual; eis o
ensinamento que enche os livros e inspira as lições de toda uma escola,
abundante e poderosa. Diante de tais doutrinas, “só tenho uma coisa a dizer-vos: cuidado com o anticristo”: Unum moneo: cavete antechristum.
São João continua: “Todo aquele que nega o
Filho, também não reconhece o Pai. O que crê no Filho de Deus, tem em si
o testemunho de Deus. O que não crê no Filho, torna Deus mentiroso,
porque não crê no testemunho que Deus deu de seu Filho. Aquele que tem o
Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho, não tem a vida” (I Jo. 2,23; 5, 10-12). “Muitos
sedutores se têm levantado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo
tenha vindo em carne; quem faz isso é um sedutor e um anticristo”: “Qui non confiteur Christum in carne venisse, hic est seductor et antichristum”
(II Jo. 7). Ora, se os senhores escutarem o que se diz hoje e se lerem o
que se escreve atualmente, descobrirão ou que o personagem histórico
Jesus nem chegou a existir (ao menos como é representado nos Evangelhos)
ou que foi um desses tipos que manifestou mais fortemente o ideal de
sabedoria, de razão, de perfeição e que convencionou-se denominar
“Deus”. Jamais admitirão que o Filho de Maria seja o Filho de Deus feito
homem, o Verbo feito carne, aquele em que reside corporalmente a
plenitude da divindade (Col. 2, 9), e, para concluir definitivamente, o
Homem-Deus. Aterrorizado com tais blasfêmias, que são a própria inversão
do símbolo cristão, “só tenho uma coisa a dizer-vos: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.