08
jan 2013
Realmente, essa é uma pergunta muito boa, para a qual talvez não
exista uma resposta conclusiva, pois no fundo trata-se de um mistério.
Para entender como se chegou a essa situação, é necessário regredir
um pouco no tempo em busca das raizes do problema. Sempre houve
materialistas e ateus, como Epicuro e Demócrito, já nos tempos áureos da
filosofia grega; mas, para nos restringirmos aos tempos modernos,
podemos começar novamente com Descartes. Uma das suas preocupações era
precisamente a de estabelecer (como postulado) uma separação radical
entre a fé e a razão humana, criando compartimentos estanques e
incomunicáveis dentro de cada ser humano, o qual teria assim uma espécie
de chave que poderia ser ligada e desligada: ora pensaria e agiria como
cientista, utilizando-se só da razão, ora pensaria e agiria como homem
religioso, valendo-se da fé. A religião seria, nesse esquema, algo
puramente voluntário e sentimental, em que a razão não teria cabida.
Um dos fatores que contribuiram para dar origem a essa atitude foram
as guerras de religião do século XVI, cujas conseqüências Descartes
chegou a presenciar: manifestações de fanatismo as mais diversas, em que
cada grupo afirmava estar na verdade e queria convencer os demais pela
força. Não é de estranhar que, até entre gente equilibrada, se
levantasse a tentação de dizer que os assuntos de religião são como os
sentimentos: cada qual tem os seus, como tem os seus gostos e
preferências pessoais; é assunto sobre o qual de nada adianta discutir:
os argumentos são muito mais passionais do que racionais. Que motivos
racionais pode ter um torcedor para torcer por um time de futebol?
Ora, uma vez que se afirme que todas as religiões são iguais – que
dependem do gosto de cada um –, o passo seguinte é uma indiferença
absoluta, que no fundo admite que nenhuma delas está na verdade e
nenhuma possui valores absolutos. A conseqüência é que não vale a pena
aderir a nenhuma religião oficial e muito menos praticá-la.
O passo histórico seguinte foi o deísmo, corrente nascida na
Inglaterra, segundo a qual Deus não seria senão o Grande Arquiteto do
Universo que, tendo construido o mundo, o teria abandonado a seguir nas
mãos do homem; neste caso, caber-nos-ia viver como se Deus não
existisse, e portanto, seria preciso rejeitar a existência de milagres,
da Providência ou de um Evangelho revelado, negando também qualquer
intervenção de Deus na história humana. Cristo seria um grande profeta e
até o maior dos homens, o que, na boca dessas pessoas, equivalia a
negar que fosse Deus. A religião, a união com Deus, ficaria reduzida a
um vago sentimentalismo, e a moral a umas simples regras de convivência
entre os homens.
A partir daí, alguns filósofos ingleses começaram a autodenominar-se
livre-pensadores, querendo dizer com isso que estavam livres da
superstição (isto é, da religião), e que aceitavam somente uma religião
“natural”, sem dogmas nem ritos; adotaram o lema “liberdade, igualdade,
fraternidade”, que seria assumido mais tarde pela Revolução francesa.
O passo seguinte na evolução dessa linha de pensamento foi,
naturalmente, o agnosticismo (se é que Deus existe, não é possível
conhecê-lo), ou simplesmente o ateísmo. Por essa rota caminharam os
filósofos da Ilustração francesa: Condillac, Diderot, D’Alembert, que
Lênin recomendava como a melhor introdução ao “ateísmo científico”.
Nessa trajetória nota-se, paralelamente à expulsão de Deus da vida e
do pensamento, uma deificação do próprio homem. A atitude de Descartes
atribui ao homem (à sua inteligência) qualidades que são exclusivas de
Deus; Espinosa diz que o homem é parte de Deus; Kant atribui à razão
humana um papel fundamental na constituição da realidade; Hegel, num
panteísmo cósmico, deifica a razão humana, projetando-a como criadora de
toda a realidade; e Feuerbach entroniza definitivamente o homem no
lugar de Deus: “O homem é para o homem o ser supremo”, idéia plenamente
aceita por Marx. Finalmente, Nietzsche, como representante de muitos
outros, proclama a morte de Deus.
O triste paradoxo embutido nessa atitude é que, ao tentar divinizar o
homem, acabou-se por animalizá-lo, reduzindo-o a um plano infra-humano.
A conclusão era lógica: se o homem não provém de cima (de Deus), só
pode provir de baixo (da matéria); se a dignidade do homem provém de
estar feito à imagem e semelhança de Deus, ao suprimir-se Deus
suprime-se também a sua dignidade, e o homem passa a ser qualquer outra
coisa: o homem é aquilo que come (Feuerbach); é puro sexo (Freud);
provém do macaco (Darwin), que provém da matéria (os defensores atuais
da geração espontânea), que provém do caos. Em perfeita consonância com
esses princípios, pregaram-se as filosofias da inimizade: o príncipe
deve dominar pelo medo (Maquiavel), o homem é o lobo do homem (Hobbes), a
guerra, a luta e a contradição constituem a essência da realidade
(Hegel), o ódio é o motor da história (Marx), o inferno são os outros
(Sartre), devemos aprender a odiar (Lunatcharsky). Os inimigos estão
dentro do próprio homem, numa tensão entre id, ego e super-ego, nos recalques, nas tensões psíquicas, no stress e nos complexos dos mais diversos gêneros.
Estas breves pinceladas não têm a pretensão de ser uma análise
histórica, mas penso que são suficientes para explicar uma série de
características do atual estado da sociedade. Depois de tudo isso, não é
de estranhar que alguns cientistas pudessem e possam desembocar no
ateísmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário