Redação (Quarta-feira, 30-01-2013, Gaudium Press) Na
atual situação de desilusões e apreensões que se abatem sobre a
humanidade, muitos são os que fazem previsões catastróficas para o
futuro. Imaginam que estamos aos bordos, talvez, de uma catástrofe sem
precedentes. Contudo, não nos esqueçamos de que houve uma catástrofe
muito maior do que todas as catástrofes que marcou logo, desde o início,
a história do gênero humano. Aquela catástrofe narrada pelo Gênesis, da
desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, que por castigo
foram expulsos do Paraíso Terrestre (Cf. Gn 3,23).
Adão, o príncipe do mais belo e mais
encantador dos reinos, colocado como senhor de toda a natureza visível
cujos segredos ele conhecia perfeitamente e sobre a qual exercia um
misterioso império; confortado pelos dons preternaturais que lhe
asseguravam, entre outros benefícios, a imortalidade, pecou. Com ele,
pecou também Eva. Postos fora do paraíso deixaram aquela terra de
bênçãos e de eleição e entraram para a terra de exílio. Os dons
preternaturais, deles se retiraram. A natureza humana, desamparada
diante de um ambiente sobre o qual não tinha mais governo, que não mais
dominava, sentiu-se apoucada, diminuída, ameaçada pela justa cólera de
um Deus que tinha sido ofendido. E com o homem, na terra de exílio,
penetraram a apreensão, a dor, o sofrimento, a incerteza, seguida, não
tanto tempo depois, da imagem terrível da morte. No entanto, apesar de
todas essas desgraças, nenhuma se igualava ao fato de terem perdido o
estado de graça.[1]
Abandonaria o Criador a sua criatura a
tão grande mal? Permitiria Deus, que o homem se condenasse pela falta da
graça perdida pelo pecado? Não! Constituiu o Senhor a mais excelsa
instituição pela qual o homem corrompido pelo pecado poderia se reerguer
do abismo das trevas para a luz da graça: A Igreja Católica Apostólica
Romana.
A Igreja, enquanto sociedade visível
está ordenada em diversos estados da hierarquia, desde um simples leigo
ao mais santo e elevado posto, que é o papado. Nessa harmônica e bela
hierarquia exercem um especial papel na missão salvífica da Igreja os
diáconos, sacerdotes e bispos. Na Antiga Lei eram os sacerdotes que
deveriam oferecer os sacrifícios, dentre os quais, destacamos o
sacrifício pedindo perdão dos pecados, para que o homem recuperasse a
graça perdida, e o sacrifício em ação de graças, a fim de robustecer a
graça na alma daqueles que já a possuíam. Contudo, os sacerdotes do
Antigo testamento, como Aarão e Melquisedech foram apenas prefigura do
verdadeiro e eterno sacerdote que deveria vir: Nosso Senhor Jesus
Cristo.
No fim de sua vida terrena, o Divino
Redentor quis que a vida sacerdotal, por Ele iniciada em seu corpo
mortal com as suas preces e o seu sacrifício, não cessasse com a sua
partida para o céu; e, por isso, instituiu na Igreja, sociedade visível e
hierárquica, um sacerdócio também visível e mais perfeito que o antigo
para oferecer em toda parte a oblação pura por excelência, a fim de que
todos os homens, do oriente ao ocidente, livres do pecado servissem
espontânea e voluntariamente a Deus.[2]
OS GRAUS DO SACRAMENTO DA ORDEM
O sacerdócio católico está dividido em
três graus distintos: O diaconato, que significa serviço, o
presbiterado, que procede da palavra grega que determina o ancião, e o
episcopado, supervisor. A cada grau do sacramento da ordem competem seus
ofícios próprios.
O DIACONATO
O primeiro grau é composto pelos
diáconos. Estes são colaboradores do Bispo como mestres da doutrina,
sacerdotes do culto sagrado e ministros do governo[3]. Aos diáconos
compete, em união com o bispo, o serviço ao povo de Deus. É próprio do
seu ofício, administrar solenemente o Batismo, distribuir a Eucaristia,
realizar e abençoar o Matrimônio, além de, por meio do santo Viático,
levar o conforto espiritual aos moribundos. Têm os diáconos também, a
função de celebrar com o povo de Deus a Sagrada Liturgia, instruí-lo nas
Sagradas Escrituras exortando-o assim, a uma maior reverência pela
Palavra de Deus. Ademais da distribuição dos sacramentais - como a água
benta, a benção de objetos de piedade, residências e locais de trabalho -
o diácono tem o múnus para presidir os ritos funerários e de
sepultura.[4]
Os diáconos são, portanto, chamados a se
consagrarem inteira e ativamente ao ministério da caridade e da
santidade, sendo, conforme a exortação de São Policarpo,
"misericordiosos, diligentes, caminhando na verdade do Senhor, que se
fez servo de todos".[5]
O PRESBITERATO
No segundo grau do sacramento da Ordem
estão os presbíteros. São eles, segundo o Apóstolo, "embaixadores e
colaboradores de Deus na salvação das almas".[6] Os sacerdotes estão
colocados por Deus para distribuir aos homens os benefícios celestes e
elevar a Ele as suas orações. É pelo ministério dos presbíteros que Deus
comunica as suas graças aos fiéis por meio dos sacramentos. É próprio
do ofício sacerdotal, receber na Igreja novos filhos de Deus pelo
Batismo, realizando assim, a vontade do Divino Mestre, pois "quem não
renascer da água, não pode entrar no reino de Deus".[7] É pelo
ministério dos presbíteros, no sacramento da Penitência, que Deus cura
os espiritualmente doentes e ressuscita os que estão mortos para a
graça, isto é, aqueles que estão em pecado mortal. É pelas sagradas mãos
dos padres, na comunhão eucarística, que as almas se alimentam da vida
da graça e nela se fortalecem, como disse Nosso Senhor: "se não comerdes
a carne do Filho do homem, não tereis a vida em vós" (Jo 6,54). Ora,
daí o fato de o espírito presbiteral consistir essencialmente num zelo
ardente, primeiro pela glória de Deus, e depois pela salvação das almas.
No entanto, é na celebração da Sagrada
Eucarística, mistério inefável que encerra um abismo de caridade e que
contém todo o tesouro da bondade divina, que os presbíteros exercem
principalmente o seu múnus sagrado. Atuam eles "in persona Cristi", ou
seja, na pessoa de Cristo quando exercem o seu ministério, unindo as
preces dos fiéis ao sacrifício da cabeça que é Cristo.
Exercem ainda, por título eminente, o
ministério do perdão dos pecados, pois, para isto, deu-lhes Nosso Senhor
a virtude do Espírito Santo para salvarem as almas, absolvendo-as de
seus pecados[8], o que os faz necessitar, acima de tudo, da santidade
para se manterem com firmeza no exercício de seus deveres. Pelo
contrário, se nas sendas da virtude o sacerdote não estiver adiantado,
não poderá trabalhar na salvação do próximo, sem prejuízo da própria.
Como pastores e mestres, desempenham o
múnus de Cristo pastor e cabeça.[9] Portanto, devem ser obedecidos como
vigias e, em grande medida, responsáveis pela salvação das almas,[10]
enquanto apascentam o rebanho a eles confiado.[11] Sobretudo pelo
exemplo, devem os sacerdotes, ser espelho de virtude, no interior e no
exterior, para que os outros aprendam deles a viver também santamente.
Dessa forma, não basta ao sacerdote uma santidade comum para desempenhar
dignamente seus ministérios, pelo contrário, lhe é indispensável uma
santidade excelente. Pela sagrada ordem, o presbítero é elevado acima do
comum povo e, portanto, está obrigado a superá-lo em riqueza de graça e
resplandecer mais em méritos, virtudes e santidade.
Como coadjutores dos bispos e sob a sua
autoridade, santificam e governam a porção do rebanho a si confiada,
tornam visível a Igreja universal e prestam uma grande ajuda para a
edificação de todo o corpo de Cristo. Deste modo, todos os sacerdotes,
tanto diocesanos como religiosos, estão associados ao corpo episcopal em
razão da Ordem e do ministério, e, segundo a própria vocação e graça,
contribuem para o bem de toda a Igreja.[12]
O EPISCOPADO
Foi sobre a coluna dos apóstolos que
Nosso Senhor fundou a sua Igreja. Para este ofício tão alto, foram os
apóstolos enriquecidos por Cristo com uma especial efusão do Espírito
Santo (Cf. At.2, 3-4) e eles, por sua vez, pela imposição das mãos
transmitiram aos seus colaboradores o dom do Espírito (cf. 1 Tm. 4,14),
que se perpetua pela consagração episcopal.
Na hierarquia do Sacramento da Ordem, os
bispos estão no mais alto estado, pois possuem eles a plenitude do
sacerdócio, ou seja, o terceiro grau. Portanto, os bispos tem a missão
de presidir os fiéis em nome de Deus como pastores e mestres da
doutrina, sacerdotes do culto sagrado e ministros dotados de autoridade.
Assim como se transmite aos sucessores de Pedro o singular privilégio a
ele concedido pelo divino Mestre, permanece na ordem dos bispos, o
ofício dos apóstolos de apascentar a Igreja. Assim, eles, de forma
iminente e visível fazem as vezes de Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice.
É próprio dos bispos admitir por meio do Sacramento da Ordem novos
membros na ordem clerical.[13]
O CONVITE AO SERVIÇO
Serviço. Esta é a palavra que fez o
Verbo Divino se encarnar, como Ele próprio o disse: "Eu não vim para ser
servido, mas sim, para servir" (Mt 20,28). Este é o princípio que desde
os primórdios da Igreja tem alimentado o zelo de seus ministros para
distribuir a graça de Deus a todos que a procuram. Na história, muitos
foram os que empreenderam grandes obras de sacrifício para fazerem a
vontade de Deus. Mas os sacerdotes tem maior obrigação diante de Deus de
se santificarem e serem na Igreja de Cristo modelos para a salvação das
almas. Aprendamos daqui, quanto é alta a dignidade dos sacerdotes.
Regozijemo-nos com sua tão alta elevação e temamos a sua queda. Pois, é,
purificados pelas suas mãos, que entram na pátria celeste os eleitos de
Cristo.
Portanto coloquemos nossa confiança na
Graça de Deus que nos é concedida através dos sacramentos, pelas mãos da
hierarquia eclesiástica, e não há razão para temermos o dia de amanhã.
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Por Rafael Fonseca
[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio.
Conferência sobre o pecado. São Paulo, 20/05/1973. Adaptada para a
linguagem escrita. Sem revisão do autor.
[2]Cfr. Pio XII, Encícl. Mediator Dei, AAS 39, 1947. p. 522.
[3]Cfr. ROCCHETTA, Carlo. Os
Sacramentos da Fé: Ensaio de teologia bíblica sobre os sacramentos como
"maravilhas da salvação" no tempo da Igreja. Tradução de Álvaro A.
CUNHA; Revisão de Honório DALBOSCO. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 408.
[4]Cfr. LG 29.
[5]Cfr. Constitutiones Ecclesiae
aegyptiacae, III, 2: ed. Funk, Didascalia, II, p. 103. Statuta Eccl.
Ant. 31-41: Mansi 3, 954. 75 S. Policarpo, Ad Phil. 5, 2: ed. Funk, p.
300: Cristo é chamado «omnium diaconus factus». Cfr. Didachè, 15, 1:
ib., p. 32; S. Inácio M., Trall. 2, 3: ib., p. 242. Constitutiones
Apostolorum, 8, 28, 4: ed. Funk, Didascalia, I, p. 530.
[6]Cfr. 2Cor 5,20 e 1Cor 3,9.
[7]Cfr. Jo 3,3.
[8]Cfr. Jo 20,22.
[9]Cfr. LG 28.
[10]Cfr. Hb 13,17.
[11]Cfr. 1Pd 5,2.
[12]Cfr. LG 28.
[13] Cf. LG 20,21 e 23.
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