“As palavras são uma espécie de melodia que acalma o ouvido e nos isola do ruído do mundo.”
De Reginald Garrigou-Lagrange OP
Devoções a Nossa Senhora
Dentre as muitas devoções costumeiras a Nossa Senhora, como o Angelus, o Ofício da Santíssima Virgem, o Rosário, falaremos especialmente do último na medida em que nos prepara e nos conduz à contemplação dos grandes mistérios da salvação. Depois da Santa Missa é uma das mais belas e eficazes formas de oração, sob a condição de compreendê-la e vivê-la.
Às vezes acontece que sua recitação – reduzida à de cinco mistérios – se torna uma questão de rotina. A mente, não sendo realmente tomada pelas coisas de Deus, encontra-se uma presa de distrações. Às vezes, a oração é feita de forma apressada e sem alma. Às vezes é dito com o propósito de obter favores temporais, desejados de toda relação com o ganho espiritual. Quando uma pessoa diz o Rosário de tal maneira, ele pode muito bem perguntar a si mesmo de que maneira sua oração é aquela de que o Papa Leão XIII falou em suas encíclicas sobre o Rosário, e sobre a qual Pio XI escreveu uma de suas últimas cartas apostólicas.
É verdade que orar bem basta pensar de modo geral de Deus e das graças pelas quais se pede. Mas para tirar o máximo proveito de nossos cinco mistérios, devemos lembrar que eles constituem apenas um terço de todo o Rosário, e que eles devem ser acompanhados de meditação – que pode ser muito simples – sobre os Mistérios Alegres, Tristes e Gloriosos, que lembram toda a vida de Jesus e Maria e sua glória no Céu.
Os três grandes mistérios da salvação
Os quinze mistérios do Rosário, assim, divididos em três grupos são apenas aspectos diferentes dos três grandes mistérios da nossa salvação: a Encarnação, a Redenção, a Vida Eterna.
O mistério da Encarnação é lembrado pelas alegrias da Anunciação, a Visitação, o Nascimento do Salvador, Sua Apresentação no Templo e Sua constatação entre os médicos.
O mistério da Redenção é lembrado pelas diferentes etapas da Paixão: a Agonia no jardim, o Flagelo, a Coroação com espinhos, o Carregamento da Cruz, a Crucificação.
Recorde-se o mistério da vida eterna pela Ressurreição, a Ascensão, o Pentecostes, a Assunção de Nossa Senhora e a sua coroação como Rainha do Céu.
Assim, o Rosário é um Credo: não um abstrato, mas um concretizado na vida de Jesus que desceu a nós do Pai e que ascendeu para nos trazer de volta consigo mesmo ao Pai. É todo o dogma cristão em todo o seu esplendor e elevação, trazido a nós para que possamos encher nossas mentes com ele, para que possamos saboreá-lo e nutrir nossas almas com ele.
Isso faz do Rosário uma verdadeira escola de contemplação. Isso nos eleva gradualmente acima da oração vocal e até mesmo acima da meditação raciocinada ou discursiva. Os primeiros teólogos compararam o movimento da alma na contemplação com a espiral em que certas aves – a andorinha, por exemplo – se movem quando desejam atingir uma grande altura. Os Mistérios Alegres levam à Paixão, e à Paixão à porta do Céu.
O Rosário bem compreendido é, portanto, uma forma muito elevada de oração que torna todo o dogma acessível a todos.
Prático e contemplativo
O Rosário é também uma forma muito prática de oração, pois recorda toda a moralidade e espiritualidade cristã, apresentando-os do ponto de vista sublime da sua realização em Jesus e Maria. Os mistérios do Rosário devem ser reproduzidos em nossas vidas. Cada um deles é uma lição em alguma virtude – particularmente nas virtudes da humildade, confiança, paciência e caridade.
Há três etapas em nosso progresso em direção a Deus. A primeira é ter conhecimento do fim final, de onde vem o desejo de salvação e a alegria a que esse desejo dá origem. Esta etapa é simbolizada nos mistérios alegres que contêm as boas novas da Encarnação do Filho de Deus, que nos abre o caminho da salvação. O próximo estágio é adotar os meios – muitas vezes dolorosos para a natureza – para serem libertados do pecado e para merecer o Céu. Este é o estágio dos mistérios dolorosos. O estágio final é o de descanso na posse da vida eterna. É o estágio do Céu, do qual os gloriosos mistérios nos permitem algum vislumbre antecipado.
O Rosário é, portanto, mais prático. Tira-nos do meio dos nossos interesses e alegrias humanas e faz-nos pensar naqueles que se concentram na vinda do Salvador. Tira-nos dos nossos medos sem sentido, dos sofrimentos que tanto carregamos, e lembra-nos o quanto Jesus sofreu por amor a nós e ensina-nos a segui-Lo, carregando a cruz que a providência divina nos enviou para nos purificar. Tira-nos finalmente das nossas esperanças e ambições terrenas e faz-nos pensar no verdadeiro objeto da esperança cristã – a vida eterna e as graças necessárias para chegar lá.
O Rosário é mais do que uma oração de petição. É uma oração de adoração inspirada pelo pensamento do Deus encarnado, uma oração de reparação em memória da Paixão de Nosso Salvador, uma oração de ação de graças que os gloriosos mistérios continuam a se reproduzir na entrada ininterrupta dos eleitos na glória.
O Rosário e a Oração Contemplativa
Uma maneira mais simples e ainda mais elevada de recitar o Rosário é, ao mesmo tempo em que o diz, manter os olhos da fé fixos no Jesus vivo que está sempre fazendo intercessão por nós e que está agindo sobre nós de acordo com os mistérios de Sua infância, ou Sua Paixão, ou Sua glória. Ele vem até nós para nos fazer como Ele mesmo. Vamos fixar o nosso olhar sobre Jesus que está olhando para nós. Seu olhar é mais do que bondoso e compreensivo: é o olhar de Deus, um olhar que purifica, que santifica, que dá a paz. É o olhar de nosso Juiz e ainda mais o olhar de nosso Salvador, nosso Amigo, o Esposo de nossas almas.
Um Rosário disse assim, na solidão e no silêncio, é uma relação muito frutífera com Jesus. É uma conversa com Maria também que leva à intimidade com seu Filho.
Às vezes, lemos na vida dos santos que Nosso Bem-aventurado Senhor reproduziu neles primeiro Sua infância, depois Sua vida oculta, depois Sua vida apostólica e, finalmente, Sua Paixão, antes de permitir que eles participassem de Sua glória. Ele vem a nós de maneira semelhante no Rosário e, bem dito, é uma oração que gradualmente assume a forma de uma conversa íntima com Jesus e Maria. É fácil ver como as almas santas encontraram nela uma escola de contemplação.
Repetição e contemplação
Às vezes foi objetado que não se pode refletir sobre as palavras e os mistérios ao mesmo tempo. Uma resposta que muitas vezes é dada é que não é necessário refletir sobre as palavras se alguém está meditando ou olhando espiritualmente para um dos mistérios. As palavras são uma espécie de melodia que acalma o ouvido e nos isola do barulho do mundo ao nosso redor, os dedos sendo ocupados enquanto isso em permitir que uma conta após a outra escorregue. Assim, a imaginação é mantida tranquila e a mente e a vontade são libertas para serem unidas a Deus.
Também tem sido objetado que a monotonia das muitas repetições no Rosário leva necessariamente à rotina. Esta objeção só é válida se o Rosário for dito mal. Se bem dito, nos familiariza com os diferentes mistérios da salvação e recorda o que esses mistérios devem produzir em nossas alegrias, nossas tristezas e nossas esperanças. Qualquer oração pode se tornar uma questão de rotina – até mesmo o Ordinário da Missa.
A razão não é que as orações são imperfeitas, mas que não as dizemos como deveríamos – com fé, confiança e amor.
O espírito do Rosário como São Domingos o concebeu
Para entender melhor o Rosário, é bom lembrar como São Domingos o concebeu sob a inspiração de Nossa Senhora em um momento em que o sul da França foi devastado pela heresia albigensa – uma heresia que negou a infinita bondade e onipotência de Deus ao admitir um princípio do mal que muitas vezes era vitorioso. Não só o albigensianismo atacou a moral cristã, mas também se opôs ao dogma – aos grandes mistérios da criação, à encarnação redentora, à descida do Espírito Santo, a vida eterna a que somos chamados.
Foi nesse momento que Nossa Senhora Santíssima fez a conhecer a São Domingos uma espécie de pregação até então desconhecida, que ela disse que seria uma das armas mais poderosas contra erros futuros e em dificuldades futuras. Sob sua inspiração, São Domingos foi para as aldeias dos hereges, reuniu o povo e pregou-lhes os mistérios da salvação – a Encarnação, a Redenção, a Vida Eterna. Como Maria o havia ensinado a fazer, ele distinguiu os diferentes tipos de mistérios, e depois de cada instrução curta que ele tinha dez Ave Marias recitadas – um pouco como poderia acontecer ainda hoje em uma Hora Santa.
E o que a palavra do pregador era incapaz de fazer, a doce oração da Ave Maria fez pelos corações. Como Maria havia prometido, provou ser uma forma muito frutífera de pregação.
Se vivermos pela oração da qual a pregação de São Domingos é o exemplo de nossas alegrias, nossas tristezas e nossas esperanças serão purificadas, elevadas e espiritualizadas. Veremos que Jesus, Nosso Salvador e Nosso Modelo, deseja nos fazer como Ele mesmo, primeiro comunicando-nos algo de Sua vida infantil e oculta, depois algo de Suas tristezas e, finalmente, tornando-nos participantes de Sua vida gloriosa por toda a eternidade.
Fonte - wmreview
Nenhum comentário:
Postar um comentário