2. A congregação de todos os judeus na terra de Israel.
A segunda grande missão do Messias: congregar todos os judeus na terra de Israel. Ora deu-se justamente o contrário. Portanto não é Jesus o Messias prometido.
O raciocínio do rabino seria impecável caso Deus prometesse de modo absoluto que o Messias congregaria todos os judeus na terra material de Israel. Mas indica a Santa Escritura o contrário. As promessas de Deus de prosperidade temporal a seu povo são condicionais: Se fordes fiéis, proteger-vos-ei e abençoar-vos-ei; mas se infiéis, entregar-vos-ei nas mãos dos inimigos e dispersar-vos-ei. É praticamente o resumo de todo o Antigo Testamento:
É a constante sob os juízes, desde Josué até Samuel; também sob os reis, desde Saul até Sedecias; e finalmente sob os Macabeus, desde Matatias até Hircam. Enquanto se mantivessem fiéis, Deus os protegia de modo miraculoso; logo saíssem da fé, eram punidos na proporção da grandeza de sua revolta: por vezes durava sete anos, outras de dez a vinte anos conforme a gravidade dos crimes. As penas nunca iam além disso, até ao tempo do ímpio Manassés, quando Deus por meio do cativeiro aplicou-a mais longa – durou ela setenta anos 4
As promessas temporais estão sempre sob condição. Quando a condição não é explícita, subentende-se, como o indicara o próprio Deus, alertando contra a interpretação gramatical das promessas:
Ora anuncio a uma nação ou a um reino
que vou arrancá-lo e destruí-lo.
Mas se essa nação, contra a qual me pronunciei,
se afastar do mal que cometeu,
arrependo-me da punição com que resolvera castigá-la.
Outras vezes, em relação a um povo ou reino,
resolvo edificá-lo e plantá-lo.
Se, porém, tal nação proceder mal diante de meus olhos
e não escutar minha palavra,
recuarei do bem que lhe decidira fazer. (Jr 18, 7-10)
Em relação ao povo da aliança nenhuma das promessas do Antigo Testamento é absoluta, mas sim o liame entre fidelidade e recompensa, infidelidade e maldição. Enumera o capítulo 23 do Levítico toda a série de flagelos com que Deus punirá a infidelidade, culminando com a pior dentre todas, a dispersão:
Se, apesar disso, não me ouvirdes, e me resistirdes ainda, marcharei contra vós em meu furor e vos castigarei sete vezes mais, por causa dos vossos pecados. Comereis a carne de vossos filhos e de vossas filhas. Destruirei vossos lugares altos e quebrarei vossas estelas solares; amontoarei vossos cadáveres sobre os de vossos ídolos, e minha alma vos abominará. Reduzirei a deserto as vossas cidades, devastarei vossos santuários e não aspirarei mais o suave odor de vossos perfumes. Desolarei vossa terra e vossos inimigos ficarão estupefatos com ela quando a habitarem.
Eu vos dispersarei entre as nações, e desembainharei a espada atrás de vós; vossa terra será devastada e vossas cidades se tornarão desertas. Então gozará a terra os seus sábados enquanto durar a sua solidão, quando estiverdes na terra de vossos inimigos; então a terra gozará os seus sábados e repousará. Nos dias em que for devastada, ela terá o repouso que não gozou nos sábados do tempo em que a habitáveis.
Naqueles dentre vós que sobreviverem, porei tal espanto em seus corações na terra de seus inimigos, que o ruído de uma folha agitada pelo vento os porá em fuga: fugirão como se foge diante da espada e cairão sem que ninguém os persiga. Sem que ninguém os persiga, tropeçarão uns sobre os outros, como diante da espada. Não podereis resistir aos vossos inimigos. Perecereis entre as nações e a terra inimiga vos consumirá. Os que sobreviverem consumir-se-ão por causa de suas iniqüidades na terra de seus inimigos, e serão também consumidos por causa das iniqüidades de seus pais, que levarão sobre si. (Lv 26, 17-39)
Ora como nota Blaise Pascal não há relação entre o cativeiro de Babilônia e a narração da terrível dispersão que se abateu sobre o povo judeu a partir do ano 705. Como a diáspora do ano 70 fosse a pior maldição que desceu sobre o povo eleito, ela é por força conseqüência de seu maior crime. As profecias divinas não permitem ir ao contrário disso.
Segundo Maimônides (e a maioria dos judeus hoje em dia) o exílio não passaria de um meio para espalhar a mensagem judaica no mundo inteiro, como o levedo na massa – uma misteriosa e derradeira purificação (mas interminável!) antes do advento do Messias. Levando em conta tal hipótese, ainda assim o exílio não se torna menos uma maldição – o que necessariamente é, antes de tudo – já que as promessas formais de Deus vinculam de forma inarredável dispersão e punição. (O fato de o cativeiro preparar a vinda do Messias, difundindo as profecias, não impede que ele seja por natureza maldição sobre o povo eleito). Qual seja o modo de contornar o problema, a indagação permanece: que crime se cometeu para atrair tamanho opróbrio?
Em 1778 o padre Beurier – célebre predicador – interpelava desta feita os judeus seus contemporâneos:
Há mais de mil e setecentos anos que Deus os pune com severíssimo rigor; há mister pois de que tenhais culpa sobeja aos vossos pais, mesmo àqueles viventes à época de Manassés. Ora qual poderia ser vosso crime? Não é a idolatria, que Deus aborrece amiúde em vossos ancestrais; tendes louvável horror ao culto dos ídolos. Não é também a desobediência à lei de Deus imposta, de vos não mesclar com povos estrangeiros; vós a cumpris com tal justeza que não é possível ir mais além. Qual crime seria maior que a idolatria e as abominações todas que se cometiam ao tempo de Manassés, senão a morte que infligistes ao Messias?
E eis vós dispersos por todo o mundo há mais de mil e setecentos anos, e não obstante resistis sempre. Não é isto o cumprimento literal da profecia de Davi, que diz ao salmo 58: “Não os destruís, ó meu Deus, mais dispersai-os por uma virtude de vossa onipotência” (Sl 58, 12) 6?
Um mancebo judeu do séc. XIX, Simon Théodore Ratisbonne (citado mais acima), perguntou-se a si as mesmas questões, e elas levaram-no ao catolicismo. Em 1824 ainda hesitante escrevia a um amigo:
Li com atenção nossa história, e concluí que a cessação do culto e a ruína do templo, a destruição da Cidade Santa, a confusão entre as tribos e diáspora da nação judia – que todos os fatos coincidem com o estabelecimento do cristianismo no mundo. [...] Vislumbro a situação, e isso me dói: eu daria a vida para tirar meus irmãos dessa situação... mas não posso mais viver entre eles, nem invocar o Deus de meus pais na mesma casa de oração [...]7
Responsável pelas escolas israelitas da Alsácia (seu pai era presidente do Consistório) Théodore teve três anos depois a oportunidade de citar, diante dos pais dos alunos, o capítulo 28 do Deuteronômio, em que se enumeram as bençãos e maldições anunciadas ao povo de Israel. O texto causou espécie:
Se não quiseres escutar a voz do Senhor teu Deus, a maldição se abaterá sobre ti e te destruirá. [...] Tu serás varrido para todos os cantos da terra. [...] O Senhor te ferirá de cegueira e de embotamento, de modo que andes às apalpadelas em pleno meio-dia. [...] Tu serás em todo tempo denegrido por calúnias e oprimido por violências, sem que ninguém te defenda. [...] Essas maldições cairão sobre ti e tua descendência como sinal e prodígio [...].
Foi interrompida a leitura sob os protestos furibundos de um dos ouvintes que, intimando aos berros o público a se retirar, entendera ali um ataque contra as tradições judaicas. Respondeu Théodore calmamente que limitava-se a ler as palavras de Moisés, retomando a leitura. Compreendeu que não poderia adiar ao infinito sua profissão pública da fé cristã. Alguns meses depois declarou ao pai:
Sou cristão. [...] Sou cristão, mas adoro ao mesmo Deus que meus pais, o Deus três vezes santo, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, e reconheço Jesus Cristo como o Messias, o Redentor de Israel.
No séc. XIX sem embargo do restabelecimento do estado de Israel em 1948 e a admirável ressurreição da língua hebráica, a situação dos judeus não mudou em essência. Continuam sempre sem templo, sem sacerdote, sem sacrifício, e o povo ainda está mui disperso. Anuncia a fundação do estado de Israel o fim da dispersão e prepara a conversão dos judeus? Preludia ela ao contrário nova catástrofe prestes a lhes abater? O futuro dirá. Em todo caso longe de provar a não-vinda do Messias, a brutal dispersão dos judeus – menos de quarenta anos após a crucifixão – é sinal manifesto de sua vinda.
3. A Paz Universal
Terceira tarefa do Messias, segundo o rabino Simmons: “Fazer o mundo entrar numa era de paz universal, e pôr fim ao ódio, à opressão, ao sofrimento e à doença”. Cita o rabino para isso a célebre passagem de Isaias:
- O texto de Isaias
No fim dos tempos acontecerá
que o monte da casa do Senhor
estará colocado à frente das montanhas,
e dominará as colinas.
Para aí acorrerão todas as gentes,
e os povos virão em multidão:
Vinde, dirão eles, subamos à montanha do Senhor,
à casa do Deus de Jacó:
ele nos ensinará seus caminhos,
e nós trilharemos as suas veredas.
Porque de Sião deve sair a lei,
e de Jerusalém, a palavra do Senhor.
Ele será o juiz das nações,
o governador de muitos povos.
De suas espadas forjarão relhas de arados,
e de suas lanças, foices.
Uma nação não levantará a espada contra outra,
e não se arrastarão mais para a guerra. (Is 2, 2-4)
Essa profecia incontestavelmente messiânica anuncia a conversão dos pagãos ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó. As imagens são pungentes, mas são imagens. Ninguém ousaria interpretá-la como a obrigação de transportar a montanha de Sião para o cume do Himalaia, nem como o estabelecimento de todos os povos da terra naquele local. Não há razões para se forçar o sentido dos últimos versículos em direção a um pacifismo mundial (que por lógica deverá abranger até aos animais, se se interpreta de modo idêntico às novas do capítulo 11: “Habitará o lobo com o cordeiro, repousará a pantera com a cabra [...] folgará a criança de peito sobre o ninho da serpente etc.8“). Isaías limita-se ao anúncio de que a revelação do verdadeiro Deus franquear-se-á a todos os pagãos, que encontrarão ali fonte de justiça e paz. O busilis está na natureza dessa paz.
- A paz cristã
Produz Jesus Cristo uma paz sobretudo interior e sobrenatural. Os judeus esperam a paz exterior, civil, social. Mas não é a paz interior a mais importante? Não é a guerra civil a pior das guerras? Que dizer então da guerra intestina que o homem deve travar e sofrer no interior da alma?
Todo homem experimenta a luta íntima entre a razão (que mostra o que é reto, honesto, justo) e as diversas paixões. No imo do nosso ser, desde o pecado de Adão, a relação com Deus está falseada. Vindo curar tal desordem fundamental Jesus Cristo traz a paz (que conforme a afamada definição de Santo Agostinho é “a tranqüilidade da ordem”). Oferece a todos os homens a amizade de Deus. O coração humano, tão preste na acusação ao próximo, compreende que o principal inimigo é doméstico. Daí forja da espada relhas de arado, i. é, volta as armas contra si mesmo, aplica-se a romper a própria dureza interior, a arrancar a sarça dos vícios, abrir-se à semente da palavra de Deus. Com seu cortejo de dons e virtudes a graça restabelece a ordem interior da alma humana – não em um repente brutal e espetacular, mas suave e progressivamente, na medida em que o homem, com sua liberdade, colabore a favor da ordem que Deus lhe quer infundir.
- A paz real e concreta
Um judeu qualificará a paz cristã como utopia ou ilusão piedosa. Que releia os profetas. No capítulo 53 de Isaias – em que se descreve a missão messiânica como um sacrifício propiciatório do pecado – não se vislumbra à evidência que se deve em primeiro lugar restabelecer a paz entre o homem e Deus?
Demais ainda que essencialmente sobrenatural não dá para contestar a paz que o cristianismo leva consigo, uma vez que ela tem também conseqüências temporais e visíveis, que os judeus não poderiam negar. Como explicar sem ela a fortaleza suave e calma (em um sorriso, no mais das vezes) de milhões de mártires cristãos? O ardor com que as maltas de jovens belicosos num átimo se livraram das espadas para arrotear as terras dos monastérios (realização literal do oráculo de Isaias 2, 4)? Que o diga São Bernardo de Claraval que, no séc. XII, conduzira à vida monástica seus irmãos, tios e pai, quase todos devotados ao serviço de armas. Mas o apelido ilustre não deve obnubilar os milhares de jovens que em todas as épocas fizeram o mesmo sacrifício. No tempo de São Bernardo o conde Godefroy de Cappenberg, descendente de Carlos Magno, transformara o castelo em monastério, aplicara as riquezas em prol da fartura dos pobres, consagrara as mãos ao consolo dos leprosos, e passara a vida inteira em obediência perfeita, na companhia de seu irmão Atton (padrinho do imperador Frederico Barba Ruiva) que fizera a profissão monástica junto com ele.
A “conversão” do lobo de Gubbio, obra de São Francisco de Assis, cumprira literalmente a profecia de Isaias 11, 6 (“Habitará o lobo com o cordeiro”) 9. Mas isso foi apenas a ilustração visível do invisível que se passa nas almas. Por exemplo, a alma do ardoroso Francisco de Sales, que empregara a vida inteira para vencer seu temperamento, até que todo o universo o conhecesse como o manso bispo de Genebra10.
Nem todos os cristãos tornar-se-ão santos da mesma têmpera. Muitos se conservam maus, infiéis às graças recebidas. Os santos amiúde só se santificam lentamente. Mas a santidade heróica está presente na vida da Igreja como um facho de luz e paz, que neste séc. XX se acendeu no campo de Auschwitz, onde um padre católico, Maximiliano Kolbe (1894-1941), deu a vida voluntariamente para salvar um prisioneiro. Encerrado no bunker da fome, a caridade, a docilidade e o regozijo que lhe radiavam impressionaram até aos sentinelas nazistas. Testemunha o doutor Nicet Wlodarski:
Um oficial, um alemão responsável pelo bunker, [...] qualificou o pe. Kolbe como homem de supina coragem, herói verdadeiramente sobre-humano. Destacava também que a presença e a calma do pe. Kolbe faziam grande impressão aos SS que de quando em vez olhavam para o bunker. Dizia que para os SS era um verdadeiro choque psicológico 11.
Conta Bruno Borgowiec, utilizado como interprete no bunker:
Quando abri a porta de ferro, não mais vivia; mas me parecia vivo. Era radiosa sua face, de uma forma insólita, olhos arregalados e fixos num ponto. O rosto inteiro estava como em êxtase. Nunca esquecerei tal espetáculo.
E numa outra narrativa:
Seu corpo estava limpíssimo e luminoso. Qualquer um naquela situação ficaria abalado, achando estar diante de um santo. Seu rosto resplendia de serenidade – diferentes dos demais mortos, estendidos sobre o solo, marcados na face pelo sofrimento12.
Desqualifique-se a narração das muitas testemunhas judias nos campos de concentração, e imediatamente estará em maus lençóis. Esta serenidade, este regozijo no sofrimento são características dos mártires cristãos.
Donde viria essa paz sobrenatural, senão do Senhor Jesus?
- Até a paz temporal
O cristianismo não confere diretamente a paz temporal, mas esta não lhe é de modo algum estranha. O planeta Terra, que ardia havia séculos em meio aos reencontros de armas e clamores de guerra, parece acalmar-se e recolher-se à aproximação do nascimento do Menino-Deus. Impõe o imperador Augusto a paz universal (tanto no interior do Império quanto nas fronteiras), fechando após a batalha de Actium (31 a.C) as portas do templo da guerra (quase sempre abertas desde a fundação de Roma). O mundo está em paz quando os anjos vieram cantar a norte de Natal: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade. A Igreja Católica será a guardiã dessa paz. Apesar da ruína do Império Romano sob o peso das invasões bárbaras, a Igreja não se deixa arrastar por elas, mas as vence de forma pacífica, modificando pouco a pouco as almas: atrai uns aos monastérios, impõe a outros a “paz de Deus” ou a “trégua de Deus”, e das hordas que deviam soçobrá-la deu origem a diferentes nações da Cristandade.
Nunca pretendeu Jesus estabelecer o paraíso sobre a terra. O joio continuara misturado com a boa semente (Mt 13, 41), não faltando atrocidades mesmo no interior do cristianismo. Mas a prédica constante da caridade, sobretudo o exemplo dos santos deram seus frutos. A Igreja protege o casamento – por conseguinte mulheres e crianças. Sabe resistir aos reis e imperadores quando se levam pela tirania. Suprime a passos lentos a escravidão. Instaura a sociedade cristã que, em meio às misérias terrenas, exibe-se sem sombra de dúvidas mais humana, mais atenta às fraquezas que todas as civilizações pagãs13. Sem oferecer diretamente a paz temporal, Jesus Cristo a dá por acréscimo, na proporção em que as nações submetem-se à sua lei.
- Um exemplo
Para encerrar a profecia de Isaias, dedicamos de boa mente ao rabino Simmons o exemplo de um de seus predecessores, assim descrito por Tertuliano:
Paulo, de perseguidor tornou-se apóstolo; o que antes vertia o sangue da Igreja mudou o gládio em estilete e transformou o cutelo em relha de charrua14.
(Continua...)
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