Os “erros” do Caminho são, nesse sentido, aberrações isoladas, mas as conclusões lógicas de uma interpretação específica do Novus Ordo Missae.
Por ABBEY CLINT @abbeyclint
O autor deste artigo faz uma análise clara, simples e despossuída de qualquer conotação pessoal dos erros do Caminho Neocatecumenal a respeito da Santa Missa. Com 15 anos de experiência neste movimento, ele o mostra em seus desvios doutrinários com brevidade e força.
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Crescer à Maneira Neocatecumenal oferece uma perspectiva crua e sem adornos da “Nova Teologia” (*) que permeou a Igreja pós-conciliar, oferecendo um olhar direto sobre a rejeição radical e retumbante da essência sacrificial da Missa. Para aqueles iniciados no Caminho, o altar não é um lugar do sacrifício sangrento que está novamente incrudiosamente presente, mas uma mesa para um banquete comunitário.
Essa mudança não é meramente estética; é uma profunda ruptura ontológica. Ao substituir a ênfase tradicional na natureza propiciatória da Eucaristia, a oferta do Filho ao Pai para a remissão dos pecados, por uma celebração do “Mistério Pascal” centrada quase exclusivamente na Ressurreição e na alegria da comunidade, o Caminho reflete a mais profunda tendência pós-conciliar de priorizar a relação horizontal entre os homens sobre a relação vertical entre o homem e Deus.
Esta volta teológica manifesta-se mais claramente na estrutura física e litúrgica da Eucaristia neocatecumenal, que é frequentemente celebrada em torno de uma mesa quadrada decorada, em vez de seguir em direção a um tabernáculo ou a um altar fixo. Esta configuração efetivamente desconstrui o papel do sacerdote como alter Christus, agindo na pessoa de Cristo, o Sumo Sacerdote, relegando-o a um mero presidente de uma refeição fraterna.
Os “erros” do Caminho são, nesse sentido, aberrações isoladas, mas as conclusões lógicas de uma interpretação específica do Novus Ordo Missae. Quando os fiéis são encorajados a receber a Sede sentada e a consumi-la simultaneamente com o sacerdote, a distinção hierárquica entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum dos batizados é embaçada ao esquecimento. Esta prática constitui uma manifestação concreta da “Nova Teologia”, que considera a Igreja mais como uma assembleia democrática do que um corpo sobrenatural e hierárquico.
Ademais, a abordagem pedagógica do Caminho Neocatecumenal, com seus diretórios catequéticos há muito escondidos, reflete a ambiguidade doutrinária que tem caracterizado grande parte dos tempos modernos. Ao priorizar uma fé existencial e experimental acima da clareza objetiva e dogmática da tradição escolástica, o Caminho promove uma identidade religiosa que muitas vezes está mais ligada ao “caminho” específico do grupo do que ao depósito universal da fé.
Isso reflete a crise de autoridade que é observada na Igreja em geral, onde o “discernimento” subjetivo é freqüentemente colocado diante do Magistério perene. Em suma, refletir sobre meus 15 anos de experiência neste movimento revela que a crise da liturgia é, na verdade, uma crise de fé; se a Missa não é mais considerada um verdadeiro sacrifício, o próprio núcleo do catolicismo é esvaziado, deixando para trás uma concha centrada na comunidade que luta para guiar as almas para a realidade transcendente do Calvário.
Neste quadro teológico, a compreensão do pecado e da propiciação sofre uma transformação que tem uma surpreendente, e muitas vezes perturbadora, semelhança com o pensamento luterano, longe da doutrina católica do mérito e que se aproxima de uma visão mais fatalista da condição humana.
No Caminho Neocatecumenal, o pecado é muitas vezes apresentado não como uma transgressão voluntária que requer a graça medicinal dos sacramentos e penitência pessoal para retificá-lo, mas como um sintoma inevitável da “escravidão do homem para com o diabo”.
Esta perspectiva evoca o conceito luterano de simul iustus et peccator, segundo o qual o indivíduo permanece essencialmente corrupto, mas é “coberto” pela graça. Ao minimizar a capacidade da vontade humana, com a ajuda da graça, de vencer verdadeiramente o pecado e alcançar a santidade, o Caminho corre o risco de reduzir a vida cristã a um ciclo perpétuo de reconhecimento da própria miséria sem a esperança transformadora de uma verdadeira justificação interior.
Essa visão distorcida do pecado exige naturalmente uma rejeição da compreensão católica tradicional da propiciação. Na teologia perene da Igreja, o sacrifício de Cristo na cruz é um ato propiciatório: uma satisfação oferecida ao Pai para expiar a infinita ofensa do pecado.
No entanto, a “Nova Teologia”, expressa na catequese do Caminho, trata da ideia de satisfazer a justiça divina como uma construção “legalista” ou “pagã”. Em vez disso, enfatiza a Cruz apenas como um sinal do amor incondicional de Deus e uma vitória sobre a morte, despojando-a de seu caráter de sacrifício necessário para a remissão da culpa. Essa mudança elimina efetivamente a necessidade “transacional” da Missa; se não há necessidade de propiciação, a Missa deixa de ser um sacrifício oferecido pelos vivos e pelos mortos e torna-se simplesmente um memorial de um evento histórico que valida o estado atual da comunidade.
Consequentemente, o papel do indivíduo na economia da salvação é minimizado para uma aceitação passiva de sua própria fragilidade. O chamado católico para “completar o que falta nos sofrimentos de Cristo” através do sacrifício e da mortificação é substituído por um foco no “kerygma”, um anúncio de misericórdia que muitas vezes carece do chamado correspondente para um propósito firme de emenda.
Esta orientação teológica reflete a crise mais ampla depois do Vaticano II, onde o sentido do pecado foi perdido, substituído por um conforto psicológico que busca acalmar a consciência em vez de purificá-la. Ao enquadrar a pessoa humana como alguém que “não pode fazer nada” do que pecar até chegar um momento místico de iluminação, o Caminho inadvertidamente reflete a negação protestante do livre arbítrio, alienando ainda mais os fiéis do caminho tradicional de purificação, iluminação e união que definiu a espiritualidade católica por dois milênios.
(*) Nota: a Nova Teologia, ou Nouvelle Theologie foi condenada em seus erros pela Encíclica Humani Generis de Pio PP XII em 1950.
Fonte - panoramacatolico
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