segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Se o padre não é "outro Cristo", por que ele existe? Andrea Grillo ataca o Papa e o sacerdócio

 

Existem palavras que parecem técnicas, mas escondem batalhas existenciais. "Alter Christus", outro Cristo, é um deles. A Igreja chama os padres dessa forma para expressar algo que vai além da simples representação: quando um padre consagra pão e vinho na Missa, quando absolve os pecados no confessionário, ele não está "agindo em nome de Cristo" como um delegado age em nome de seu chefe. Ele está sendo um instrumento do próprio Cristo, que opera através dele. O padre, nesse momento, desaparece. E Cristo aparece.

Mas esse entendimento, tão antigo quanto a própria Igreja, permanece sob cerco. E o último ataque não vem de fora, mas de dentro: Andrea Grillo, um teólogo italiano considerado o ideólogo intelectual da Traditionis Custodes, cujas ideias sobre a Missa tradicional foram adotadas quase literalmente no documento de 2021, acaba de publicar um artigo altamente crítico ao Papa Leão XIV. Seu pecado: ter dito aos padres de Madri que sua identidade consiste em "ser alter Christus".

Para Grillo, isso é intolerável. Não porque seja falso, mas porque, segundo ele, é "uma invenção do século XIX", um resquício do "clericalismo" que o Concílio Vaticano II teria superado. O problema é que, se se ler atentamente tanto o ataque de Grillo quanto a carta papal que ele critica, descobre-se algo perturbador: o que está em jogo não é uma disputa acadêmica sobre quando uma expressão latina foi cunhada. É uma questão existencial: O que é um padre? E para que ele existe?

A carta que te deixou desconfortável: o que Leão XIV realmente disse

Tudo começou há dias, quando o Papa Leão XIV enviou uma carta aos padres da Arquidiocese de Madri por ocasião de sua assembleia presbiteralo CONVIVIUM. Não era um documento solene e magistral, mas uma daquelas cartas pastorais que os papas às vezes escrevem: próximas, pedagógicas, cheias de imagens. Mas justamente por esse motivo, é mais revelador.

Leão XIV começa com um diagnóstico cultural que ninguém poderia chamar de "nostálgico". Ela fala de secularização avançada, da polarização do discurso público, de como a linguagem moral que por séculos facilitou a transmissão do Evangelho evaporou-se. "Palavras não significam mais a mesma coisa", ele escreve. E ele acrescenta algo que soa quase como um desafio: "O Evangelho não encontra apenas a indiferença, mas um horizonte cultural diferente, no qual a primeira proclamação não pode ser tomada como certa."

Qualquer leitor honesto reconheceria que existe um papa ciente dos desafios do presente. Mas então, no parágrafo seguinte, Leão XIV faz algo que parece contradizer esse realismo: em vez de propor "novos modelos pastorais" ou "redefinições da identidade sacerdotal", ele retorna ao normal. E ele diz de forma direta: "Não se trata de inventar novos modelos ou de redefinir a identidade que recebemos, mas de repropor, com renovada intensidade, o sacerdócio em seu núcleo mais autêntico, para ser alter Christus."

Para muitos bispos e teólogos progressistas, essa frase era como um tapa ao estilo Bud Spencer. Como o Papa pode diagnosticar claramente mudanças culturais e depois propor como solução... A teologia do século XIX? Não foi exatamente isso que o Concílio Vaticano II tentou superar?

Grillo pensava o mesmo. E ele escreveu.

O Contra-Ataque: Grillo acusa Pope de trair Santo Agostinho

O artigo de Grillo, publicado em seu blog pessoal, tem a estrutura de uma execução acadêmica. Ele começa reconhecendo que Leão XIV frequentemente cita Santo Agostinho, o grande Doutor da Igreja do século V, cujo lema pastoral era: "Com vocês sou cristão, para vós sou bispo." Até aqui, tudo bem.

Mas Grillo vai além. Segundo ele, Agostinho nunca usou a expressão "alter Christus" para padres, mas para cristãos em geral e santos em particular. Além disso, a aplicação exclusiva desse termo ao clero seria uma "invenção do final da era moderna" que surgiu no século XIX, tornou-se popular entre os Papas Pio X, Pio XI e Pio XII, e reapareceu brevemente com João Paulo II e Bento XVI. Uma forma teológica, em resumo, sem raízes antigas.

A acusação é séria: Leão XIV usaria Agostinho como autoridade para defender uma doutrina que Agostinho nunca ensinou. Pior ainda: ele estaria traindo o espírito do Concílio Vaticano II, que, segundo Grillo, teria recuperado a visão agostiniana original de uma Igreja onde todos os batizados são igualmente "alter Christus", sem diferenças "sacralizadas" entre clero e leigos.

Para reforçar seu argumento, Grillo cita uma passagem de A Cidade de Deus (XX, 10) onde Agostinho comenta sobre o Apocalipse: "Consideriamo sacerdoti tutti i fedeli porque sono membra dell'unico Sacerdote" (consideramos todos os padres fiéis porque são membros do único Sacerdote). A conclusão de Grillo é devastadora: "Uma Igreja em que 'alter Christus' não se refere aos batizados ou aos santos, mas aos ministros ordenados, é uma Igreja considerada uma 'sociedade desigual' e uma 'sociedade perfeita', segundo a tentação do catolicismo entre 1870 e 1950. Nem mesmo para os padres de Madri seria um grande resultado retornar aos tons e estilos daquela época".

Em outras palavras, Leão XIV seria um papa retrógrado, preso em categorias eclesiosológicas que estavam ultrapassadas há setenta anos.

O que Grillo não citou: o silêncio mais revelador

Mas há um problema. E o fato é que Grillo, tão meticuloso ao demonstrar que "alter Christus" não aparece literalmente em Agostinho, esquece de fazer algo fundamental: ele também não cita o restante da carta papal.

Porque Leão XIV não se limita a usar a expressão "alter Christus" e sair. Ele a cerca com uma catequese completa, estruturada em torno de uma metáfora: a catedral de Madri. E nessa metáfora, que Grillo menciona de passagem como "forçada e reducionista", mas que ele não transcreve, está a chave de tudo.

O Papa convida padres a contemplar sua catedral elemento por elemento. A fachada, ele diz, "indica, sugere, convida", mas não é exibida. Assim o padre: visível, mas não protagonista, sempre apontando para Deus. O limiar marca uma separação: "Não é conveniente que tudo entre no interior, porque é um espaço sagrado." E lá Leão XIV funda o celibato, a pobreza e a obediência: "Estar no mundo, mas não ser do mundo". As colunas representam os Apóstolos, o fundamento da Tradição que o padre não pode modificar. O confessionário e a pia batismal são lugares "discretos, mas fundamentais" onde a graça regenera o Povo de Deus. E, finalmente, o altar: "Por vossas mãos o sacrifício de Cristo é realizado na ação mais alta confiada às mãos humanas."

Cada imagem é uma lição de teologia sacramental. E cada lição contradiz diretamente a tese de Grillo.

Vamos analisar apenas três exemplos:

Primeiro: Leão XIV escreve que nos sacramentos "a graça é revelada como a força mais real e eficaz do ministério sacerdotal." Essa frase não é poética: é doutrinária. Significa que a eficácia do ministério não depende do carisma pessoal do padre, nem de sua capacidade de "animar" a comunidade, nem de sua formação acadêmica. Depende do sacramento. Do que os teólogos chamam de ex opere operato: a graça funciona pelo simples fato de que o sacramento é validamente celebrado, independentemente da santidade do ministro.

Mas se Grillo estiver certo e o padre for apenas "um cristão com função organizacional", então a graça não vem mais do sacramento, mas da "autenticidade" de quem o celebra ou da "participação ativa" da assembleia. E aí se abre uma caixa de Pandora: se a eficácia depende do ministro e não do sacramento, por que as mulheres não podem celebrar a Eucaristia? Por que um pastor protestante bem formado não poderia fazer isso também?

Segundo: O Papa diz que o padre deve permanecer "ancorado no testemunho apostólico recebido e transmitido na Tradição viva da Igreja, guardada pelo Magistério." Não é uma recomendação piedosa: é um lembrete de que o padre não inventa sua doutrina, não pode adaptá-la às modas culturais, não é o dono do depósito da fé. É um transmissor. Um canal, como Leão XIV diz em outro lugar da carta: "Você não é a fonte, mas o canal."

Grillo, por outro lado, propõe implicitamente o oposto. Ao negar que o padre tenha uma configuração ontológica especial com Cristo, ele reduz sua autoridade àquela que a comunidade quer reconhecê-lo. É o modelo protestante: o pastor é eleito pela congregação e pode ser removido por ela. Ele não tem um "caráter indelével" que o marque para a vida toda. Ele é um líder carismático, não um mediador sacramental.

Terceiro: Leão XIV usa uma expressão que Grillo provavelmente detesta: "configurado para Cristo." Não diz "representando Cristo" ou "agindo em nome de Cristo." Diz "configurado". É um termo técnico emprestado de São Tomás de Aquino, que na Summa Theologiae (III, q.63, a.3) explica que o sacramento das Ordens Sagradas imprime um caráter, um selo espiritual, que "configura" o sacerdote a Cristo Sacerdote. Não é uma metáfora. É uma ontologia sacramental: algo muda no ser do ordenado, algo que nunca desaparece, nem mesmo que ele se torne herege ou apóstata.

Grillo não pode refutar isso sem rejeitar abertamente São Tomás, o Concílio de Trento e o atual Catecismo. Então ele prefere não mencionar. Ele cita a primeira parte diagnóstica da carta papal (o que lhe convém), ataca o parágrafo do "alter Christus" (que o incomoda) e silencia todo o resto.

Não há apenas desvio doutrinário, mas também muita desonestidade.

A armadilha dialética: tudo ou nada

Mas o mais perturbador no artigo de Grillo não é o que ele diz, mas o que ele não diz. Porque seu argumento, levado às suas consequências últimas, destrói todo o edifício do sacerdócio católico. E ele sabe disso.

Vamos pensar na lógica:

Se todos os batizados são igualmente "alter Christus" (como Grillo argumenta, citando parcialmente Agostinho), então o sacerdócio ministerial é apenas uma função organizacional, não uma participação especial no sacerdócio de Cristo. Mas dessa premissa seguem consequências inevitáveis:

  • Por que o celibato obrigatório? Se o padre não é ontologicamente diferente dos leigos, por que impor-lhe uma renúncia que não é exigida de outros cristãos? Um gerente pastoral pode se casar. Também sou animador da comunidade.
  • Por que só homens? Se não há diferença substancial entre o sacerdócio comum (batismal) e o sacerdócio ministerial, qual razão teológica há para excluir as mulheres? O argumento tradicional, de que o padre age in persona Christi capitis, como cabeça, que exige a "iconicidade" masculina, só funciona se houver uma configuração especial com Cristo. Se não houver, é puro machismo.
  • Por que a ordenação é irreversível? Se o sacerdócio é uma função, deveria ser possível renunciá-lo como se renuncia a um ofício. Mas a Igreja ensina que o sacramento imprime um "caráter indelével": uma vez padre, sempre padre, mesmo que você deixe o ministério ou se case. Só faz sentido se houver uma mudança ontológica, não apenas funcional.
  • Por que sete anos de formação no seminário? Se o padre é apenas um "cristão com trabalho pastoral", um curso de pós-graduação em teologia e gestão paroquial deve ser suficiente. Por que o estudo do latim, da filosofia escolástica, da espiritualidade sacerdotal, se no fim ele é apenas um "animador"?

Grillo nunca menciona essas consequências. Mas o sistema deles exige isso. É como alguém que remove uma pedra fundamental de um prédio e depois fica chocado quando o telhado desaba.

St. Augustine vs. Cricket: Quem realmente deturpa o Bispo de Hipona

Há uma amarga ironia em tudo isso: Grillo acusa Leão XIV de manipular Santo Agostinho para justificar uma doutrina moderna. Mas é Grillo quem faz exatamente isso.

É verdade que Agostinho disse "convosco um cristão, um bispo para você" em um de seus sermões mais famosos (Sermo 340:1). É verdade que ele enfatizou a dignidade do batismo e o sacerdócio comum de todos os fiéis. É verdade que em A Cidade de Deus (XX, 10) ele fala do sacerdócio escatológico universal.

Mas Grillo omite o resto. Ele omite que o próprio Agostinho, em Contra a Epístola do Parmênio (II, 13, 28), ensinou que o sacramento das Ordens Sagradas imprime um caráter que permanece até no herege. Ele omite que em De Baptismo (III, 16) ele distinguiu entre "caráter" (permanente) e "graça" (que pode ser perdida). Ele omite que Agostinho defendeu a validade objetiva dos sacramentos contra os donatistas justamente porque, embora o ministro fosse indigno, foi Cristo quem agiu por meio dele.

E, acima de tudo, ele omite o contexto do trecho que cita. Quando Agostinho fala do sacerdócio universal no Apocalipse, ele está comentando a visão escatológica do Reino consumado de Deus, onde todos os redimidos participarão do sacerdócio de Cristo em glória. Ele não está falando da estrutura ministerial da Igreja peregrina na terra, onde o próprio Cristo instituiu apóstolos com autoridade especial para "fazer isto em minha memória" (Lc 22:19).

A diferença é crucial. Uma coisa é dizer que todos os cristãos participam do sacerdócio de Cristo por meio do batismo (a verdade da fé, ensinada por São Pedro em 1 Pt 2:9). Outra bem diferente é dizer que essa participação apaga a diferença essencial entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial.

O Concílio Vaticano II, que Grillo invoca constantemente, resolveu a questão no Lumen Gentium 10 com uma frase que não admite distorção: "O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial diferem essencialmente, e não apenas no grau" (essentia et non gradu tantum differunt).

"Essencialmente" não significa "funcionalmente". Isso significa que há uma diferença na natureza, não apenas na tarefa. E essa diferença, segundo o mesmo Concílio, baseia-se no fato de que os padres ministeriais são "configurados para Cristo Sacerdote" por um "caráter especial" que imprime o sacramento das Ordens Sagradas (Presbyterorum Ordinis, 2).

Onde, então, está a ruptura com a tradição que Grillo denuncia? Onde está a novidade do século XIX? A única coisa que Leão XIV faz é repetir, em palavras pastorais, o que Trento definiu no século XVI, o Vaticano II reafirmado no século XX, e o Catecismo atual ensina no século XXI... e o próprio Santo Agostinho defendeu. O Magistério não inventa, ele ensina.

Projeto de Grillo: para onde ele realmente leva

Talvez alguns leitores pensem que isso é apenas uma discussão entre teólogos, irrelevante para a vida comum de fé. Mas não é. Porque por trás de toda definição doutrinária existe uma forma de viver a Igreja. E a Igreja que Grillo propõe, embora nunca o diga abertamente, é radicalmente diferente daquela que conhecemos há dois mil anos e, por isso, nos é dada até o fim.

Se o padre não é "alter Christusno sentido especial, mas apenas uma pessoa batizada com função pastoral, então:

A Missa deixa de ser um sacrifício oferecido pelo padre in persona Christi e se torna um "memorial comunitário" presidido por um animador. Na verdade, alguns liturgistas progressistas já evitam a palavra "sacrifício" e preferem falar apenas de "banquete" ou "assembleia comemorativa".

A confissão perde seu caráter judicial-sacramental. Se o sacerdote não possui o poder das chaves dadas por Cristo (potestas ordinis), então a absolvição não é um ato de autoridade divina, mas um gesto de "acompanhamento misericordioso". E daí para admitir a comunhão aos divorciados e recasados sem confissão prévia (como Grillo propõe em sua leitura de Amoris Laetitia) é apenas um passo. Alguns chegam ao ponto de dizer que a absolvição não pode ser negada (para aqueles que estão detidos...) e, em um surto, os descrevem como criminosos.

O celibato se torna incompreensível. Não é mais a renúncia que permite ao padre pertencer inteiramente a Cristo (como diz Leão XIV: "estar no mundo, mas não do mundo"), mas sim uma disciplina anacrônica, um gosto medieval que pode ser abolido sem problema.

O sacerdócio feminino torna-se inevitável. Se a ordenação não imprime um caráter especialmente configurado para Cristo, se não há diferença ontológica, mas apenas funcional, o que impede a ordenação de mulheres? O argumento da "iconicidade" (o padre como imagem do Noivo que é Cristo) só funciona se o padre for realmente "outro Cristo", e não um simples coordenador escolhido pela comunidade.

A silenciosa "resposta" de Leão XIV

O extraordinário da carta papal aos padres de Madri é que Leão XIV não está polemizando com ninguém. Ele simplesmente ensina. Ele não menciona Grillo, nem teólogos progressistas, nem controvérsias pós-conciliares. Ele escreve uma carta pastoral, próxima e pedagógica.

Mas justamente por esse motivo, Grillo teve que atacá-la. Ele sabe que é nuclear, muito importante. Além disso, cada frase do papa contradiz o projeto eclesiosiológico que teólogos como Grillo vêm construindo há décadas.

Enquanto Grillo fala de "função pastoral", Leão XIV fala de "configuração a Cristo". Enquanto Grillo enfatiza a igualdade batismal, o papa distingue a vocação específica do sacerdote. Enquanto Grillo vê o "clericalismo" na diferença, Leão XIV vê o desígnio divino.

O limiar que separa o sagrado do profano refuta a horizontalização da Igreja. As colunas apostólicas refutam o historicismo que acredita que a doutrina pode mudar conforme os tempos. O altar onde o sacrifício de Cristo é realizado refuta a redução da Missa a um memorial simbólico. E o tabernáculo, onde Cristo permanece "novamente confiado aos cuidados" do padre, refuta a ideia de que o ministro seja apenas um delegado da assembleia.

É uma aula magistral de como ensinar doutrina profunda sem soar acadêmico. E também é uma demonstração de que a melhor resposta aos ataques nem sempre é a refutação direta, mas a serena reafirmação da verdade.

Por que isso importa: o que está em jogo para todo católico

Talvez alguém pergunte: "E que diferença tenho se Grillo e o Papa discutem sobre uma expressão latina?"

A resposta é simples: você se importa porque isso define o que você encontra ao entrar na sua paróquia no domingo.

Se Grillo estiver certo, o que você encontra é uma comunidade que se reúne para celebrar sua fé, presidida por um coordenador que organiza a liturgia e prega. A graça vem da fé da assembleia, do compromisso dos participantes, da "autenticidade" do gesto comunitário. O padre é importante, mas não essencial. Ele poderia ser substituído amanhã por outra pessoa, ou por uma mulher, ou por uma equipe de leigos bem treinados.

Se Leão XIV estiver certo, o que você encontra é cavalaria feita de presente. O padre desaparece, e em seu lugar Cristo próprio age, renovando seu sacrifício redentor. A graça não vem da fé da assembleia (embora essa fé seja necessária para recebê-la frutuosamente), mas do próprio sacramento. E, portanto, o padre, mesmo que seja pecador, mesmo que esteja cansado, mesmo que pregue mal, pode trazer Deus do céu para o altar. Porque ele não age em nome deles. Ele age na função de Cristo.

A primeira opção é mais "democrática", mais "igualitária", mais "alinhada com o nosso tempo". Mas tem um problema: se a eficácia do sacramento depende de nós, então estamos perdidos. Porque somos fracos, inconstantes, mornos. Nossa fé vacila. Nossa atenção está dispersa. Um domingo estamos fervorosos, no outro distraídos.

A segunda opção é mais "hierárquica", mais "vertical", mais "antiga". Mas tem uma vantagem: se a eficácia do sacramento depende de Cristo, então somos salvos. Pois Cristo é fiel, mesmo que nós não sejamos. Porque graça não é um sentimento que eu produzo, mas um presente que Deus dá.

E essa, no fim das contas, é a diferença entre uma Igreja humana e uma Igreja divina. Entre uma comunidade que se organiza para se sentir bem e um sacramento que nos salva mesmo que não o mereçamos.

A luta que define o futuro

O confronto entre Andrea Grillo e o Papa Leão XIV não é uma anedota. É um sintoma de uma batalha que vem acontecendo há meio século e que define o futuro do catolicismo, com formulações modernas. Embora retome a modernidade luterana, isso também não é novidade.

Por um lado, há aqueles que acreditam que o Concílio Vaticano II foi uma rutura necessária com o passado, que a Igreja deve se adaptar ao espírito dos tempos, que o sacerdócio deve ser "democratizado" e que a diferença entre clérigos e leigos é um resquício de tempos menos esclarecidos.

Por outro, aqueles que acreditam que o Concílio Vaticano II foi um aprofundamento da Tradição, que a Igreja deve evangelizar a cultura e não se permitir ser evangelizada por ela, que o sacerdócio é um dom insubstituível de Cristo e que a diferença entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial não é uma invenção humana, mas uma instituição divina.

Leão XIV escolheu seu lado. Não com proclamações estridentes, não com condenações explícitas, mas com uma carta pastoral que parece uma meditação espiritual, mas que, na realidade, é um tratado sobre eclesiologia. Grillo também escolheu a dele. Não propondo abertamente o sacerdócio feminino ou a abolição do celibato, mas corroendo os fundamentos teológicos que o sustentam, confiando que outros tirarão as conclusões que ele não formula.

E todo católico, quer saiba disso ou não, também está escolhendo. Toda vez que ele vai à Missa, toda vez que vai à confissão, toda vez que olha para seu pároco, ele está implicitamente respondendo à pergunta: Esse homem é "outro Cristo" ou é apenas um cristão com função pastoral?

A resposta que dermos definirá qual Igreja nossos filhos herdarão e, mais importante, o que você encontrará no dia em que essa herança acontecer.

Junto-me à gratidão de José Francisco Serrano outro dia pela ocasião que facilitou a escrita daquela carta pelo Papa.



Fonte -  infocatolica


 

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