quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Maternidade Divina: Origem da Santidade de Maria

Maternidade Divina: Origem da Santidade de Maria 

 

Na linguagem contemporânea, foi instalada uma forma de falar da Virgem Maria, que, embora bem-intencionada, é teologicamente imprecisa. Ela é frequentemente apresentada como uma mulher excepcional que, por sua santidade pessoal, foi “escolhida” por Deus para uma missão extraordinária. A tradição católica, no entanto, ensina exatamente o oposto: Maria não foi escolhida porque era santa; ela foi santificada porque foi escolhida.

Esta nuance não é secundária. Isso afeta a própria maneira que entendemos a graça de Deus, a liberdade humana e a ação soberana na história da salvação. Em Maria não há mérito prévio que obrigue Deus a agir. Em vez disso, há uma escolha livre, eterna e amorosa que configura toda a sua existência desde o primeiro momento.

Deus não improvisa a encarnação

A fé da Igreja afirma que a Encarnação não é uma reação divina ao pecado, nem um plano de emergência. É o centro do desígnio eterno de Deus. E se o Filho se tornasse carne, essa carne viria de uma mãe preparada pelo próprio Deus.

Nessa perspectiva, a figura de Maria não aparece como uma adição posterior, mas como uma parte constituinte do plano. Deus não “buscou” uma mãe adequada quando chegou a plenitude do tempo; Ele a preparou desde a eternidade. A escolha de Maria pertence ao mesmo decreto pelo qual o Verbo se fez carne.

Isso explica por que a teologia clássica insiste na predestinação de Maria pela maternidade divina. Não se trata de especulação marginal, mas de uma consequência lógica do mistério cristão. Se Cristo é o centro da criação, a mulher de quem recebe a sua humanidade ocupa um lugar único nessa ordem.

Graça como princípio, não como recompensa

Um dos erros mais persistentes na teologia moderna é conceber a graça como uma espécie de salário espiritual: Deus concede mais àqueles que já são melhores. A vida de Maria nega radicalmente este esquema.

A plenitude da graça da Virgem não é o resultado de um acúmulo de virtudes humanas, mas do ponto de partida de sua existência. Desde o primeiro momento, sua alma foi preenchida com a vida divina porque sua missão exigia uma santidade proporcional à sua dignidade.

Este princípio protege a doutrina católica de dois desvios opostos: o pelagianismo, que absolutiza o esforço humano, e o fatalismo, que elimina a liberdade. Em Maria é dada uma síntese perfeita: toda a sua santidade vem de Deus, e toda a sua resposta é livre.

O “sim” de Maria e a falsa imagem de risco

Há muitos discursos contemporâneos que apresentam a Anunciação como um momento de incerteza para Deus, como se o plano de salvação tivesse sido suspenso da resposta de uma jovem de Nazaré. Esta leitura, embora emocionalmente atraente, é teologicamente insustentável.

Aceitar que o decreto de Maria poderia não ter sido dado equivale a admitir que o plano de Deus era falível. A fé católica não afirma isso. Ele afirma, por outro lado, que Deus queria a livre cooperação de Maria e, precisamente por essa razão, concedeu-lhe uma graça eficaz que não anulou a sua liberdade, mas a levou à sua perfeição.

Maria disse “sim” porque estava totalmente livre; e ela era totalmente livre porque era totalmente graciosa. Separar esses elementos leva a uma compreensão deformada de Deus e do homem.

Uma santidade que não foge do sofrimento

A escolha de Maria não a colocou à margem do drama humano. Pelo contrário, colocou-o no seu centro. Sua união com Cristo também implicava uma participação singular em sua cruz. A plenitude da graça não a tornou insensível, mas mais vulnerável à dor.

Este ponto é especialmente desconfortável para uma espiritualidade superficial que identifica a santidade com o bem-estar. Maria demonstra o contrário: quanto maior a união com Deus, mais radical é a entrega, mesmo quando passa pelo sofrimento.

Sua dor não era fruto da desordem, mas do amor. E é precisamente por isso que ele tem um valor redentor em comunhão com o sacrifício de seu Filho.

Recuperando Ordem em Mariologia

Em um contexto eclesial marcado por leituras sociológicas e simbólicas da fé, é urgente recuperar uma mariologia ancorada na doutrina, não na emoção. Maria não é um ícone intercambiável ou uma figura funcional para a fala do momento. Ela é a Mãe de Deus. E tudo nela é explicado a partir daí.

Quando este centro se perde, a devoção é esvaziada e a teologia é desordenada. Quando é mantida, a figura de Maria aparece com todas as suas forças: humilde, obediente, livre, plenamente graciosa e totalmente orientada para Cristo.

Não foi um prêmio. Era uma missão. E para cumpri-lo, Deus não poupou nenhuma graça.

Fonte: Taylor Patrick O’Neill, Mater Dei Ergo Gratia Plena: Sobre a Predestinação de Maria à Maternidade Divina como a Razão de Sua Plenitude Radical da Graça, estudo teológico sobre a predestinação da Virgem Maria e a plenitude da graça.

 

Por: infovaticana

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