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O viver cristão é uma proposta de uma 'vida nova' que requer a superação de vícios.
Dom Odilo Pedro Scherer*
Que diferença há entre ser cristão e não ser cristão? A pergunta pode
parecer supérflua, uma vez que se dirá logo: um cristão é batizado e é
membro da Igreja de Cristo. A resposta é correta, mas não é suficiente.
Embora essas duas características sejam fundamentais para definir um
cristão, elas ainda não fazem aparecer o que é próprio do cristão.
Pode haver cristãos que vivem como se o Batismo nada tivesse
modificado em suas vidas: vivem como se não fossem cristãos. Ou pode
haver aqueles que procuram praticar a religião apenas de forma exterior e
ritual, sem que a orientação de sua vida e seu comportamento sejam
impregnados por Cristo e pelo seu Evangelho.
O ser cristão manifesta-se na vida "conforme Cristo", ou "segundo o
Espírito de Cristo", para usar expressões caras a São Paulo. Na Carta
aos Gálatas (5, 16-25), Paulo enfrenta essa questão pois, naquela
comunidade, os fiéis eram tentados a tornar novamente às práticas da Lei
Mosaica, como se nelas, em vez de Cristo, estivesse a sua segurança e
salvação. O Apóstolo afirma com vigor que a justificação perante Deus é
alcançada através da fé em Cristo, e não pelas práticas rituais. E fala
da nova condição dos que creem: tornam-se filhos de Deus e alcançam uma
liberdade soberana, para viver sem temor, segundo o Espírito de Cristo.
Não se trata de liberdade para fazer qualquer coisa, mas para viver
livres do temor, confiantes em Deus e felizes por serem filhos amados de
Deus, “em Cristo”. Creio que aqui está uma das características mais
preciosas do “ser cristão”: ser filhos e filhas de Deus. Essa
caracterização do cristão aparece abundante, sobretudo, nos textos de
São João e São Paulo. A fé em Cristo e o Batismo conferem uma nova
dignidade ao cristão.
Paulo vai logo às consequências: “não se deixem escravizar
novamente!” E o diz em dois sentidos: não abandonar a graça imensa da fé
em Cristo, para submeter-se de novo a práticas que escravizam e tiram a
soberana liberdade de filhos de Deus, mediante uma religião do temor,
ou uma religião feita apenas de práticas humanas, sem contar com a graça
de Deus e a ação do Espírito de Cristo; ou então, deixar-se escravizar
pelas paixões humanas desordenadas e pelos vícios.
“Fostes chamados, irmãos, para a liberdade: mas que essa liberdade
não seja pretexto para satisfazer os desejos da carne” (5,13). “Carne”
indica a vida humana levada apenas pela força dos impulsos, instintos e
paixões desordenadas e ainda não orientadas pelo Espírito de Cristo. As
“obras da carne” se manifestam nos vícios e nas ações destrutivas:
“fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades,
lutas, rivalidades e violências, ambições e discórdias, invejas,
embriaguez e orgias, e todos os excessos dessa natureza” (cf 5, 19-21).
Ao contrário, ensina Paulo, a vida orientada pelo Espírito de Cristo
manifesta-se em todo tipo de virtudes, que são “frutos do Espírito”:
amor, alegria, paz, magnanimidade, afabilidade, bondade e confiança,
mansidão e temperança. “Os que são de Cristo crucificaram a carne, com
suas paixões e seus maus desejos. Se vivemos animados pelo Espírito,
deixemo-nos também conduzir por ele” (cf 5, 22-25).
O ser cristão, portanto, aparece numa forma nova de viver que, de um
lado, é graça de Deus e, de outro, fruto do esforço coerente para
orientar a vida para Deus, conforme o exemplo e o ensinamento de Cristo.
Tudo o que contradiz a dignidade cristã, ainda pertence ao “homem
velho”, não renovado pelo Espírito de Cristo e, por isso, deve ser
deixado de lado. E tudo o que é coerente com o Evangelho é expressão da
“vida nova em Cristo e no seu Espírito”; e isso deve ser buscado com
todo esforço e perseverança.
O viver cristão é, portanto, uma proposta de “vida nova”, orientada
pelo Espírito de Cristo. E isso requer a superação dos vícios e das
práticas contrárias a Deus e ao próximo, ou contra a própria dignidade;
ao mesmo tempo, a vida cristã floresce em todo tipo de belas virtudes,
que tornam o viver nobre e santo.
Arquidiocese de São Paulo, 27-05-2015.
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