“Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine.” (1 Coríntios 6:12)
Vários autores explicam o nome Carnaval a
partir do latim “carne vale”, isto é, “adeus carne” ou “despedida da
carne”; o que significa que no Carnaval o consumo de carne era
considerado lícito pela última vez antes dos dias de jejum quaresmal.
Outros estudiosos recorrem à expressão “carnem levare”, suspender ou
retirar a carne.
O Papa São Gregório Magno (590-604) teria
dado ao último domingo antes da Quaresma (domingo da Qüinquagésima), o
título de “dominica ad carnes levandas”; o que teria gerado “carneval”
ou carnaval. Um grupo de etimologistas apela para as origens pagãs do
Carnaval: entre os gregos e romanos costumava-se fazer um cortejo com
uma nave, dedicado ao deus Dionísio ou Baco, festa que chamavam em latim
de “currus navalis” (nave carruagem), de donde teria vindo a forma
Carnavale. Não é fácil saber a real origem do nome.As
mais antigas notícias do que hoje chamamos “Carnaval” datam, como se
crê, do séc. VI antes de Cristo, na Grécia: há pinturas gregas em vasos
com figuras mascaradas desfilando em procissão ao som de músicas em
honra do deus Dionísio, com fantasias e alegorias; são certamente
anteriores à era cristã. Outras festas semelhantes aconteciam na entrada
do novo ano civil (mês de janeiro) ou pela aproximação da primavera, na
despedida do inverno.
Eram festas religiosas, dentro da
concepção pagã e da mitologia com a intenção de com esses ritos expiar
as faltas cometidas no inverno ou no ano anterior e pedir aos deuses a
fecundidade da terra e a prosperidade para a primavera e o novo ano. Por
exemplo, para exprimir o cancelamento das culpas passadas, encenava-se a
morte de um boneco que, depois de haver feito seu testamento e um
transporte fúnebre, era queimado ou destruído. Em alguns lugares havia a
confissão pública dos vícios. A denúncia das culpas muitas vezes se
tornava algo teatral, como por exemplo, o cômico Arlequim que, antes de
ser entregue à morte confessava os seus pecados e os alheios.
Tudo isso parece ter gerado abusos
estimulados com o uso de máscaras, fantasias, cortejos, peças de teatro,
etc. As religiões ditas “de mistérios” provenientes do Oriente e muito
difusas no Império Romano, concorreram para o fomento das festividades
carnavalescas. Estas tomaram o nome de “pompas bacanais” ou “saturnais”
ou “lupercais”. Como essas demonstrações de alegria tornaram-se
subversivas da ordem pública, o Senado Romano, no séc. II a.C. resolveu
combater os bacanais e os seus adeptos acusados de graves ofensas contra
a moralidade e contra o Estado.
Essas festividades populares podiam ser
no dia 25 de dezembro (dia em que os pagãos celebravam Mitra ou o Sol
Invicto) ou o dia 1º de janeiro (começo do novo ano), ou outras datas
religiosas pagãs.
Quando o Cristianismo surgiu já encontrou
esses costumes pagãos. E como o Evangelho não é contra as demonstrações
de alegria desde que não se tornem pecaminosas, os missionários ao
invés de se oporem formalmente ao Carnaval, procuraram cristianiza-lo,
no sentido de depura-lo das práticas supersticiosas e mitológico. Aos
poucos as festas pagãs foram sendo substituídas por solenidade do
Cristianismo (Natal, Epifania do Senhor ou a Purificação de Maria, dita
“festa da Candelária”, em vez dos mitos pagãos celebrados a 25 de
dezembro, 6 de janeiro ou 2 de fevereiro). Por fim, as autoridades da
Igreja parecem ter conseguido restringir a celebração oficial do
Carnaval aos três dias que precedem a quarta-feira de cinzas.
Portanto, a Igreja não instituiu o
Carnaval; teve, porém, de o reconhecer como fenômeno existente, e
procurou subordina-lo aos princípios do Evangelho. A Igreja procurou
também incentivar os Retiros espirituais e a adoração das Quarenta Horas
nos dias anteriores à quarta-feira de cinzas. Sobretudo a Igreja
fortaleceu a Quaresma.
A Quaresma
“Quaresma” provém do latim “Quadragesima”
e significa “quarenta dias”; é o período de preparação para a Páscoa do
Senhor, cuja duração é de 40 dias. Inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas e
se estende agora até a Quinta Feira Santa. É um tempo de “penitência,
jejum e oração”, que a Igreja chama de “remédios contra o pecado”, para a
busca da conversão da pessoa.
A Quaresma foi inspirada no período de
tentação de Cristo no deserto, bem como os exemplos de Noé, em 40 dias
na Arca, e Moisés, vagando por 40 anos no deserto do Sinai.
No início da Quaresma, na Quarta-Feira de
Cinzas, os fiéis têm suas frontes marcadas com cinzas, como os
primitivos penitentes públicos, excluídos temporariamente da assembléia
(lembrando Adão expulso do Paraíso, de onde vem a fórmula litúrgica:
“Lembra-te de que és pó…”).
Esse tempo de penitência é recordado pela
liturgia: as vestes e os paramentos usados são da cor roxa (no quarto
domingo da Quaresma, pode-se usar o rosa, representando a alegria pela
proximidade do término da tristeza, pela Páscoa); o Glória não é cantado
ou rezado; a aclamação do “Aleluia” também não é feita; não se enfeitam
os templos com flores; o uso de instrumentos musicais torna-se
moderado.
É um tempo também favorável para os
exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações
penitenciais. O mesmo pode-se aplicar a todas as sextas-feiras do ano,
tidas como dias penitenciais como prescreve o cân. 1250 do Código de
Direito Canônico.
O historiador Sócrates informa que já no
séc. V, a Quaresma durava seis semanas em Roma, sendo três semanas
dedicadas ao jejum: a primeira, a quarta e a sexta. Já no século IV a
“Peregrinação de Etéria” fala de um jejum de oito semanas praticado pela
comunidade de Jerusalém, excluídos os sábados e domingos; o que
totaliza os 40 dias de jejum. No tempo de São Gregório Magno (590-604),
Roma observava os 40 dias da Quaresma.
O Código de Direito Canônico afirma que:
Cân.1250 – “Os dias e tempos penitenciais, em toda a Igreja, são todas as sextas-feiras do ano e o tempo da Quaresma”.
Cân.1251 – “Observe-se a abstinência de
carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos
Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com
algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o
jejum na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão e Morte de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
Cân.1252 – “Estão obrigados à lei da
abstinência aqueles que tiverem completado catorze anos de idade; estão
obrigados à lei do jejum todos os maiores de idade até os sessenta anos
começados. Todavia, os pastores de almas e os pais cuidem que sejam
formados para o genuíno sentido da penitência também os que não estão
obrigados à lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade”.
Para o Brasil a CNBB determinou que,
exceto na Sexta-Feira Santa, todas as outras sextas-feiras, inclusive as
da Quaresma, têm sua abstinência convertida em “outras formas de
penitência, principalmente em obras de caridade e exercícios de
piedade”.
Prof. Felipe Aquino
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