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A situação dos cristãos no Iraque exige uma posição clara e corajosa por parte dos líderes religiosos.
| Fuga de cristãos no Iraque: "Que o Deus da paz reforce todo desejo autêntico de diálogo e de reconciliação".
Por Dom Murilo S.R. Krieger*
Poucos dias antes de embarcar para a visita pastoral à Coreia, onde ainda se encontra, o papa Francisco, diante dos trágicos acontecimentos que ocorrem no norte de Iraque, proclamou:
"Não se faz guerra em nome de
Deus". Ele tinha diante de si números e situações dramáticas: ataques
violentos contra cristãos, pelo fato de serem cristãos, por milicianos
jihadistas (= lutam para conquistar a “fé perfeita”). Para a cidade de
Erbil, que tem 25 mil cristãos, fugindo das perseguições acorreram 70
mil cristãos que, naturalmente, estão desalojados. Como escreveu Dom
Louis Raphael, Presidente dos Bispos Católicos no Iraque: "As famílias
que encontraram abrigo dentro das igrejas ou escolas estão em condições
relativamente boas, ao passo que aqueles que ainda estão dormindo nas
ruas e parques públicos encontram-se em situação deplorável". Em Dohuk, o
número de refugiados cristãos chega a mais de 60 mil, e a situação
deles é pior do que a dos refugiados em Erbil.
Nas aldeias cristãs em torno de Mosul, até as fronteiras do
Curdistão,"as igrejas encontram-se desertas e profanadas; cinco bispos
estão fora de suas diocese, os sacerdotes e freiras saíram de suas
missões e instituições, deixando tudo para trás, as família fugiram com
seus filhos, abandonando tudo. O nível de desastre é extremo".
Por que, de repente, está acontecendo tudo isso? Por que essa
perseguição sistemática e o desejo de eliminar os cristãos daquela
região? Afinal, é chocante ver que estão sendo expulsas famílias cujos
antepassados viveram ali pacificamente há vários séculos. Por trás dessa
tragédia humanitária está o desejo, por parte de alguns grupos
minoritários, de “restaurar o califado”, que tinha sido abolido em 29 de
outubro de 1923, por Kamal Ataturk, fundador da Turquia moderna.
Diante dessa situação, no dia 12 de agosto p.p. o Pontifício Conselho
para o Diálogo Inter-Religioso da Santa Sé fez um apelo para que todos –
inclusive a maioria muçulmana que não aceita esse projeto de
“restauração”, nem os métodos utilizados – se unam para denunciar as
práticas vergonhosas que vêm sendo cometidas. Eis algumas dessas
práticas: "a matança de pessoas apenas por causa das suas crenças
religiosas; a abominável prática da decapitação, crucificação e
exposição de cadáveres pendurados em locais públicos; a imposição, aos
cristãos, do dilema entre a conversão forçada ao islã, o pagamento de
imposto por não serem muçulmanos ou o êxodo; a expulsão forçada de
dezenas de milhares de pessoas, incluindo crianças, idosos, mulheres
grávidas e doentes; o rapto de meninas e mulheres pertencentes a
comunidades cristãs; a imposição da prática bárbara da mutilação
genital; a destruição de locais de culto e mausoléus cristãos e
muçulmanos; a ocupação forçada ou a profanação de igrejas e mosteiros; a
remoção de crucifixos e outros símbolos religiosos cristãos; a
destruição do inestimável patrimônio religioso e cultural cristão".
O Pontifício Conselho acentua: “Nenhuma causa pode justificar tal
barbárie; certamente não uma religião. Trata-se de um crime extremamente
grave contra a humanidade e contra Deus, que é o Criador, como
frequentes vezes disse o papa Francisco.”
Não podemos nos esquecer que cristãos e muçulmanos têm vivido juntos
ao longo dos séculos, mesmo que com muitos altos e baixos, construindo
uma cultura de cordialidade e uma civilização da qual estão orgulhosos.
Além disso, é com essa base que, nos últimos anos, o diálogo entre
cristãos e muçulmanos tem se aprofundado.
A situação dos cristãos exige uma posição clara e corajosa por parte
dos líderes religiosos. Todos devem ser unânimes em condenar com clareza
esses crimes e denunciar a invocação da religião, para justificá-los.
Do contrário, que credibilidade terão as religiões, seus seguidores e
seus líderes?
Unamos nossa voz à do papa Francisco: "Que o Deus da paz reforce todo
desejo autêntico de diálogo e de reconciliação. Nunca se derrota a
violência com a violência. A violência é vencida com a paz".
CNBB, 18-08-2014.
*Dom Murilo S.R. Krieger é arcebispo de Salvador (BA).
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