terça-feira, 8 de março de 2011

Por que os judeus não crêem em Jesus? - Parte 3


4. Quarta tarefa: Um Só Povo 
Quarta tarefa do Messias: “Propagar o conhecimento universal do Deus de Israel, que reunirá a humanidade em um só povo”.
As pessoas que sabem distinguir a religião e a política (Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus) dirigem, é claro, essa promessa para a ordem religiosa. Constatam por isso que ela se realizou, pois que a sociedade única – reunindo em si todas as nacionalidades, sem mesclá-las nem confundi-las – espraiou pelo mundo inteiro o conhecimento do Deus único de Israel.
Já os que sonham com o messianismo de fundo temporal interpretam as promessas de unificação mundial sob a perspectiva humana (natural, política, terrena). Concluem, pois, que elas não se cumpriram ainda.
Para decidir entre as duas interpretações concorrentes, é bastante comparar os frutos visíveis de uma e outra, assim como suas lógicas internas.
- Julga-se a árvore pelos frutos
Mais vale um pássaro na mão que dois voando, diz o provérbio. Quando se trata do “um só povo”, a Igreja Católica acumula já uma grande vantagem sobre os judeus: o [povo] da Igreja existe! É indiscutível tal existência, visto que a Igreja possui unidade exterior e universalidade mui discerníveis, reconhecidas até pelos que não têm fé.
Historicamente o cristianismo é a primeira religião universal. Ao passo que cada povo (ou família) tinha suas divindades nacionais, o cristianismo os prostra todos diante do Deus único. Conquistou a terra inteira – em paz, sem violentar ninguém, sofrendo ao contrário longas e sanguinolentas perseguições15. A comparação ao islã (que fora a segunda religião universal e, sob certos aspectos, contrafação da primeira) neste mister é esclarecedora. O universalismo cristão é um universalismo de paz (após dois milênios, engendra continuamente o cristianismo frutos de paz – os santos). Quem pode dizer o mesmo do messianismo temporal?
- Os frutos do messianismo temporal
Quais são nos últimos 2000 anos as grandes empresas universalistas inspiradas do messianismo temporal?
- O islã, cujas vítimas ainda se contabilizam16;
- As utopias revolucionárias17, mormente o comunismo, responsável por mais
de cem milhões de mortes18;
- E atualmente a ideologia “planetária” (eliminem-se as fronteiras19!), de que podemos duvidar que constitua o caminho da felicidade humana.
Estupor é a única palavra que traduz o sentimento do historiador defronte à força irresistível com que as utopias mortíferas – contrárias ao bom senso mais elementar – se impõem num repente, como a maré montante, à grande parte da humanidade. Até as mais materialistas dentre elas, as ideologias marxistas, parecem animadas de típico fervor religioso, uma como inspiração mística. Retiram todas elas mais ou menos diretamente suas forças da esperança messiânica de Israel, certamente esperança de origem divina, por dínamo de tamanha energia, mas também com certeza deformada, sendo por isso origem de tantos desastres. As loucuras modernas não são tanto “as idéias cristãs tornadas loucas” (Chesterton20), mas sim as idéias judaicas: é a esperança messiânica desviada do verdadeiro objeto (a salvação eterna), aplicada à ordem temporal.
O pior é que o messianismo temporal sobrevive aos desastres que provoca. E continuará a provocá-los novamente porque, segundo o rabino Simmons (que neste ponto invoca a autoridade de Maimônides), “cada geração traz no seio um indivíduo capaz de tornar-se o Messias”.
- “Um só povo”, diz o rabino
Depois dos frutos (de paz, por um lado; de morte, por outro), comparemos a lógica interna do universalismo católico com o do messianismo temporal.
A esperança do rabino de “reunir a humanidade num só povo.” conduz a outra questão: o povo judeu está convidado a fundir-se com os demais para formar um único povo? Neste caso como conservariam todas as prerrogativas a que o rabino se mostra tão apegado? Mas se ele se recusa a mesclar-se com outros, que significa esse povo único?
Toca-se aqui na ferida da formidável contradição interna da esperança messiânica dos judeus. Em realidade conveio que o próprio Deus interviesse para resolvê-la, esclarecendo os apóstolos de que a Igreja só poderia abrir-se à humanidade inteira se abandonassem as idiossincrasias judaicas21. “Não há mais judeu nem grego [...], sois todos um em Cristo Jesus”, exclama São Paulo, que prossegue: “E se vós sois do Cristo, sois da descendência de Abraão, e herdeiros da promessa” (Ga 3, 28-29). Dito doutra forma os critérios de pertencimento ao povo eleito não são mais raciais (descendência física de Abraão), mas espirituais (incorporação mística em Cristo). Temendo a perda de seu estatuto privilegiado, a sinagoga recusou a promessa. Renegou no mesmo ato a profecia do povo único.
O judaísmo atual lança em rosto da Igreja o fato de esta proclamar-se a “nova Israel”. Vê aí uma pretensão inadmissível. Mas tal “pretensão” manifesta justamente a notável realização da profecia messiânica. Cumpriu-se na Igreja (“nova Israel”) o oráculo de Zacarias:
Jerusalém vai ficar sem muros, por causa da multidão de homens e de animais que haverá no meio dela. Eu mesmo - oráculo do Senhor - serei para ela um muro de fogo que a cercará; serei no meio dela a sua glória. (Zc 2, 8-9).
Comentava Augustin Lémann (convertido ilustre do judaísmo, 1836-1909):
A metáfora indicava que a antiga Jerusalém não passava de figura dum reino totalmente diferente, uma vez que sal extensão não se poderia determinar de maneira humana. Cumprir-se-á na Igreja do Cristo, reino espiritual e universal22.
- O paradoxo do universalismo católico
Se o universalismo messiânico judaico é intrinsecamente contraditório (logo, irrealizável), num primeiro olhar o universalismo católico também se avista paradoxal. Mas com a imensa vantagem de ser um paradoxo realizado, um paradoxo vivo. Constitui a Igreja verdadeira sociedade universal (católica = universal, em grego), dotada de sólida unidade de governo, doutrina e culto23. Os membros se lhe apegam mais que à pátria terrestre ou mesmo à vida. Entretanto, longe de dissolver as nacionalidades, a Igreja Católica dá origem a muitas. Um teórico nacionalista incréu tem por dever reconhecer que esta sociedade supranacional, longe de prejudicar às nações, é-lhes mui benéfica. Definiram-na mesmo como “a única internacional que vale” (Maurras). É que a Igreja situa-se numa ordem diferente da das nações temporais. Seu desenvolvimento não poderia prejudicar o das demais – que ao contrário aproveitam de sua ação moralizadora.
A quem objete que a Igreja ainda não reuniu toda a humanidade sob suas asas, há-de se dar duas respostas distintas. A primeira, nada impede antes do fim do mundo o triunfo universal da Santa Igreja, que cumpriria totalmente a profecia messiânica (sem todavia estabelecer o paraíso na terra, visto que os homens ainda serão pecadores e a Igreja ameaçada pela tibieza). Até os judeus juntar-se-ão à Igreja nesse momento único. Aquele que recusa tal esperança deve admitir que a Igreja  é uma sociedade universal, desenvolvida por entre todos os povos do mundo, que ela já cumpriu na realidade a profecia do povo único:
Contemplaram todas as nações da terra a salvação de nosso Deus” (Sl 97, 3; Is 52, 10)
A Resposta Quádrupla do Cristo
Acerca das quatro tarefas que lhe acusam não haver cumprido, Nosso Senhor Jesus Cristo como que as respondeu por antecipação, em quatro sentenças:
1. Quanto à destruição do templo:
Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias (Jo 2, 19).
2. Quanto à reunião definitiva dos judeus na terra de Israel:
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os enviados de Deus, quantas vezes quis ajuntar os teus filhos, como a galinha abriga a sua ninhada debaixo das asas, mas não o quiseste! Eis que vos ficará deserta a vossa casa. Digo-vos, porém, que não me vereis até que venha o dia em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor! (Lc 13, 35; ver também 19, 41-47).
3. Quanto à instauração da paz universal:
Eu vos deixo a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo (Jo 14, 17)
4. Enfim, quanto à reunião das diversas nações em um só povo:
Ide pois a todas as nações, fazei discípulos e os batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo., Ensinai-as a observar tudo quanto vos ordenei. Eis que estarei convosco até o final do mundo (Conclusão do Evangelho segundo São Mateus.)
II – As qualificações do Messias
Para o rabino Simmons Jesus não só se imiscuiu de agir como Messias, mas deixou de apresentar três qualidades indispensáveis a tal personagem – a de profeta, descendente de Davi e fiel observador da lei judaica.
1. Era Jesus Profeta?
O rabino é categórico: Não somente não o era como não poderia ser:
Não era Jesus profeta. Só há profecia em Israel quando esta terra está habitada em sua maioria pelo povo judeu. À época de Ezra, acerca do ano 300 da era comum – quando a maioria dos judeus recusou-se deixar Babilônia para retornar a Israel – encerraram-se as profecias com a morte dos derradeiros profetas - Ageu, Zacarias e Malaquias.
Jesus apareceu no palco da história cerca de 350 anos depois do fim das profecias.
Em vez de definir ou descrever o que é profecia, comparando-a com a figura de Jesus, o rabino enuncia um princípio: a dispersão do povo judeu impedia a profecia. Mas donde vem tal princípio? Ele fora feito sob medida para tentar explicar a estranha ausência de profecias desde a vinda de Jesus Cristo (pois tal ausência constituía-se num argumento fortíssimo a favor de seu messianismo). Anda-se pois em círculos! Em realidade se ocorrera antes da vinda de Jesus uma como cessação das profecias (alguns séculos de silêncio, como para que melhor se preparasse o que haveria de vir24), reaparecem brusca e brilhantemente em João Batista, que apontava sem ambigüidades Jesus como o Messias.
É bastante considerar com honestidade a figura de São João Batista – a penitência no deserto, a prédica por sua vez rude e cheia de esperança, os discípulos encantados, as conversões operadas, a oposição defrontada, o testemunho corajoso diante de Herodes, e o martírio – para reconhecer que ele corporifica perfeitamente o tipo dos profetas do Antigo Testamento.
Também Jesus cumprira à perfeição o tipo do profeta (aquele que fala em nome de Deus), notadamente na proclamação do “reino” messiânico. Ele é bem mais que profeta, mas deveriam reconhecê-lo ao menos como tal. Demais anunciara diante de testemunhas fatos bem precisos que os acontecimentos confirmaram de todo. Os Evangelhos difundiram e espalharam a profecia da tomada de Jerusalém mui antes de sua concretização. Ela levou os primeiros cristãos a fugir dessa cidade – seguindo os conselhos do próprio Cristo – quando viram os fatos preditos acontecerem.
Ninguém é profeta em sua terra! Jesus não foi reconhecido pelo seu povo. Mas longe de prejudicar a missão, tal ingratidão acrescentara um traço de conformidade em acréscimo. Sublinhou Nosso Senhor com tristeza:
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificais sepulcros aos profetas, adornais os monumentos dos justos e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos manchado nossas mãos como eles no sangue dos profetas... Testemunhais assim contra vós mesmos que sois de fato os filhos dos assassinos dos profetas. Acabai, pois, de encher a medida de vossos pais! (Mt 23, 29-32)
2. Jesus Filho de Davi
Ironiza o rabino:
O Messias deve ser descendente, pelo lado paterno, do rei Davi (ver Gn 49, 10 e Is 11, 1). Ora, segundo a tese dos cristãos, Jesus nasceu duma mulher virgem, logo não tinha pai. Em conseqüência é impossível que pudesse satisfazer às exigências de filiação paternal remontando ao rei Davi!
- Primeira resposta
Em realidade ambos os textos citados pelo rabino (Gn 49, 10 e Is 11, 1) não mencionam filiação paternal.
- Gênese 49, 10 limita-se a indicar a época da vinda do Messias:
Não se apartará o cetro de Judá,
nem o bastão de comando dentre seus pés,
até que venha aquele a quem pertence por direito [o Messias],
e a quem devem obediência os povos.
Como fosse exatamente à época de Cristo que os descendentes de Judá perderam o poder em Israel, não nos vamos demorar por demais nesta profecia, ao contrário dos rabinos...
- Já Is 11, 1 anuncia, é claro, que o Messias descenderá de Jessé (i. é, da família de Davi), mas não indica em lugar algum que será pelo ladopaterno:
Um renovo sairá do tronco de Jessé,
e um rebento brotará de suas raízes.
Sobre ele repousará o Espírito do Senhor [...]
O só fato de a Virgem descender de Davi basta a que Jesus seja descendente e também, com todo o rigor da palavra, um “rebento do tronco de Jessé”. Cumpriu-se pois a profecia.
- Segunda resposta
Entretanto objetar-se-ia que a só descendência masculina permitiria a transmissão dos direitos hereditários. Cumpria ir além e notar que São José, apesar de não ser o pai biológico de Jesus Cristo, é o pai legal (oficial). Ora no direito judaico a paternidade adotiva sobrepõe-se à paternidade biológica. Listam os evangelistas não a genealogia da Santa Virgem, mas a de São José, pois esta é a genealogia oficial que interessa. Note-se ademais que São Mateus, que se dirige mais a propósito aos judeus palestinos, privilegia sistematicamente a genealogia legal (ao passo que São Lucas, que escreve para gregos, interessa-se antes pela paternidade real) 25. O nascimento de Jesus em Belém sublinha também a origem davídica de Jesus. Porque Davi é de Belém, José e Maria tiveram de se dirigir a esta cidade, para o recenseamento.
- Terceira resposta
Segundo os profetas o Messias não deveria ser tão-somente o filho de Davi (i. é, seu descendente), mas também seu Senhor. O próprio Jesus citou o salmo em que declara Davi:
Eis o oráculo do Senhor que se dirige a meu senhor [= o Messias]: Assenta-te à minha direita (Sl 109)
Perguntava o Senhor aos fariseus: se Davi o chama de Senhor, como ele é seu filho? Não se compreende a expressão a não ser que, descendendo de Davi, o Messias o preceda de alguma forma; dito de outra forma, que ele não descenda de Davi por todos os ramos. Jesus é filho biológico de Davi por intermédio de sua mãe, filho legal por seu pai legal, mas ao mesmo tempo transcende tal origem, na medida em que é Filho de Deus. Não haveria melhor cumprimento das profecias.

(Continua...)

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