20/02/2012
IHU - Viçoso como uma rosa, depois de séculos, o Consistório mais uma vez deu provas da sua eficácia. Herdado do Império Romano, o Consistório reúne em torno do bispo de Roma não um órgão colegial, mas sim o "Senado do Papa",
composto por clérigos tão importantes que merecem o cargo de
"cardeais", ou escolhidos no Orbe ou incorporados com o barrete à Igreja
de Roma.
| Bento XVI |
A reportagem é de Alberto Melloni, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Desde 1049, cabe a esses cardeais "da Santa Igreja Romana" a tarefa de eleger o sucessor de Pedro e Paulo, quando a cátedra fica vacante por causa da morte, da renúncia ou da deposição do papa. A eles também cabe a tarefa de assistir o pontífice com o conselho, sozinhos e, exatamente, no Consistório.
Uma reunião que, entre os séculos XVI e XIX, progressivamente se
diluiu, até se tornar um rito nu: mas que, em muitas circunstâncias,
também é a ocasião para uma troca de ideias abrangente. Ter acesso e ser
ouvido pelo papa e pelos outros é, de fato, a prerrogativa dos
cardeais.
E 27 dos 125 (como um debate parlamentar com centenas de discursos) se fizeram ouvir nesse vivaz Consistório de
2012, que "funcionou" perfeitamente. As imprecisões sentimentais, os
espiritualismos autoabsolutórios, a arrogância típica das instituições
em declínio não foram a linguagem, ou pelo menos a linguagem
predominante da reunião do Sacro Colégio com Bento XVI.
Não
houve "atas" (embora se deva lembrar que a transparência é a
quimioterapia da indiscrição). No entanto, pelo que se sabe, muitos
purpurados assumiram de peito aberto as mesquinhezes que há muitos meses
vazam dos desiludidos e dos ambiciosos. Eles disseram na presença do
papa – que as ouviu ao vivo e não por meio de sínteses ou resenhas –
palavras de sincero desânimo e de motivada preocupação.
Na Itália,
de fato, também se pode subestimar o efeito do clima que se criou
dentro da catolicidade. Mas quem olha para as coisas a partir da América Central, da Europa do Norte ou da África,
vê um desastre incompreensível. Os ultraconservadores e os
anticonciliares têm a impressão de que nem o papa, que consideravam mais
favorável à tão esperada restauração, consegue pôr ordem nessa
confusão. Para aqueles menos conservadores e para os idosos cardeais
conciliares, a demonstração de que a tepidez em que o Vaticano II foi fervido despotencializou o impulso reformador.
Em
grande parte de uns e de outros, no entanto, só se confirma a ideia de
que a escolha do papa "estrangeiro" – feito no Conclave inesperado de
1978 e reiterada naquele ventoso de 2005 – foi pura providência, que
retirou das mãos dos italianos coisas que eles só sabem arruinar. E até
mesmo os muitos cardeais italianos não podem, por bem, deixar de abordar
o problema.
É possível explicar que esse juízo grosseiro, que
faz chover descrédito sobre justos e injustos, é filho de uma
simplificação que personaliza os problemas, ao invés de levá-los de
volta ao seu coração institucional: e, assim, hoje, incumbe uma nova
tarefa tanto sobre esses cardeais italianos, cujo nome povoa as
"fofocas" (o cardeal Sodano a chamaria assim com razão)
sobre a Igreja pós-ratzingeriana, quanto sobre aqueles purpurados que,
com eles, compõem hoje cerca de metade do Sacro Colégio. Isto é, restituir autoridade espiritual à Igreja italiana, ao seu episcopado, aos seus cardeais. Ou a Itália sai
da "libido denegridora" dos muitos lugares valorizados como se fossem
sucursais do magistério, ou ela volta a ter grandes figuras como as que
marcaram a história eclesiástica – de Borromeu a Lambertini, de Ferrari a Lercaro, de Dalla Costa a Pellegrino, para calar vivos e papas – ou estará condenada a uma marginalidade que só poderá se tornar fragilidade da Igreja universal.
Não é possível pensar em fazer a Festa Mundial da Família, o Ano da Fé, a Jornada Mundial da Juventude e
se contentar com uma Igreja de separados em casa, agarrados ao poder,
indiferentes à rugosidade da Esposa embelezada pelo olhar do Esposo.
Encerrando a discussão entre os cardeais, o papa disse que o lema do Ano
da Fé pode ser o de "viver a verdade na caridade": uma inversão
clamorosa do título de uma encíclica sua e um retorno ao ditado simples
do Novo Testamento simples. Mais do que um slogan, é uma rota.
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