quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Irenismo: a falsa unidade que nasce do medo da verdade.

 Irenismo: la falsa unidad que nace del miedo a la verdad 

 

Na Igreja, muito se fala em unidade. Diálogo, concórdia e compreensão são constantemente invocados. São palavras nobres, profundamente cristãs, mas também perigosas quando usadas de forma imprecisa. Porque nem toda paz é verdadeira, nem toda unidade é católica. A história da Igreja conhece bem uma tentação recorrente: sacrificar a verdade em nome da harmonia. Isso tem sido claramente chamado de irenismo. 

É importante afirmar isso desde o início, sem eufemismos. Irenismo não é caridade. Nem é prudência pastoral. É a tentativa de resolver conflitos doutrinais ignorando-os, como se as diferenças reais fossem meros mal-entendidos. E quando essa abordagem se consolida, a fé deixa de ser algo transmitido e passa a ser algo administrado com cautela, quase com vergonha. 

O que a Igreja entende por irenismo? 

A Igreja não condena o desejo de paz. Pelo contrário. O que ela rejeita é a ideia de que a paz se conquista diluindo o conteúdo da fé. Pio XII denunciou isso lucidamente na Humani generis: existe um irenismo imprudente que, movido por um falso zelo conciliatório, tenta reconciliar até o irreconciliável no âmbito do dogma. Não se trata de uma questão de tom, mas de fidelidade. 

Décadas antes, Pio XI já havia alertado na Mortalium animos contra projetos de unidade cristã construídos sobre fórmulas vagas, nos quais cada lado mantém sua própria posição enquanto finge uma comunhão inexistente. Para o Papa, essa falsa unidade não fortalece a Igreja, mas a enfraquece por dentro. 

A razão é simples: a verdade revelada não é uma questão de opinião. Ela não pode ser adaptada ao clima cultural nem negociada para evitar tensões. 

Unidade Cristã e Verdade Revelada 

Um dos erros mais frequentes do irenismo é tratar a unidade da Igreja como se fosse um acordo humano. Mas a unidade não é fabricada. Ela é recebida. Cristo confiou a unidade à sua Igreja, juntamente com uma fé específica, sacramentos específicos e uma estrutura específica. Separar a unidade da verdade é esvaziá-la de significado. 

O Catecismo da Igreja Católica explica isso com serenidade: a Igreja é una, e essa unidade se manifesta visivelmente na confissão da mesma fé, na celebração comum do culto e na comunhão hierárquica. Ao mesmo tempo, reconhece que as divisões históricas feriram essa unidade e que, fora dos limites visíveis da Igreja Católica, existem elementos autênticos de santificação e verdade. 

Mas eis o ponto que o irenismo muitas vezes ignora: reconhecer elementos de verdade fora da Igreja não significa afirmar que todas as posições são igualmente válidas ou que as diferenças doutrinais são irrelevantes. A caridade não exige mentira, nem o respeito exige silêncio.

Vaticano II e a Rejeição do “Falso Irenismo” 

O próprio Concílio adverte expressamente contra o “falso irenicismo”. A Unitatis redintegratio afirma inequivocamente: nada é tão estranho ao autêntico ecumenismo quanto distorcer ou diluir a doutrina católica para facilitar acordos. 

O diálogo ecumênico, como a Igreja o entende, exige clareza, fidelidade e profundidade. Não consiste em esconder o que divide, mas sim em explicar com mais precisão o que a Igreja crê e vive. Quando o diálogo se torna um exercício diplomático para evitar conflitos, deixa de ser um caminho para a unidade e se transforma em uma estratégia de evasão. 

Irenismo e Pastoral: Um Erro Frequente 

Hoje, o irenicismo não costuma ser apresentado como uma teoria teológica, mas como um slogan pastoral. Ouvimos com frequência que “a doutrina divide”, que “não é hora de falar de certas verdades”, que o importante é não causar desconforto. Pouco a pouco, a proclamação enfraquece e a missão se dilui em um diálogo perpétuo que não leva a lugar nenhum. 

A declaração Dominus Iesus nos lembrou de algo que parece desconfortável dizer hoje: o diálogo não substitui a evangelização. Não dialogamos para silenciar Cristo, mas para proclamá-lo com caridade e verdade. Quando o diálogo se torna uma desculpa para não proclamar o que a Igreja crê, o irenismo já cumpriu seu papel. 

Confundindo paz com pacifismo 

As consequências do irenismo não são teóricas. Elas se tornam visíveis quando a Igreja, por medo de causar desconforto, deixa de nomear o mal onde ele se manifesta brutalmente. O caso da perseguição aos cristãos na Nigéria é um exemplo doloroso e atual. Milhares de fiéis — católicos e de outras denominações cristãs — foram assassinados ou expulsos de suas terras por grupos jihadistas, enquanto grande parte do Ocidente prefere falar em “conflitos intercomunitários” ou “violência generalizada”, evitando cuidadosamente mencionar a motivação religiosa. 

Aqui, o irenicismo opera como um anestésico moral. Em nome do diálogo inter-religioso, a linguagem é suavizada, as causas são diluídas e evita-se uma denúncia clara da perseguição sistemática aos cristãos. Isso não é prudência diplomática: é uma recusa em chamar as coisas pelos seus nomes. 

A tradição católica nunca ensinou que a paz deva ser preservada à custa das vítimas. A doutrina da guerra justa — de Santo Agostinho ao Catecismo — não glorifica a violência, mas reconhece a legítima defesa e que, num mundo ferido pelo pecado, a passividade diante do agressor pode ser uma forma de injustiça. Negar esse ensinamento por medo de parecer “duro” não é compaixão, é covardia.

A paz cristã não é uma paz vazia. 

A Igreja é chamada à unidade, mas à unidade na verdade. A paz que Cristo oferece não é um silêncio confortável, mas a comunhão que brota da fidelidade. Sempre que a Igreja tentou comprar a paz diminuindo a clareza doutrinal, o resultado foi o mesmo: confusão entre os fiéis e esterilidade pastoral. 

A caridade sem verdade torna-se sentimentalismo. A verdade sem caridade torna-se aspereza. O irenismo rompe esse equilíbrio e acaba por trair ambas. Portanto, não é uma opção inocente, mas uma tentação constante que exige discernimento e firmeza.

 

Fonte - infovaticana

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