sábado, 17 de janeiro de 2026

O “limbo litúrgico” de Leão XIV

O “limbo litúrgico” de Leão XIV 

 

A Missa tradicional em latim está passando por um momento peculiar sob o pontificado de Leão XIV: a regra restritiva da Traditionis Custodes não é revogada, mas na prática um clima de expectativa é percebido diante de uma gestão mais flexível, com encontros, permissões e dispensações que sugerem uma etapa de “espera” antes de um encerramento definitivo da questão.

Não há um anúncio de giro formal, mas há sinal suficiente para falar sobre uma mudança de tom – apesar do ritmo lento. E em Roma, quando o tom muda, também muda a forma como a lei é aplicada.

Uma lei que visava encerrar o debate... e não o fechou

Traditionis Custodes (2021) foi interpretado em sua época como o compromisso de Francisco de conter a expansão do rito de 1962, especialmente em contextos onde a liturgia acabou se tornando uma bandeira identitária ou oposição ao Concílio Vaticano II. A lógica era clara: unidade pela regulação e regulação pelo controle.

No entanto, o que permaneceu depois não é uma uniformidade estrita, mas um mosaico: permite em alguns lugares, restrições a outros e uma realidade que é sustentada por exceções. A regra ainda está “nos livros”, mas sua aplicação não parece mais monolítica.

Leão XIV: diagnóstico de polarização, sem decreto de ruptura

Segundo o The Catholic Herald, Leão XIV teria reconhecido que o conflito litúrgico é “muito complicado” e teria advertido contra a instrumentalização política da liturgia — de um lado e do outro. Esse diagnóstico é importante: se o problema é a polarização, a imposição não diferenciada geralmente produz o efeito oposto.

Portanto, mais do que um leme, o que se percebe é uma estratégia de descompressão: ouvir, evitar gestos que queimam a discussão e permitir tempo para fazer o seu trabalho.

Gestos que pesam: Burke em San Pedro e encontros significativos

Nessa linha, a mídia britânica destaca fatos concretos que, em Roma, não são menores de idade. Um deles é o encontro entre Leão XIV e o cardeal Raymond Burke, após o qual Burke teria levantado a questão da liturgia tradicional. E, acima de tudo, um gesto altamente simbólico: a celebração de Burke de uma solene missa tradicional na Basílica de São Pedro, com permissão explícita do Papa.

Não é uma derrogação. Mas é uma mensagem: o antigo rito não é tratado como um corpo estranho para o coração da Igreja, mesmo que permaneça regulado.

A audiência do Papa com o bispo Fernando Rifan, administrador apostólico de Campos (São João Vianney), também é mencionada, uma figura singular por sua ligação com o rito tradicional dentro de uma estrutura totalmente regularizada.

Dispensas renováveis: a chave para uma aplicação “porosa”

O ponto mais delicado não está nos gestos, mas na mecânica. Segundo a mesma mídia, teria sido explicado que, quando um bispo o solicita do Dicastério para o Culto Divino, uma isenção renovável de dois anos poderia ser concedida para comemorar com o Missal de 1962.

Se isso se tornar prática usual, o cenário muda sem tocar em coma do texto legal: o sistema continuaria a dizer “restrição”, mas a realidade funcionaria como uma permissão condicionada.

E esta situação, precisamente, é o que alimenta o desconforto: um quadro que não se aplica igualmente em todo o lado cria queixas comparativas, confusão e a sensação de arbitrariedade.

Uma tensão que não desaparece: jovens, fraternidades e sinais fora de Roma

À medida que Roma calibra, a vida eclesial continua. Celebrações tradicionais em eventos lotados com a presença de jovens, com o apoio de comunidades como o FSSP, e outras cenas na Europa que são lidas como sinais de continuidade prática do rito em determinados ambientes, sem ruptura formal com autoridade.

Não é um fenômeno marginal: onde é celebrado com estabilidade, costuma atrair famílias jovens, vocações e um perfil de católicos que não se resignam à tradição litúrgica que está sendo tratada como um problema a ser administrado.

O cenário atual: nem supressão nem normalização

O resultado é um equilíbrio instável, um “limbo litúrgico”. Não há supressão, mas não há normalização clara. Há lei restritiva, mas também exceções; há cautela, mas também gestos; há discurso de unidade, mas uma realidade plural difícil de se encaixar com um decreto.

Sob Leão XIV, a Missa tradicional parece ter entrado em uma fase de trégua, onde o objetivo imediato não é resolver o conflito, mas impedir que a Igreja se quebre mais dentro. A grande questão é quanto tempo essa “solução provisória” pode durar antes que Roma tenha que realmente escolher um caminho.

 

Fonte - infovaticana

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