Existem palavras que parecem técnicas, mas escondem batalhas existenciais. "Alter Christus", outro Cristo, é um deles. A Igreja chama os padres dessa forma para expressar algo que vai além da simples representação: quando um padre consagra pão e vinho na Missa, quando absolve os pecados no confessionário, ele não está "agindo em nome de Cristo" como um delegado age em nome de seu chefe. Ele está sendo um instrumento do próprio Cristo, que opera através dele. O padre, nesse momento, desaparece. E Cristo aparece.
Mas esse entendimento, tão antigo quanto a própria Igreja, permanece sob cerco. E o último ataque não vem de fora, mas de dentro: Andrea Grillo, um teólogo italiano considerado o ideólogo intelectual da Traditionis Custodes, cujas ideias sobre a Missa tradicional foram adotadas quase literalmente no documento de 2021, acaba de publicar um artigo altamente crítico ao Papa Leão XIV. Seu pecado: ter dito aos padres de Madri que sua identidade consiste em "ser alter Christus".
Para Grillo, isso é intolerável. Não porque seja falso, mas porque, segundo ele, é "uma invenção do século XIX", um resquício do "clericalismo" que o Concílio Vaticano II teria superado. O problema é que, se se ler atentamente tanto o ataque de Grillo quanto a carta papal que ele critica, descobre-se algo perturbador: o que está em jogo não é uma disputa acadêmica sobre quando uma expressão latina foi cunhada. É uma questão existencial: O que é um padre? E para que ele existe?
