sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Sínodo, o único sacerdote indígena: “Eu deixaria o sacerdócio se entendesse que o celibato não serve mais para mim”

[unisinos]


"Eu deixaria o sacerdócio se um dia entendesse que o celibato não serve mais para mim". Quem fala é o padre Justino Sarmento Rezende, o único sacerdote indígena no Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia em curso no Vaticano. Embora favorável à questão dos viri probati, como solução para a falta de padres em áreas remotas da floresta, o padre brasileiro da etnia Tuyuca, especialista em espiritualidade indígena e pastoral inculturada, durante o briefing diário sobre os trabalhos sinodais refutou indiretamente as afirmações dos últimos dias do bispo austro-brasileiro Erwin Kräutler. "Não há outra possibilidade" que os padres casados na Amazônia, afirmava o prelado emérito do Xingu, "os povos indígenas não entendem o celibato".
A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por La Stampa, 17-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.
Como orador o padre Justino falou em vez do celibato como um "dom de Deus", para ser vivido em oração e com "esforço". "O celibato não nasceu com a pessoa humana", disse ele. "Ninguém entre nós está preparado para viver o celibato, mas estamos falando de um dom de Deus. Eu penso que seja possível vivê-lo quando uma pessoa decide isso voluntariamente. É uma virtude que pode ser vivida por qualquer pessoa, não falo pelas mulheres sobre as quais há muita confusão no momento", acrescentou ele com uma brincadeira sobre as discussões de um ministério feminino. “Mas é necessário um esforço, porque estamos falando de um dom de Deus. Se chegar um dia em que eu entender que o celibato não serve mais para mim, eu deixaria o sacerdócio”.
Questionado sobre isso, o padre Sarmento também contou como sua vocação nasceu cerca de trinta anos atrás, quando ouvia os missionários europeus ensinando em português o catecismo a seus avós analfabetos: "Quando adolescente, pensei que poderia me tornar sacerdote e falar sobre tais coisas em minha língua”. Para o bispo que pedia jovens padres para um novo seminário em sua terra, Justino, juntamente com outros quatro garotos, expressou esse desejo, recebendo, no entanto, uma resposta cortante: "Não é para vocês, vão jogar futebol".
Essa era a atitude da Igreja em relação às populações nativas na década de 1970: "Em 1980, a Igreja começou a entender que nós indígenas evangelizados poderemos nos tornar evangelizadores. E eu sou padre há 25 anos”. A mãe chorou copiosamente com o anúncio de sua entrada no seminário: "Ela sonhava com netos. Ficou muito triste com a minha escolha. Para ela, os únicos aptos a serem padres na época eram os brancos. Até mesmo para mim ...”. E também para o avô que dizia ao sobrinho que o celibato não era coisa de índios.
O padre Justino hoje, no sínodo, testemunha o contrário e é um exemplo de uma Igreja inculturada como aquela defendida pelo Papa Francisco e por muitos dos participantes da assembleia: “Um evangelho que se incarna nas histórias e culturas dos povos e se torna algo interno. Nós somos Igreja, a Igreja não está fora de nós", disse ele.
As modalidades com que implementar esse trabalho de inculturação - que suscita as preocupações das correntes mais conservadoras por que poderia comprometer a doutrina - são temas da ordem do dia do debate sinodal. O conceito básico é o expresso por Bento XVI e frequentemente citado por Francisco: "Não se evangeliza por proselitismo, mas por atração".
É esse o ponto, afirmou o outro orador no briefing, Monsenhor Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (Brasil): "A inculturação respeita o processo de ambos os lados, a nossa ideia não é anular a cultura do outro, mas preservar sementes presentes em cada cultura. Esse compromisso não significa que a outra pessoa se torne um índio, mas que continue a permanecer uma pessoa do seu povo, mas recebendo a mensagem de Jesus Cristo, as boas novas ...".
Sempre Paloschi, durante o briefing, junto com Felício de Araújo Pontes Júnior, procurador da República, apresentou um panorama da questão dos direitos dos povos indígenas da região pan-amazônica. Direitos constantemente desrespeitados que levam, em alguns casos, à aniquilação de tribos inteiras. É o que acontece em especial com grupos de índios que se isolaram voluntariamente na selva, a fim de não ceder à chantagem do consumismo e da hiper-tecnologização que gradualmente é incutida nas diferentes culturas. Não vacinados, na maioria das vezes não registrados no cartório, longe de qualquer contato com o mundo exterior, esses grupos - cerca de 150 atualmente - correm o risco de extinção. "Eles nunca foram tão ameaçados como agora", afirmou o bispo, acrescentando com claro referimento às palavras do papa na Laudato si', que: "O desaparecimento de um povo e uma cultura é algo perigoso, grave, nocivo e prejudicial”. "É necessário continuar lutando para defender esses irmãos que correm o risco de genocídio. ‘Onde está o teu irmão?’, lemos no Gênesis, um dia teremos que responder a essa pergunta".
Com igual apreensão, o bispo brasileiro denunciou o tratamento reservado a todas as populações indígenas, especialmente aquelas de sua terra, que se tornaram cada vez mais vulneráveis sob a presidência do soberanista Jair Bolsonaro. Em muitas comunidades, a própria Constituição de 1988 foi violada, o que previa que os territórios tradicionais fossem demarcados e delimitados dentro de cinco anos. “Pois bem, nem um terço foi demarcado e, de qualquer forma, viraram alvo, foram invadidas por garimpeiros, indústrias de petróleo, por quem procura madeira. São 519 anos de opressão e resistência. Mas as comunidades indígenas existem e não será um presidentes que tirará seus direitos", foi a opinião do bispo, "essas pessoas só pedem respeito pelos direitos constitucionais".
Não é fácil, considerando que "na maioria das vezes nós indígenas falamos, mas não somos ouvidos", replicou a jovem Leah Rose Casimero, coordenadora acadêmica de um programa de bilinguismo para crianças da etnia Wapichan da Guiana, curadora de um programa de rádio.
Precisamente por esse motivo, ecoou Patricia Gualinga, embaixadora da comunidade Kichwa de Sarayaku na floresta amazônica do Equador, precisamos da contribuição fundamental da Igreja: "Na assembleia, pedi um empenho institucional pelos povos indígenas, um empenho para salvar a Amazônia constantemente ameaçada. É um dos biomas mais importantes do mundo, mas, como sabemos, existem investimentos de empresas de petróleo e mineradoras. Temos que desinvestir, não podemos perpetuar ações que põem em risco a vida da Amazônia”.
A Igreja deveria abraçar essa missão, enfatizou a oradora, talvez "estreitando uma aliança com os povos indígenas perseguidos, criminalizados e reprimidos que há mais de cem anos estão na linha frente em defesa da casa comum". Em jogo não estão apenas os direitos dessas pessoas, mas do "mundo inteiro".
Finalmente, duas foram as controvérsias, algo que jamais falta nos briefings de cada Sínodo. Uma delas se referia a supostos fundos de cerca de 1,2 milhão de dólares entregues ao CIMI, o conselho dos indígenas de que D. Paloschi é presidente, pela Ford Foundation, organização pró-aborto e pró-gênero, de acordo com o jornalista que apresentou a pergunta. "As contas do CIMI são abertas", respondeu o bispo, "foram verificadas, examinadas internamente e em nível governamental. Houve dois inquéritos parlamentares em níveis regional e federal e não foi encontrado nenhum erro, nenhuma acusação formal”.
A outra crítica referiu-se a uma escassa comunicação e transparência sobre as intervenções ocorridas dentro da plenária, inclusive aquelas do Papa. A resposta veio do prefeito do Dicastério da Comunicação, Paolo Ruffini: “O Sínodo é um processo coletivo e o que divulgamos é o discernimento, não um debate entre um e outro como se fosse um parlamento. Até o próprio Papa, quando fez sua intervenção, disse: falo como padre sinodal e, como para os outros padres sinodais, o discurso não é divulgado”.

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