Minha esposa teve câncer durante seis
anos até falecer. Dos quarenta anos de casados, este foi o período mais
doloroso de nossa vida, mas também o mais rico espiritualmente, onde
vivemos de “puro amor”, nada mais.
No dia 25 de setembro de 2005, dia de meu
aniversário, eu voltava de Cachoeira para Lorena; meu celular tocou e
eu vi que era ela, a Zila me chamando. Atendi. Com muita calma ela me
contou que tinha feito uma mamografia e que foi acusado um tumor
cancerígeno em uma de suas mamas. Meu sangue gelou! A gente acha que
isso nunca vai acontecer com a gente ou perto de nós. Mas são os
desígnios de Deus.
A partir dai começou uma luta que durou
seis anos até o seu desfecho. Foi uma longa história de fé, amor, luta,
sacrifícios, orações… Ela passou por uma longa cirurgia em São Paulo,
onde foram retirados mais de dez nódulos cancerígenos comprometidos pelo
câncer. A nossa filha médica, que acompanhou tudo, sabia da gravidade.
Quando ela me contou, eu percebi que o caso era grave, mas a gente
parece que faz força para não acreditar.
É nessas horas que Deus põe em cheque a
nossa fé; muitas vezes eu já tinha repetido em muitas palestras que:
“Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são seus
eleitos, segundo os seus desígnios” (Rom 8,28). E mais: “Vivei sempre
contentes, orai sem cessar. Em todas as circunstâncias, dai graças,
porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus a vosso respeito em
Cristo Jesus” (1 Tes 5,16-18).
Chega um momento que a gente não tem mais
que ensinar isso para os outros, mas para nós mesmos, e tem que viver,
tem de mostrar a Deus a coerência de nossa fé. Na oração da missa do 7º
domingo depois de Pentecostes a gente lê: “Ó Deus, a Providência divina
nunca falha!” Mas será que a gente crê nisso? Santa Teresa dizia: “Deus
tudo sabe, tudo pode, e me ama.” Quantas vezes eu já tinha lido isso!
É a hora da fé. São Paulo disse que “o
Justo vive da fé” (Rom 1, 17); “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb
11,6). O profeta Isaías disse que “Os meus caminhos não são os vossos
caminhos e o vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor.” (Is 55,8).
A fé faz a gente compreender que quando
Deus permite que a dor nos atinja é porque Ele precisa arrancar do
jardim de nossa alma a erva daninha que a pode mata-la. E Ele não pode
permitir isso, pois tem ciúme de nós, nos ama loucamente, não aceita nos
perder. No fundo Ele faz a mesma coisa que eu fazia quando levava meus
filhinhos chorando para tomar uma injeção no bumbum; ou quando eu o
levava ao hospital para dar pontos doloridos no corte do queixo.
O sofrimento é um mistério, um enigma,
entrou na nossa história por causa do pecado. “O salário do pecado é a
morte” (Rom 6,23). Mas Jesus, fez aquilo que parecia impossível,
“transformou o sofrimento em matéria prima da salvação” quando o abraçou
radicalmente na Cruz. Não compreendemos bem as coisas, nem mesmo o que é
a felicidade. Mas, se Deus é meu Pai, aconteça o que acontecer, que
terei a temer?
Depois da longa cirurgia de quatro horas
da Zila, vieram seis longos anos de quimioterapia e radioterapia. Um
dia, logo nos primeiros dias do tratamento, ela me disse: “eu não vou
morrer, não, fique tranquilo, eu sei que você não sabe viver sem mim”.
Algumas vezes eu tive de esconder dela para derramar as lágrimas; nunca
deixei que ela visse. Mas ela não abaixava a cabeça não, seus cabelos
caíram, mas ela não deixou a vida cair. Continuou o seu trabalho na
Editora Cléofas como se nada tivesse acontecido. Passei a amá-la e
cuidar dela como nunca tinha feito.
Mas é nessas horas que a gente agradece a
Deus por ter uma boa família; os filhos e eu, o genro e as noras,
abraçamos esta sua luta como se fosse de cada um de nós; essa é a parte
consoladora de tudo. Sou muito grato a Deus por tudo isso. Nos seis anos
que ela lutou não teve tréguas; a quimioterapia em São Paulo se repetia
a cada quinze dias rotineiramente. O câncer que já tinha alcançado a
metástase, passava de um lugar para outro. Do seio migrou para os ossos,
dos ossos para o fígado, do fígado para não sei mais onde… até tomar o
cérebro e os pulmões; foi o fim.
Mas nós ficávamos impressionados com a
sua resistência; dificilmente a quimioterapia, longa e pesada, derrubava
a sua imunidade. Poucas vezes precisou de antibióticos para vencer uma
infecção ou algo parecido. Nada mudou em sua vida; não teve depressão e
nem medo da morte, embora soubesse da gravidade; tocava a vida
normalmente como se fosse viver muitos anos.
É claro que ela tinha seus momentos de
irritação, coitada, e com todo o direito. Mas nunca a vi culpar a Deus
ou se queixar dele. Ao contrário, a vi dar graças a Deus por muitas
coisas: os netos que ela tanto amava, os filhos, a nós todos. Não deixou
de fazer uma festa sequer como gostava de fazer nos aniversários.
Ela amava a vida, por isso viveu até o
seu último dia. Antes de partir para a eternidade, ela ficou internada
por cerca de um mês em São Paulo. Nós nos revezámos com ela; sempre dois
em sua companhia. Precisou colocar um “stent” na garganta porque o
câncer fechou o esôfago e ela não conseguia mais comer; precisou fazer
radioterapia no cérebro porque a quimioterapia não chegava lá. Não
reclamava de nada.
Este mês foi para mim como que um mês de
retiro espiritual. Como Deus é bom! No hospital há uma bela capela com o
Santíssimo Sacramento no Sacrário o dia todo; e Missa todos os dias. Eu
dividia meu tempo entre o quarto dela e a capela. Pude rezar muito por
ela, graças a Deus; é o melhor que a gente pode fazer nestas horas. A fé
me sustentou e sustentou a todos nós.
Na noite em que faleceu, 19 de setembro
de 2012, uma semana antes de meu aniversário, eu fui à Missa às 18.00
horas com o Mateus. Voltamos para o quarto um pouco antes da 19 horas. E
eu fiquei sozinho com ela, porque os filhos estavam na sala de espera
com um parente que chegou ao hospital. Sozinho com ela eu rezei mais uma
vez o Terço da Misericórdia, da Irmã Santa Faustina. Em seguida,
segurando em sua mão eu fiz esta oração:
“Senhor Jesus, o Senhor está comigo aqui
agora pela Eucaristia em minha alma; se ela está pronta para ir para o
Senhor, se estiver preparada, a leve, pois está sofrendo. Eu a entrego e
agradeço por esses quarenta anos que vivemos juntos…”
Tão logo eu terminei esta oração, sua
respiração foi diminuindo e ela se foi para Deus. Eram 19.05 horas. Acho
que ela não quis que os filhos a vissem partir…
Eu tinha pedido a Nossa Senhora que ela
partisse em um dia de uma de suas festas. E que isso fosse para mim um
sinal. Pois bem, depois que ela se foi, pude verificar que o dia 19 de
setembro é dia de Nossa Senhora de La Salette. Nunca dei tanto valor a
nosso casamento!
Deus quis que a sua Missa de sétimo dia
fosse exatamente no dia de meu aniversário! Tudo isso pode parecer
trágico, mas para mim foi sinal do amor de Deus. Nesta data eu pude
agradecer a Deus pelos meus 63 anos e também pelos 40 anos que Ele
deu-me ela como um raro presente. A leitura da Missa neste dia era a do
Eclesiastes que dizia: “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um
momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo
para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para
matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir;
tempo para chorar, e tempo para rir…” (Ecl 3,1-8). Deus seja louvado!
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