sexta-feira, 4 de março de 2011

A Palavra do Sacerdote


Cônego José Luiz Villac
Pergunta
— Gosto muito de a ler a revista Catolicismo e principalmente os artigos do senhor. São poucos os padres que têm conhecimento como o senhor... Por isso estou aqui! Tenho algumas dúvidas e gostaria de esclarecê-las. A primeira pergunta é sobre a passagem em que o ladrão se arrepende na cruz. Os protestantes a usam para dizer que basta a fé... Conheço a carta de São Tiago que fala sobre a fé sem obras, mas gostaria de saber refutar especificamente esta passagem. Ele de fato se arrependeu, mas isso não justifica a sola fide. A segunda pergunta diz respeito à passagem do rico que vai para o inferno. Os protestantes dizem que o rico pediu para que avisassem seus parentes, o que não ocorreu, mostrando, dizem eles, que não há intercessão. Volto a dizer que gosto muito do trabalho que o senhor vem realizando. Que Deus o ilumine e lhe dê muitos anos de vida para manter os fiéis na fé católica.
Resposta Quis manter os elogios do missivista, embora não me veja obrigado a concordar com eles, porque revelam a triste situação em que se encontra hoje a Santa Igreja. Infelizmente muitos sacerdotes se deixaram influenciar pela teologia progressista, e com isso os fiéis, com certa freqüência, têm dificuldade de encontrar quem lhes ofereça a doutrina católica tradicional. Quando encontram alguém, e que possa fazê-lo, por vezes exultam. Antes que a peste do progressismo tivesse invadido os meios católicos, os fiéis encontravam normalmente sacerdotes que os orientavam com segurança nas vias sacrossantas da fé católica.
Feita esta observação inicial, passo a responder, na medida de minhas possibilidades, as perguntas do consulente.
A coragem do bom ladrão na cruz
Se os protestantes, como diz o missivista, vêem na atitude do bom ladrão apenas um ato de fé, a sola fide — que para eles é a condição necessária e suficiente para a salvação — dão uma nova demonstração de sua vesguice habitual na interpretação das Sagradas Escrituras. Basta ler, atento ao contexto, a descrição que São Lucas faz da cena (cap. 23, vv. 35-43):
O mau ladrão repercutia o que diziam os príncipes dos sacerdotes, com o povo, escarnecendo de Jesus: “Salvou os outros, salve-se a si mesmo, se é o Cristo, o escolhido de Deus” (Lc 23, 35). Interesseiro, porque pensava apenas em salvar a própria vida, o mau ladrão participa dos insultos do populacho e repete: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós” (v. 39).
O Bom Ladrão
“Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”
O bom ladrão, pelo contrário, tem a coragem (que naquelas circunstâncias era um ato de heroísmo) de enfrentar a turbamulta, reconhece a própria culpa, increpa o mau ladrão e proclama a inocência de Jesus: “Nem tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? E nós estamos na verdade justamente, porque recebemos o castigo que merecem as nossas ações, mas este não fez nenhum mal” (vv. 40-41). E dirigindo-se a Jesus, suplica humildemente: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (v. 42).
Portanto, o ato de comiseração do bom ladrão não se resume a um ato de arrependimento e de fé. É, ao mesmo tempo, um ato de justiça, de caridade e de coragem heróica — as boas obras de que fala São Tiago — que mereceu a resposta de Jesus: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso” (v. 43).
Querer ver nisso a sola fide é realmente uma tremenda vesguice, que caracteriza os infelizes discípulos de Lutero, como dissemos de início.
A intercessão do rico Epulão era inócua
Banquete do rico Epulão e morte do pobre Lázaro diante da sua porta
Para entender o caso do rico condenado ao inferno, que intercede pelos seus irmãos e não é atendido, basta mais uma vez reler a narração que São Lucas faz da célebre parábola de Nosso Senhor (cap. 16, vv. 19-31). Do inferno, o rico vê Lázaro (o mendigo, que nesta Terra maltratara) no seio de Abraão (o Céu, ou, segundo alguns exegetas, o limbo dos antigos Patriarcas). “E gritando, disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama. Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, males; por isso ele é agora consolado, e tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí passar para cá. E disse o rico: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos, para que os advirta disto, e não suceda virem também eles parar a este lugar de tormentos. E Abraão disse-lhe: Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. O rico, porém, disse: Não, mas se algum dos mortos for ter com eles, farão penitência. E Abraão disse-lhe: Se não ouvem Moisés e os profetas, tampouco acreditarão, ainda que ressuscitasse algum dos mortos”.
Não é portanto qualquer intercessão que é atendida por Deus. A doutrina da Igreja ensina que, nesta Terra, a intercessão de uns pelos outros perante Deus é válida, como também o é a intercessão dos Santos no Céu por nós na Terra. E ainda a nossa intercessão em favor das almas que estão no Purgatório, porque a comunicação de graças entre o Céu, o Purgatório e a Terra é possível. Mas entre Lázaro e Epulão havia um abismo intransponível — como salienta o evangelho de São Lucas — de modo que a intercessão do rico no inferno, em favor de seus irmãos na Terra, era impossível e inócua.
A parábola do rico Epulão não é pois argumento válido para negar a doutrina da intercessão, como a Igreja nos ensina no dogma da Comunhão dos Santos.

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