Por Bruno
Dos cinco mandamentos da Igreja, aquele que fala sobre “jejuar e abster-se de carne nos dias prescritos pela Santa Madre Igreja” é provavelmente o menos conhecido, o mais desprezado e o mais ignorado de todos. Duvido que uma pesquisa na Espanha, em restaurantes, cafés, mercados ou serviços de entrega de comida, revelasse uma diferença significativa no consumo de carne às sextas-feiras durante a Quaresma em comparação com o resto do ano. Há alguns anos, participei de um retiro com a minha paróquia durante a Quaresma, em uma casa administrada por ordens religiosas, e na sexta-feira, serviram-nos coxas de frango no almoço.
Por que isso acontece? Geralmente, quando uma regra ou mandamento é quase universalmente esquecido ou desrespeitado, isso se deve a uma de duas causas: ou é uma regra ultrapassada, irrelevante em nossos tempos, ou o oposto é verdadeiro — a regra é perfeita e, portanto, evitada. Acho que vale a pena tentar discernir qual desses dois casos se aplica à abstinência de carne às sextas-feiras durante a Quaresma.
Na minha opinião, o problema fundamental que impede uma compreensão adequada deste tema já existia na época de São Paulo: é a obsessão com a lei. Se o que mais nos importa é, acima de tudo, cumprir ou não um preceito, não entenderemos nada. Se for simplesmente uma questão de marcar mais uma obrigação cumprida para que possamos ficar tranquilos, estaremos nos enganando.
Abster-se de carne às sextas-feiras durante a Quaresma simplesmente por ser um mandamento e parar por aí tem pouco valor. Deus não ganha nada se comermos pescada em vez de carne bovina, porque Ele não possui ações em peixarias nem é obcecado por colesterol. É como alguém dizer, em relação ao sétimo mandamento: "Eu nunca roubo, então sou um bom cristão", enquanto seu coração está completamente escravizado pelo dinheiro e só pensa em ganhar mais a cada dia da sua vida. Estaria se enganando, porque o que Deus quer é o seu coração, a sua vida inteira. Não podemos negociar com Deus e dizer: "Eu farei isso por você, mas depois me deixe viver a minha vida".
Essa ilusão de nos limitarmos à letra da lei, porém, não se restringe às pessoas observantes que se abstêm de carne. Geralmente, aqueles que desprezam essa prática caem na mesma armadilha. As objeções mais comuns à abstinência de carne às sextas-feiras durante a Quaresma são: E se alguém não come carne e faz um banquete de frutos do mar? E, se eu gosto de peixe, não é bobagem comer peixe em vez de carne? Essas perguntas implicam a convicção de que a única coisa importante é o ato material de comer ou não comer carne, mas o que a Igreja nos pede é muito mais do que isso. Quem para por aí, seja para fazer ou não, não entendeu nada.
A abstinência de carne é, acima de tudo, um sinal que a Igreja nos oferece, lembrando-nos de que estamos em um tempo de graça, na Quaresma. Ela nos desperta da letargia, para que este maravilhoso tempo de conversão não passe despercebido, pois pode ser a última Quaresma que vivenciamos, talvez não tenhamos outra oportunidade de nos voltarmos para Deus. E é um sinal particularmente útil, porque não se restringe à igreja, como as vestes roxas ou a ausência do "Aleluia", mas entra em nossos lares, em nossas vidas, porque a conversão transforma o coração — isto é, toda a nossa vida e absolutamente cada segundo da nossa existência.
E parece que, apesar de tudo, cumpre seu propósito, porque senão não estaríamos falando disso. Toda sexta-feira do ano, a Igreja recomenda que nos lembremos da Paixão de Cristo para nos convertermos, mas eu diria que muito poucos cristãos se lembram disso. Em contrapartida, durante a Quaresma, a obrigação de se abster de carne às sextas-feiras é um lembrete de que esses dias são especiais, de que não podemos continuar nos mesmos pecados, sendo os mesmos de sempre, comendo, bebendo e esperando a morte.
A abstinência também tem outro propósito: é um prego que a Igreja crava no nosso sofá, um sinal de alerta que nos avisa da nossa complacência. O ligeiro desconforto de não comer aquelas fatias de presunto ibérico que acabámos de comprar pode lembrar-nos que é Deus quem nos dá o que precisamos para viver. Então podemos dizer com mais sinceridade: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje", em vez de pensarmos secretamente que é o nosso próprio esforço que realmente nos garante o pão nosso de cada dia. Ter de abdicar de algo de que gostamos deve também mostrar-nos, na nossa própria carne, uma pequena parte do sofrimento daqueles que mal têm o que comer e que são nossos irmãos e irmãs.
Além disso, a abstinência, se praticada corretamente, pode ser uma forma preciosa de catequese familiar, na qual toda a família vivencia em conjunto este sinal quaresmal, como uma igreja doméstica. O pai pode mencioná-la durante a bênção da mesa e até mesmo aproveitar a oportunidade para dar uma breve lição sobre a Quaresma às crianças que estão prestes a comer peixe. Dessa forma, as crianças verão que a Quaresma não é uma daquelas coisas que os pais dizem, mas não praticam, como atravessar a rua na faixa de pedestres. Da mesma forma, é também um sinal exterior, uma forma de testemunhar o cristianismo se coincidir com uma refeição de trabalho ou em família.
Por outro lado, a abstinência é uma porta muito baixa, como a da Basílica de Belém. É um gesto de humildade, de obediência à nossa Mãe e não ao nosso próprio julgamento. Obriga-nos a conformarmo-nos aos planos da Igreja, que não são os nossos, mesmo num detalhe aparentemente insignificante. Talvez seja isto que mais incomoda na abstinência: ter de obedecer em vez de sermos como Deus e fazermos sempre o que nos apraz. Só este pequeno detalhe já tornaria válido abster-se de carne às sextas-feiras durante a Quaresma. Há poucas coisas de que precisamos mais do que humildade.
Em última análise, a abstinência é uma seta que aponta para além de si mesma. Se apenas mudarmos nossa dieta, teremos conquistado pouco. A abstinência, como todos os sinais e práticas da Quaresma, aponta para Cristo e a Páscoa. Ela desperta em nós o apetite para participar do Cordeiro Pascal, que é Jesus Cristo, e para celebrar a noite sagrada de sua Ressurreição. Que todos nós cheguemos a essa noite com uma fome voraz de receber o glorioso Corpo do Ressuscitado, que é o único e verdadeiro remédio da imortalidade.
Fonte - infocatolica
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