unisinos - Nesta segunda-feira o Papa Francisco se
manifestou sobre os ataques aéreos dos EUA no Iraque, dizendo que,
embora seja legítimo, em termos morais, parar um agressor injusto, assim
como os americanos dizem estar fazendo com relação ao grupo radical Estado Islâmico no norte iraquiano, um um único país não deveria decidir por si mesmo quando – ou não – o uso da força se justifica.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada pelo jornal The Boston Globe, 18-08-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
À luz da história recente oposição vaticana para com, praticamente,
qualquer intervenção norte-americana no Oriente Médio, a linguagem do
papa provavelmente irá ser recebida pelos analistas como uma luz amarela
de cautela.
O pontífice revelou ter considerado a possibilidade de viajar ao Iraque
num futuro próximo para demonstrar sua preocupação com a crise,
incluindo o impacto dela sobre os cristãos locais, e que esta viagem
continua sendo uma opção.
Por enquanto, disse Francisco, uma tal viagem “não é a melhor coisa a fazer”.
Francisco também confirmou a sua intenção de viajar para a Filadélfia em setembro de 2015 para um encontro organizado pelo Vaticano sobre a família. Já que foi também convidado para ir a Washington discursar ao Congresso e a Nova York para falar às Nações Unidas, “talvez a viagem”, diz ele, “irá envolver estas três cidades juntas”.
Apesar de ter sido forçado meses atrás a cancelar vários compromissos devido à exaustão, Francisco
minimizou as preocupações sobre a sua saúde. O pontífice de 77 anos
concordou, no entanto, que talvez preciso ser “um pouco mais prudente”
na conservação de suas energias.
Os comentários foram feitos durante uma coletiva de imprensa a bordo do voo que trouxe Francisco de volta à Itália após a viagem feita à Coreia do Sul
entre os dias 13 e 18 de agosto. Ele falou aos jornalistas por uma
hora, respondendo a 15 perguntas que cobriram uma ampla gama de
assuntos.
Ao ser perguntado se aprova o bombardeio americano no Iraque, Francisco disse: “Posso dizer apenas que é lícito parar um agressor injusto”.
O pontífice claramente manifestou dúvidas sobre a ação unilateral.
“Um único país não pode julgar como parar um agressor injusto”, falou.
Segundo Francisco, a ONU é “onde esta questão deve
ser debatida e onde devemos nos perguntar: ‘Há uma agressão injusta?’”
e, em caso afirmativo, “como podemos pará-la?”
O papa também falou que o mundo precisa se lembrar dos exemplos
passados em que países fortes reivindicaram proteger grupos
minoritários, mas na realidade estavam usando suas forças para levar
adiante a própria agenda política.
“Quantas vezes, sob a desculpa de parar um agressor injusto, as
potências tomaram o poder sobre os povos e lançaram uma verdadeira
guerra para a conquista?”, perguntou.
Embora a minoria cristã do Iraque esteja entre os principais alvos do
Estado Islâmico, Francisco insistiu que não são apenas os cristãos que
estão sob risco.
“Há homens e mulheres, minorias religiosas, não apenas cristãos, e todos são iguais perante Deus”, acrescentou.
A posição sobre a ação americana delineada pelo papa não marca um
distanciamento do que pensa normalmente o Vaticano sobre o uso das
forças militares, dado que Roma há muito insiste que qualquer
intervenção, para ser legítima, deve ter uma garantia internacional.
No entanto, os comentários foram mais contidos do que aqueles feitos
por altos funcionários vaticanos que, recentemente, pareceram endossar
os ataques americanos. O embaixador papal no Iraque
descreveu os ataques como “algo que tinha de ser feito”, enquanto que o
enviado do Vaticano às Nações Unidas, em Genebra, as considerou
“provavelmente necessárias”.
Quanto a uma possível viagem ao Iraque, Francisco falou que discutiu sobre isso com seus assessores.
“Dissemos que talvez, se necessário, quando voltarmos da Coreia podemos ir para o Iraque”, reconhecendo que uma tal viagem esteve sob consideração.
“Estou disposto a ir”, disse Francisco. “No momento não é a melhor coisa a fazer, mas estou aberto a esta ideia”.
Logo a seguir, Francisco disse que viajaria para a China “amanhã mesmo” caso a oportunidade se apresentasse.
A China está entre uns poucos países que, hoje, não
mantêm relações diplomáticas com o Vaticano, e os cerca de 13 milhões de
católicos do país frequentemente são alvos de assédio e perseguição.
Melhorar as relações com Pequim se tornou uma das maiores prioridades do Vaticano.
Alguns viram uma pequena melhora nesta relação quando Francisco, na semana que passou, se tornou o primeiro papa a voar sobre o espaço aéreo chinês a caminho da Coreia do Sul no último dia 13, tendo despachado um telegrama cordial invocando “bênçãos divinas” para o país.
O pontífice falou que a Igreja busca “apenas a liberdade para fazer o seu dever e o seu trabalho” na China, não impondo “nenhuma outra condição”, e que o Vaticano está “sempre aberto” para melhorar as suas relações.
Quanto a viagens futuras, disse que idas ao México e à Espanha estão sendo consideradas para 2015, mas não podem ainda ser confirmadas.
Ao ser perguntado sobre como lida com a grande popularidade que tem, Francisco
disse que tenta se focar “nos meus próprios pecados e nos meus próprios
erros”, bem como busca se lembrar de que, dada a sua idade avançada,
“isso tudo não irá durar muito tempo”.
O papa disse estar trabalhando na produção de uma encíclica, a forma
mais desenvolvida do ensinamento papal, sobre o meio ambiente. Disse que
uma primeira versão lhe foi apresentada para consideração, mas que quer
ainda fazer algumas mudanças no intuito de distinguir “certezas” do
credo católico em relação a teorias científicas, “algumas das quais
podem ser bastante certas e outras nem tanto”.
Por fim, o pontífice defendeu a sua iniciativa de paz na sequência de
sua viagem no mês de maio ao Oriente Médio, quando convidou os
presidentes israelense e palestino para se juntarem a ele numa oração
pela paz nos jardins do Vaticano no dia 8 de junho.
Poucos dias após esta oração pela paz seguiram-se uma ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza e um novo confronto entre Israel e o Hamas. Nesse sentido, perguntaram ao papa se o seu esforço fracassou.
“De forma alguma foi um fracasso”, insistiu Francisco.
O papa disse que tanto o presidente Mahmoud Abbas, dos Territórios Palestinos, quanto o ex-presidente Shimon Peres,
de Israel – os líderes que se juntaram a ele e a Bartolomeu I, o
patriarca ortodoxo de Constantinopla, para a oração no Vaticano –, são
“homens de paz”.
“Sob a fumaça e as bombas lançadas neste momento, é difícil enxergar a porta que se abriu”, disse Francisco, “mas esta porta ainda está aberta”.
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