sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Não, senhor... o Inferno não está vazio!

Nenhum católico fiel à ortodoxia pode dizer que o Inferno está vazio. Estão lá pelo menos os anjos caídos, e não há absolutamente nenhuma esperança de que eles se arrependam. Só isso já nos diz o bastante sobre a possibilidade de também nós, homens, nos condenarmos…

Não, senhor... o Inferno não está vazio! 

 

Por Edward Feser 
Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere

 

Temos falado sobre a opinião de Hans Urs von Balthasar segundo a qual é possível ao menos esperar que todos os seres humanos se salvem. Ora, Balthasar foi um teólogo católico que teve o cuidado de não contradizer a doutrina definitiva da Igreja sobre o assunto. É por isso que ele não patrocina a visão universalista de que todos devem ser e, portanto, definitivamente serão salvos (algo que é herético) [i]. Todavia, também é significativo que, no título de seu famoso livro sobre o assunto [ii], ele tenha sido cuidadoso ao formular a pergunta: “Ousamos esperar ‘que todos os homens se salvem’?” Em outras palavras, ele pergunta se todos os seres humanos podem se salvar, e não se todas as criaturas dotadas de intelecto e vontade, inclusive anjos caídos, podem se salvar. Na verdade, no livro ele diz o seguinte sobre os poderes demoníacos:     

Deve-se dizer desde já que de modo algum se pode aplicar a esperança teológica a esse poder. O terreno sobre o qual atua a redenção do Filho de Deus encarnado é, com toda evidência, a humanidade [...]. Não podemos concordar com a afirmação de Karl Barth de que os anjos não tinham liberdade de escolha e que o mito da “queda dos anjos” deve ser, portanto, rechaçado em absoluto [...]. A doutrina da queda dos anjos, profundamente enraizada em toda a Tradição, torna-se não só plausível, mas inevitável, se reconhecemos a existência do satânico [iii].

Na verdade, Balthasar especula em seguida se o conceito de “pessoa” ainda se aplicaria a um anjo caído — com base na ideia de que, normalmente, pessoas existem de um modo que supõe um relacionamento com outras, e aqueles que optaram permanentemente pelo mal acabaram por se trancar num egoísmo que impede um relacionamento adequado com os outros. Ora, trata-se de uma metafísica um tanto confusa. Por um lado, pessoas que estão presas à maldade não conseguem estabelecer relacionamentos saudáveis com outras, mas isso não quer dizer que não possam estabelecer nenhum relacionamento em absoluto. Por outro lado (e como Balthasar não parece negar), os demônios ainda preservariam o intelecto e a vontade, ainda que não tivessem nem mesmo relacionamentos defeituosos com outras pessoas. Certamente, numa análise tomista isso bastaria para fazer deles pessoas. Mesmo assim, independentemente de como decidimos caracterizá-los, parece que Balthasar não nega que os demônios estejam perdidos para sempre, de modo que não podemos esperar que eles se salvem.

Sem dúvida, a razão é que isso também é um requisito da ortodoxia católica. Como ensina o IV Concílio de Latrão:

[Jesus] virá ao fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos e para premiar cada um segundo as suas obras, tanto os maus como os eleitos. Todos ressuscitarão com os próprios corpos com que agora estão revestidos, para receber, segundo suas obras, sejam boas ou más, uns a pena eterna com o diabo, outros a glória eterna com o Cristo (DH 801).

Mesmo que se argumentasse o seguinte: “Isso não implica que, de fato, algum ser humano será condenado eternamente; só indica a possibilidade de que isso aconteça”, não seria sensato negar que o diabo está padecendo um castigo eterno. De modo semelhante, o Catecismo da Igreja Católica ensina que “não há arrependimento para eles [os anjos] depois da queda”, de modo que a escolha dos demônios contra Deus é “irrevogável” e o pecado deles, “imperdoável” (§ 393). Este ensinamento também está na Sagrada Escritura: 

Em seguida, dirá aos que estiverem à esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos” (Mt 25, 41).

E o demônio, que os seduzia, foi metido no tanque de fogo e de enxofre, onde também a Besta e o falso profeta serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos (Ap 20, 10).

Portanto, nenhum católico que seja coerente com a ortodoxia pode afirmar que o Inferno está vazio. Estão lá pelo menos os anjos caídos, e não há absolutamente nenhuma esperança de que se arrependerão. Até Von Balthasar o admite. Ao menos para o católico, trata-se de um limite absoluto que não pode ser ultrapassado pela especulação ortodoxa relativa ao tema. Não só não se pode afirmar que todas as criaturas devem ser e serão salvas, mas também se deve afirmar que algumas [já] estão condenadas — no mínimo os demônios. 

Nossa Senhora da Conceição e São Miguel lutando contra Lúcifer. Autor desconhecido.
 

O que isso nos diz sobre a possibilidade de alguns seres humanos se condenarem? Bastante. Por um lado, isso abala o principal argumento a favor da esperança balthasariana segundo a qual ao menos todos os seres humanos podem se salvar. O argumento é o seguinte: Deus deseja que todas as pessoas se salvem, como está dito em 1Tm 2, 3-4 e outras passagens. Prossegue o argumento: se Deus o deseja, temos boas razões para esperar que isso venha a acontecer. Mas, obviamente, Deus também desejou que todos os anjos se salvassem; apesar disso, é certo que alguns se condenaram mesmo assim. Portanto, por que o fato de Deus querer que todos os homens se salvem aumentaria a possibilidade de todos se salvarem? (No capítulo 17 do livro XXI de A Cidade de Deus, Santo Agostinho apresenta o argumento correlato de que é absurdo apelar à divina misericórdia como prova da salvação de todos os seres humanos e ao mesmo tempo reconhecer que os demônios estão perdidos para sempre, apesar da misericórdia de Deus.)       

Ao contrário, a priori a salvação de todos os seres humanos é muito menos provável que a de todos os anjos, pois o intelecto e a vontade deles são muito mais poderosos que os nossos. Por serem incorpóreos, estão livres das paixões que cegam o intelecto e dominam a vontade. Não podem cair nos diversos erros que podem levar os seres humanos ao pecado, e não se desviam do bem por meio de sentimentos de raiva, luxúria, ânsia por álcool ou drogas etc. Portanto, se mesmo assim muitos anjos se condenam, na melhor das hipóteses a priori é extremamente improvável — na verdade, praticamente impossível — que nenhum ser humano se condene.  

Isso por si só bastaria para que qualquer católico tivesse cautela em acreditar na sugestão de que há alguma esperança de que todos os seres humanos venham a salvar-se. Mas pode-se dizer muito mais. Em meu texto anterior, observei que o Beato Pio IX condenou a seguinte proposição no Sílabo dos Erros: “Pelo menos se deve ter boa esperança quanto à eterna salvação de todos os que não se encontram de algum modo na verdadeira Igreja de Cristo” (DH 2917). Mas e aqueles que estão nela? Bem, em 1459 o Papa Pio II condenou a proposição “de que todos os cristãos se salvam” (DH 717). Sobre a espécie humana em geral, o Sínodo de Quiercy ensinou que “Deus onipotente ‘quer que todos os homens’ sem exceção ‘sejam salvos’, embora nem todos o sejam” (DH 623). Repare que o sínodo afirma claramente que de fato nem todos serão salvos, embora Deus o queira.


Tais afirmações estão perfeitamente alinhadas com o que a Sagrada Escritura ensina de forma clara em passagens como estas:

Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Que estreita é a porta, e que apertado o caminho que conduz à vida, e quão poucos são os que dão com ele (Mt 7, 13-14).

Alguém lhe perguntou: “Senhor, são poucos os que se salvam?” Ele respondeu-lhes: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não conseguirão” (Lc 13, 23-24).

Muitas outras passagens da Sagrada Escritura e da Tradição poderiam ser citadas. A implicação mais do que evidente é que alguns seres humanos realmente serão condenados — na verdade, as próprias palavras de Cristo, ditas em resposta a uma pergunta direta sobre o assunto na referida passagem do Evangelho de Lucas, sugerem que a maioria das pessoas será condenada.   

Mesmo assim, os balthasarianos se prendem a problemas lógicos no intuito de encontrar nessas afirmações brechas por meio das quais a esperança da salvação de todos possa ser aceita sorrateiramente com base em algo técnico. Trata-se de um modo absolutamente bizarro de fazer teologia. Podemos comparar isso a um médico que, examinando as terríveis estatísticas relativas ao câncer de pâncreas, observa que apesar disso é no mínimo possível sobreviver a ele e em seguida diz alegremente aos seus pacientes: “Podemos ao menos esperar que todos os pacientes acometidos pelo câncer de pâncreas sobreviverão!” Afinal, se isso é possível para alguns, não seria possível para todos?

“Dante e Virgílio no Nono Círculo do Inferno”, por Gustave Doré.
 

No caso do câncer de pâncreas pode ser que o paciente sobreviva, mas é necessário que algumas coisas sejam bem-sucedidas para isso acontecer; e como na maioria dos casos é muito improvável que todas elas sejam bem-sucedidas, simplesmente não há uma esperança realista de que toda possibilidade de sobrevivência se realizará em todos os casos. Mas a mesma coisa é verdadeira em relação à salvação das almas. Não basta observar que, no plano abstrato, qualquer alma individual poderia ser salva. Também temos de perguntar o que deve acontecer especificamente para que ocorra a salvação de uma alma, e qual é a probabilidade de que isso ocorrer em cada caso específico. Uma vez que fizermos isso, a ideia de que podemos ter esperança na salvação de todos mais uma vez será vista a priori como algo ridiculamente irreal.

Segundo a Igreja, são estas as coisas que devem ser bem-sucedidas: se um católico é culpado de pecado mortal, deve se arrepender dele com o firme propósito de evitá-lo no futuro, deve ao menos ter contrição imperfeita (isto é, sentir tristeza pelo pecado por medo da punição divina ou por abominar a feiúra do pecado), e no caso de contrição imperfeita deve, na verdade, receber a absolvição no sacramento da Confissão. Se não tiver recebido a absolvição, ainda poderá ser salvo se tiver contrição perfeita (isto é, tristeza pelo pecado por amor a Deus) e pelo menos a intenção de se confessar e receber a absolvição. Sem preencher essas condições, ele não pode ser salvo. Por exemplo, se o católico não tem contrição perfeita, nunca se confessa e morre, não poderá ser salvo. Se a pessoa está fora dos limites visíveis da Igreja, ainda pode ser salva, mas somente se tiver contrição perfeita e ao menos um desejo implícito de receber o Batismo. Se faltarem as duas coisas na hora da morte, a pessoa não poderá se salvar. 

Ora, é claro que há mais a ser dito sobre esses critérios, além de qualificações a serem feitas. Por exemplo, o que conta como contrição perfeita ou como desejo implícito de receber o Batismo? Eu argumentaria a favor de uma interpretação razoavelmente ampla desses conceitos. Por exemplo, mesmo que uma pessoa tivesse — sem culpa própria — muitas crenças falsas a respeito da natureza divina, ainda assim seria plausível supor que ela poderia ter contrição perfeita ou horror do pecado por amor a Deus.  

Mas de modo algum se pode dizer que qualquer postura é aceitável. Por exemplo, dificilmente será possível afirmar que terá contrição perfeita uma pessoa que dedicou a vida inteira a se divertir e ganhar dinheiro, e que trata a moral e a religião com total indiferença ou mesmo desprezo, ainda que ela possa ser considerada uma pessoa “legal” em algum sentido banal da palavra. Deste modo, se ela tiver uma morte súbita, é muito improvável que venha a ser salva. É possível que uma pessoa como essa tenha em si uma dimensão mais profunda que o mundo não enxerga? Com certeza. Talvez haja recônditos da alma dela que só são vistos por Deus e nos quais é evidente a contrição perfeita, de modo que a morte não implicará sua condenação. Mas quão remotas são as chances de que toda e cada uma das pessoas que vive desse modo esteja real e profundamente contrita, e portanto possa ser salva — embora nem mesmo todos os anjos tenham sido salvos? A ideia mesma é absurda. E aqui falo apenas sobre vidas imorais ordinárias, que vemos no dia a dia. Quando incluímos pessoas ainda mais depravadas moralmente (assassinos, estupradores, traficantes de drogas etc.), torna-se ainda mais absurdo supor que cada uma delas possa morrer em estado de contrição perfeita.  

Detalhe do diabo roubando a alma de Judas. Afresco na igreja de Notre Dame des Fontans, perto de La Brigue, na França.
 

A própria Sagrada Escritura sugere que alguns seres humanos específicos estão condenados. Apocalipse 20, 10 (citado acima) indica que a Besta e o falso profeta dos últimos dias serão condenados. Judas 7 afirma que “Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas, que com elas se entregaram à luxúria e se abandonaram aos vícios contra a natureza, foram postas por escarmento, sofrendo a pena do fogo eterno”. Cristo diz sobre Judas que “melhor fora a tal homem que não tivesse nascido” (Mt 26, 24), e também: “Conservei os que me deste; nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, cumprindo-se a Escritura” (Jo 17, 12).   

Também neste ponto algumas pessoas recorrem à ginástica mental para tentar se esquivar do sentido inequívoco desses textos. Nenhum desses esforços é confiável, e sequer faz sentido tentar realizar tais interpretações criativas, a menos que se esteja partindo do pressuposto de que é plausível que todos possam ser salvos. Quando entendemos que isso não é plausível — pelas razões que expliquei claramente —, cai por terra qualquer motivação residual para fazer um esforço de enxergar nesses textos qualquer outra coisa que não seja a inferência de que as pessoas mencionadas estão condenadas.

Mesmo assim, creio que muitas pessoas preferirão se apegar à falsa esperança. O próprio Cristo poderia aparecer a elas e dizer: “Escutai com bastante atenção e compreendei o que digo: Algumas pessoas estão no Inferno”, e elas responderiam: “Senhor, este é apenas um alerta de que alguns talvez irão para o Inferno, certo? Ou talvez a palavra ‘pessoas’ tenha sido usada em algum sentido incomum. Mesmo assim, o que significa ‘Inferno’? Refleti sobre isto: as palavras ‘algumas’, ‘estão’ e ‘no’ também poderiam significar qualquer coisa. Senhor, certamente falais por parábolas, mas tenho certeza de que um dia nos revelareis qual o significado disso tudo. De qualquer maneira, até lá podemos ter esperança!” 

Ou talvez acusariam a Cristo de querer que as pessoas sejam condenadas ao Inferno, tal como fazem rotineiramente com teólogos e clérigos que alertam sobre o Inferno. Isso é tão irracional quanto acusar o médico que alerta sobre a baixa taxa de sobrevivência dos pacientes com câncer de pâncreas de querer que as pessoas morram da doença. Nenhum católico deseja a condenação eterna de ninguém; eu certamente não desejo. E afirmo que aqueles que alertam sobre o Inferno têm mais compaixão (não menos) do que os que pregam uma falsa esperança.

Notas

  1. Ao longo de todo o texto original, o autor deixa referências a outros artigos de sua autoria, que complementam o assunto apresentado. Para acessá-los, basta ir diretamente ao site dele. (N.T.)
  2. O título da obra de Von Balthasar em inglês é justamente este: Dare We Hope “That All Men Be Saved”? Mas em outras línguas os títulos variam bastante. A própria obra original tem outro nome: Was dürfen wir hoffen? — “O que podemos esperar?” (N.T.)
  3. Hans Urs von Balthasar, Tratado sobre el infierno. 2.ª ed. Valencia: Edicep, 2000, pp. 118-119.
 

Fonte - padrepauloricardo

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