A salvação eterna é para nós a questão mais importante – a única questão – e, se uma vez negligenciada, torna-se irreparável caso cometamos algum erro.
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| O Juízo Final |
De vez em quando, a gente se sente perdido, vazio, sem fé. O desejo juvenil de ser santo parece ter sido apenas um fogo de palha. A fé forte, quase palpável, que existia antes, agora parece ter desaparecido. Os deveres, obrigações e exigências do dia a dia parecem pesar mais do que a confiança em Deus. Quem nunca se sentiu assim?
A fé pode realmente se esvair, como vemos no exemplo do rei Joás, que inicialmente agradou ao Senhor, mas, em certo momento, se afastou do verdadeiro Deus (cf. 2 Cr 24,18-22), ou em Judas Iscariotes, que foi discípulo e mais tarde escolhido pelo próprio Cristo para ser apóstolo, apenas para se tornar um traidor (cf. Lc 6,16). No entanto, devemos lembrar que a fé não é uma emoção duradoura – na verdade, não é uma emoção; a fé é uma decisão de aderir à verdade revelada pelo Deus Uno e Trino. Aderir a essa verdade significa agir de acordo com ela, conforme confiada por Cristo à Sua Igreja. Até mesmo os santos experimentaram a privação da “fé sentida”, como Santa Teresa de Calcutá, que suportou 50 anos de aridez espiritual, mas não deixou de viver segundo a virtude da santidade.
“Vigiai e orai para que não sejais tentados” (cf. Mt 26,41). A fé nem sempre precisa ser sentida; precisa ser exercitada, quer a sintamos ou não, assim como os músculos precisam de exercício regular para evitar a atrofia, quer a desejemos ou não. O que não é estimulado, definha.
Como, então, se pode exercer a fé? A resposta simples é que “ela deve ser cultivada através da prática da caridade, da oração, da escuta da Palavra, da vida comunitária, da instrução, bem como – sobretudo – através da recepção assídua dos sacramentos”, como afirma a Comissão Teológica Internacional (A Reciprocidade entre Fé e Sacramentos na Economia Sacramental , número 58).
Devemos, contudo, reconhecer que nem sempre é fácil responder ao chamado de Deus – isto é, praticar a caridade com humildade, rezar com atenção, e assim por diante. A carne é fraca. O Papa João Paulo II, em seu livro Cruzando o Limiar da Esperança, afirma que devemos estar atentos aos perigos a que a vida do mundo está sujeita, tanto em seu futuro no tempo quanto em seu futuro final, eterno e escatológico. É precisamente essa luta no homem que dá origem à necessidade de tornar Deus presente.
Em outras palavras, estar ciente das consequências de nos distanciarmos do nosso Criador e de não acolhermos a Sua Revelação, bem como das recompensas da vitória, nos ajuda a lutar, fortalecer a nossa fé e avançar em direção ao nosso Criador e à Sua vontade. Para esse fim, poucos recursos são tão poderosos quanto a magnífica obra de Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a Morte.
Segundo o próprio autor, ex-bispo e agora Doutor da Igreja, o livro destina-se àqueles que desejam firmar-se na virtude e progredir na vida espiritual, servindo como material para sermões e exercícios espirituais. Os temas – As Verdades Eternas – giram em torno do inferno e do céu, centrados no momento a quo pendet aeternitas (o momento do qual depende a eternidade): a morte. É tentador reproduzir o livro na íntegra, mas contentemo-nos com alguns excertos instigantes.
Em primeiro lugar, é notável que Santo Afonso afirme que a maioria das pessoas está condenada: “Se Deus tolerasse os pecadores para sempre, ninguém seria condenado; mas a opinião mais comum é que a maior parte dos adultos, mesmo entre os cristãos, está perdida”. Ele enfatiza que, na parábola do joio, os servos do bom dono da casa, percebendo que o joio havia crescido junto ao trigo no campo, quiseram arrancá-lo. O senhor, porém, nega isso: “Deixem crescer ambos até a colheita; e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado” (cf. Mt 13,30).
O autor explica então: “Deus mostra misericórdia àqueles que O temem, mas não àqueles que se aproveitam de Sua misericórdia para banir o temor de Deus de seus corações… Os pecadores desejam pecar sem perder a esperança da salvação. Pecam e dizem: 'Deus é misericordioso, cometerei este pecado e depois o confessarei'”. Mas Santo Afonso exclama: “Ó Deus, essa também era a linguagem de tantos que agora estão no inferno”.
Nos tempos modernos, o inferno tornou-se uma palavra inofensiva, frequentemente associada a uma ideia medieval vaga e anacrônica. Santo Afonso não poderia ter enfatizado com mais veemência a maldade deste locum tormentum bem real – lugar de tormentos (cf. Lc 16,28). O inferno é um castigo que consiste na dor da separação de Deus, seu principal tormento, mas também na dor dos sentidos.
O sentido da visão: “Quão lamentável a condição de um homem que fica trancado em uma caverna escura por quarenta ou cinquenta anos, ou durante toda a sua vida! O inferno é uma masmorra fechada por todos os lados, na qual um raio de sol, ou de qualquer outra luz, jamais entrará.” Mais agonizante, na verdade, é que “os condenados têm apenas a luz que serve para aumentar seus tormentos. Nessa luz bruxuleante, eles verão a deformidade de seus companheiros e dos demônios, que assumirão formas horríveis para aumentar o terror dos condenados.”
O sentido do olfato: “Quão doloroso é estar confinado num quarto fechado com um cadáver pútrido! De seus cadáveres, diz o profeta Isaías, 'levantará um espinho' (cf. Isa 34:3). Os condenados devem permanecer em meio a tantos milhões de réprobos, que, embora eternamente vivos para a dor, são chamados de cadáveres por causa do fedor que exalam. São Boaventura diz que, se o corpo de um dos condenados fosse colocado sobre a terra, seu fedor seria suficiente para causar a morte de todos os homens.”
O sentido da audição: “Será atormentado pelos uivos e lamentos incessantes daqueles seres miseráveis, afundados num abismo de desespero. Os demônios atormentarão os condenados com ruídos contínuos. 'O som do terror está sempre em seus ouvidos' (cf. Jó 15:21). Quão doloroso para uma pessoa que anseia pelo sono ouvir os gemidos de um doente, o latido de um cão ou os gritos de uma criança! Mas, oh! quão miserável a condição dos condenados, que devem ouvir incessantemente por toda a eternidade o clamor e os gritos dos companheiros em seus tormentos!”
O sentido do tato: “A dor que mais severamente atormenta os sentidos dos condenados provém do fogo do inferno, que tortura o tato. 'A vingança sobre a carne dos ímpios é fogo e vermes' (cf. Sir 7:19).… Mesmo nesta vida, a dor do fogo é o maior de todos os tormentos; mas, segundo Santo Agostinho, o nosso fogo, comparado com o fogo do inferno, não passa de fogo pintado.… Mas devemos sempre ter em mente que todos os tormentos desta terra são, como diz São João Crisóstomo, apenas uma sombra das dores do inferno.”
Isso também “provocará a dor da imobilidade. 'Que se tornem imóveis como uma pedra' (cf. Ex 15,16). Assim, seja qual for a posição em que os condenados caírem no inferno após o último dia, eles deverão permanecer, sem jamais mudar de postura e sem jamais poder mover uma mão ou um pé, enquanto Deus for Deus.”
Devemos ter isto bem claro: o céu é eterno, assim como o inferno – literalmente, não figurativamente. Lemos no livro: “Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno… Esta crença na eternidade é um artigo de fé; não é uma opinião, mas uma verdade atestada por Deus em muitos lugares das Sagradas Escrituras. 'E estes irão para o castigo eterno' (cf. Mt 25,46). 'Os quais sofrerão o castigo eterno na destruição' (cf. 2 Ts 1,9). 'Todos serão salgados com fogo' (cf. Mc 9,48). Assim como o sal impede a putrefação, o fogo do inferno, enquanto tortura os condenados, desempenha a função do sal, preservando-lhes a vida.”
Não é de arrepiar? Santo Afonso continua:
Aquele que entra no inferno, de lá não sairá por toda a eternidade. Esse pensamento fez Davi tremer e dizer: “Que o abismo não me engula, nem feche a boca do abismo sobre mim” (cf. Sl 68,16). Assim que os condenados caem nesse abismo de tormentos, sua boca se fecha para nunca mais ser aberta. No inferno há uma porta de entrada, mas nenhuma de saída… Mas o incrédulo dirá: Pode ser justo punir um pecado que dura apenas um instante com tormentos eternos? Mas como, pergunto eu, pode um pecador, por um prazer momentâneo, ousar insultar um Deus de infinita majestade? São Tomás diz que, mesmo nos julgamentos humanos, a punição do crime é medida não pela sua duração, mas pela sua malícia. O inferno é apenas um pequeno castigo para o pecado mortal; uma ofensa contra a infinita majestade merece castigo infinito. “Em cada pecado mortal”, diz São Bernardino de Siena, “um insulto infinito é oferecido a Deus; mas uma injúria infinita merece punição infinita.” Mas, como diz São Tomás, uma criatura não é capaz de sofrer uma dor infinita em intensidade, por isso Deus inflige um castigo infinito em extensão ou duração.
Não apenas isso, mas os “condenados serão atormentados na memória pela lembrança do tempo que lhes foi dado nesta vida para que pudessem salvar suas almas, e que gastaram para obter sua própria danação; pela lembrança das graças que receberam de Deus e das quais não se beneficiaram. Serão atormentados no intelecto ao pensarem no grande bem que perderam ao perderem o céu e Deus, e que essa perda é para sempre irreparável. Na vontade, ao verem que tudo o que pedirem lhes será negado.”
Por outro lado, a visão de Deus no céu é tão indescritivelmente boa que os tormentos dos sentidos “não são nada, comparados com a dor da perda… Segundo Santo Agostinho, se os condenados desfrutassem da visão de Deus, 'não sentiriam dor, e o inferno se transformaria em paraíso'… os pecadores que se contentam em viver meses e anos sem Deus não compreendem essa dor. Contudo, saberão na morte o grande bem que perdem. Ao partir deste mundo, a alma, como diz Santo Antonino, vê instantaneamente que foi criada para Deus. Por isso, ela se lançará subitamente para abraçar o seu Bem Soberano; mas, se estiver em pecado, Deus a rejeitará.”
A esperança do céu deve nos levar a “suportar pacientemente as aflições desta vida e oferecê-las a Deus em retribuição aos sofrimentos que Jesus Cristo suportou por amor a nós”, diz Santo Afonso. “Mas o que poderemos dizer dessas alegrias, se nem mesmo os santos mais iluminados souberam nos dar uma ideia da felicidade que Deus preparou para seus servos fiéis? ... Atualmente, é impossível para nós compreendermos a felicidade do céu, porque só temos ideia das alegrias terrenas.”
No céu, afirma o santo, "sempre se desejará e sempre se possuirá essa alegria. Ela será sempre satisfeita e sempre sedenta: eternamente sedenta e sempre saciada de delícias, porque o desejo do céu não gera dor, e sua posse não produz tédio."
A sabedoria iluminada pela graça com que Santo Afonso escreveu essas palavras nos convida a "nos convencermos de que a salvação eterna é para nós a questão mais importante – a única questão – e que, se uma vez negligenciada, torna-se irreparável caso cometamos algum erro".
O autor propõe uma imagem estimulante:
Se existissem na Terra duas classes de homens, uma mortal e outra imortal, e se a primeira visse a segunda buscando as coisas deste mundo, suas honras, bens e diversões, certamente exclamariam: Ó tolos! Vocês têm o poder de adquirir riquezas eternas e fixam seus pensamentos nessas coisas miseráveis e transitórias? Por causa delas, vocês se condenarão a uma eternidade de tormentos na vida futura? Deixem-nos, para quem tudo terminará com a morte, buscar esses bens terrenos. Mas não; somos todos imortais. Como, então, acontece que tantos perdem suas almas pelos prazeres miseráveis desta vida? Como é possível, diz Salviano, que os cristãos acreditem no juízo, no inferno e na eternidade, e ainda assim vivam como se não os temessem?
Santo Afonso enfatiza consistentemente em seus sermões a importância de pedir a Deus a graça da perseverança e do amor divino, “as duas graças mais necessárias para alcançar a salvação eterna”. A primeira é a mais crucial, pois “aqueles que amam a Deus se esforçam para evitar tudo o que Lhe é ofensivo e procuram agradá-Lo em todas as coisas”. A segunda, citando São Bernardo, é a graça pela qual obtemos a coroa eterna, pois “o Paraíso é prometido àqueles que começam uma boa vida, mas só é dado àqueles que perseveram”.
Peçamos ao nosso Senhor estas graças. Busquemos o arrependimento, a oração, a confissão, a caridade, uma compreensão mais profunda da nossa fé e a Eucaristia – não amanhã, não depois, mas agora mesmo.
Nosso Criador nos espera. Não o deixemos esperando, pois, embora Ele seja misericordioso, devemos também lembrar que Ele é justo. Finis venit, venit finis – o fim está chegando, o fim está chegando (cf. Ez 7:6).
Fonte - lifesitenews

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