quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Sínodo: uma Igreja inclusiva, missionária, centrada no Evangelho

A médica Sílvia Monteiro é uma das autoras do livro “Não temos medo” que reflete sobre a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e o caminho sinodal. Em entrevista afirma que “para progredirmos com rosto sinodal” é preciso não estarmos “fechados nas nossas bolhas” eclesiais, “mas ter um diálogo efetivo e aberto no mundo de hoje”.  

Silvia Monteiro (foto: João Lopes Cardoso)
Sílvia Monteiro (foto: João Lopes Cardoso)

 

Por Rui Saraiva – Portugal

 

“Não tenham medo” repetiu o Papa Francisco várias vezes na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023. “Não temos medo” é a afirmação generosa de várias personalidades portuguesas, que partilharam em livro as suas reflexões sobre a JMJ e o caminho sinodal. Uma obra com fotos de João Lopes Cardoso.

Um livro em diálogo com o mundo

Deixei-me inspirar pela multidão que celebrou a paz e a fraternidade, caminhando por Lisboa de mãos dadas, sem preocupações com hierarquias e lugares. E, assim, tive a ideia de coordenar um grupo de autores numa edição de opinião livre e empenhada em participar com a Igreja em diálogo com o mundo.

O prefácio é do ex-vice-primeiro-ministro de Portugal, Paulo Portas, que também foi ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros. Atualmente é professor universitário com presença semanal num canal de televisão como comentador da atualidade política nacional e internacional.

O posfácio é proposto pelo padre Paulo Terroso, responsável pelo Departamento de Comunicação Social da Arquidiocese de Braga e membro da Comissão de Comunicação da Secretaria Geral do Sínodo no Vaticano.

Com gratidão cito cada um dos autores: o enólogo Bento Amaral, a analista de assuntos internacionais Helena Ferro Gouveia, o autarca de Lisboa Filipe Anacoreta Correia, a jornalista Sónia Neves, a administradora de empresas Sofia Salgado, as religiosas Filipa Lima e Sandra Bartolomeu, o investigador em Ciência das Religiões Joaquim Franco, os professores universitários Paulo Mendes Pinto, João Paiva e José Manuel Pureza, os sacerdotes José Luís Borga, Sérgio Leal e José Maria Brito, a encenadora Matilde Trocado, a consultora Rita Sacramento Monteiro e a médica Sílvia Monteiro.

Sem medo de ser Igreja que caminha em conjunto

Precisamente, foi Sílvia Monteiro uma das presenças na Universidade Católica no Porto, numa primeira apresentação do livro “Não temos medo – Reflexões sobre a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e o caminho sinodal”.

Em entrevista afirma que “para progredirmos com rosto sinodal” é preciso não estarmos “fechados nas nossas bolhas” eclesiais, “mas ter um diálogo efetivo e aberto no mundo de hoje”. A reportagem é da jornalista Sónia Neves.

Sónia Neves (SN): “Não Temos Medo” é o título deste livro, mas também o mote para este encontro. De que é que não temos medo?

Sílvia Monteiro (SM): Não temos medo de ser uma Igreja que caminha em conjunto, todos, povo de Deus, voltados com coração para Deus e ao encontro com nossos irmãos. E estes dois aspetos para mim são fundamentais, para mim são duas faces da mesma moeda, amor a deus e amor aos irmãos e penso que tem de ser o foco da Igreja, desde sempre mas agora neste tempo, foco na fragilidade, foco nas periferias.

SN: Fomos acompanhando o que nos ia chegando da assembleia sinodal, no Vaticano, deste temas aqui indicados, há temas que te tocam, há temas em que pode haver medo que cheguem a Portugal?

SM: Eu penso que um dos principais temas que a Igreja tem de olhar de frente, prende-se com a diversidade, a Igreja precisa de sair da sua auto referencialidade e perceber que o Mundo é tão complexo que precisa da colaboração de leigos com perfis diferenciados. O acolhimento diverso no que diz respeito ao género, idade, raça é essencial e pode trazer um novo rosto à Igreja, uma igreja mais sinodal mas também uma Igreja com mais exigência e qualidade. Agora precisamos de exigir qualidade para progredirmos com rosto sinodal, não estar fechados nas nossas bolhas, nas coisinhas eclesiais, mas ter um diálogo efetivo e aberto no mundo de hoje. Todos reconhecemos que um dos problemas da atualidade, e sinto isso nos ambientes que vivo, é que há uma clara indiferença à Igreja, perdeu esta capacidade de tocar a vida concreta das pessoas. E penso que este é um passo importante e que, nós leigos, temos um papel importante, de dar testemunho das nossas vidas, vidas vividas neste mundo de hoje, para transmitir o essencial que é o Evangelho, de forma apaixonada, as maravilhas que Deus faz por cada um de nós.

SN: Esta é a oportunidade? Este tempo em que se vive o sínodo é levado com esperança até outubro de 2024? O que pode acontecer?

SM: Há muito trabalho para acontecer. O Papa Francisco propôs-nos este sínodo e diz claramente que é o caminho que o Espírito Santo nos está a inspirar. Para a Igreja o sínodo é um processo, um caminho que se vai desenvolvendo no tempo e que exige renovação constante e, de facto, exige o empenho de todos, a começar pela hierarquia que precisa definir um plano, de nós, leigos, que precisamos  também de discutir e sobretudo dialogar, este diálogo que aprendemos agora com o sínodo, o diálogo no Espírito, no fundo fazer este caminho de diálogo e comunhão, que exige uma conversão pessoal de cada um de nós para fazer este caminho de construirmos uma Igreja diferente, que todos nós sonhamos. Uma Igreja que seja inclusiva, que seja verdadeiramente missionária, centrada no Evangelho e que, sobretudo, considero mesmo importante, que vá ao encontro das periferias.

SN: Este foi um primeiro encontro, esperam-se outros. É importante que os leigos percebam que há espaço, não para criticar a Igreja, mas para dialogar de forma construtiva e até esperançosa, aquilo q é ser e estar em Igreja?

SM: Claro que há espaço e se não há temos de alargar a tenda, como nos é pedido. Falamos muitas vezes que na Igreja não nos dão espaço mas, provavelmente, nós também temos essa responsabilidade e, nós leigos para participarmos, precisamos de sermos cristãos adultos na fé, é preciso vontade, responsabilidade, disponibilidade, é preciso capacitação. Os leigos precisam de investir na sua educação e formação e ter este interesse para fazer caminho. Eu penso que o sínodo vai depender da conversão de todos nós, a começar por mim, pelos entusiastas do sínodo, é preciso fazer esta conversão, como eu disse olhar para dentro de nós, reconhecer e abraçar as nossas fragilidades e vulnerabilidades, despojarmo-nos das nossas ideias concretas, de preconceitos, de ideias feitas, da nossa sabedoria, para desta forma podermos ir ao encontro do outro, aceitar as suas diferenças, fragilidades para, em conjunto, escutarmos o Espírito e tentar encontrar consensos que vão ser possíveis para conseguirmos esta comunhão em Cristo. Isso vai levar-nos, seguramente, à participação e ao grande objetivo que é a missão desta Igreja que não pode perder a noção de qual é a principal missão, que é a evangelização, no fundo transmitir ao Mundo esta graça que temos de um Deus que se fez Homem, que nos ama de uma forma absolutamente incondicional, como somos, onde estamos, um Deus que morreu para nos salvar e nos prometeu a eternidade. Uma mensagem mais forte não pode haver e temos de ter esta motivação de transmitir esta mensagem com alegria e de forma apaixonada ao Mundo de hoje que tanto precisa de esperança.

Definitivamente, não temos medo de viver e testemunhar a fé em Jesus Cristo em ritmo sinodal. Nas próximas semanas apresentaremos aqui mais reflexões sobre este tema, preparando a segunda sessão do Sínodo em outubro de 2024.

Nos próximos meses o Relatório de Síntese da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos bispos, apresenta-se como uma ferramenta de trabalho fundamental. Um documento que “recolhe as convergências, as questões a aprofundar e as propostas que surgiram do diálogo” desenvolvido na primeira sessão do Sínodo em Roma.

 

Fonte - vaticannews

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